e todo caminho deu no mar

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"lâmpada para os meus pés é a tua palavra"
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sábado, 18 de dezembro de 2010

rede

Para Vânia (Niteroi), Valérias (São Carlos e Nova Iguaçu) e TT (Natal)

Dorival Caymmi tem um verso que, por incrível que pareça, pode ser entoado como epígrafe para o grande intertexto que é a internet: “era só jogar a rede e puxar/ a rede” (“Milagre”). Jogado na rede, conversa puxada, ganho amigos, navego...

Navego na superfície das águas e das curvas do MAC de Niterói. “A flor de concreto do Niemeyer”, de Antonio Cícero. O espelho das águas “apruma” o museu. O museu mergulhado na baía batiza. Regenera. O riacho esbarra sua pressa. Perto de muita água tudo é bom e feliz? Memórias de homens e águas misturados. Superfícies. Lâminas. Escolas das facas e pedras limando águas da seca e da fé.

A fala do sertanejo – essa “árvore pedrenta” plantada pelo “engenheiro” Cabral em solo seco. Quem viu o 11 de Setembro sabe que as idéias da profundidade e fundamentação deram no cultivo da queda e da dor como formas de “revelação” da verdade. Espelhos das águas. Superfícies da internet. “Era só jogar a rede...”

sábado, 14 de agosto de 2010

Otimismo sorrateiro

Coisa estranha, meu deus. Desconfio de crítico, escritor ou artista que, aparentando sintonia com o seu tempo, não usa e-mail, celular, internet e ainda desconfia da cultura.

Num tempo sem essência, privacidade, mistério, difícil é encontrar a palavra original ansiada por alguns. Difícil mesmo é habitar paisagens do silêncio após anos de alarido sob holofote. Quem foi mesmo que disse ser o crítico um leitor que rumina e que, portanto, deve ter mais de um estômago?

Ainda bem que existe um escritor espanhol chamado Enrique Vila-Matas que curte blog, e-mail e literatura. Diz ele: "Tudo permanece, mas muda, pois o de sempre se repete, perecível, no novo, que passa rapidíssimo."

quarta-feira, 24 de março de 2010

Atento ao contexto



Tem blogero saudando a primavera em pleno outono.
Trata-se de licença poética ou dilema afetivo? Paródia
do Gil em “ser o verão o apogeu da primavera”?

quarta-feira, 17 de março de 2010

Letras e máquinas na pele

A infância das máquinas e a maturidade das letras



A fixação do progresso por meio de catálogos e aparelhos de televisão. Só a maquinaria. E os transfusores de sangue.

Oswald de Andrade, “Manifesto Antropofágico”



Em parte a gente é arte/ em outra parte, técnica

Antonio Cicero e Marina Lima, “Acende o Crepúsculo”




Sabemos que, desde Aristóteles e sua Poética, arte e técnica têm tudo a ver. Sabemos também que, desde o final do século XIX, a linguagem – principalmente a linguagem literária - começou a ganhar um novo impacto a partir do desenvolvimento tecnológico. Isso foi intensificado durante todo o século XX com a instauração do que chamamos de Modernidade: uma estética que possui no ceticismo e no deslocamento duas de suas principais “senhas”.


A criação de objetos e máquinas como a lâmpada elétrica, o automóvel, o cinematógrafo, o vídeo, a TV e a máquina de escrever transformaram radicalmente os cenários e costumes da vida urbana. Nas cidades, as ações cotidianas – mediadas principalmente pela técnica - passaram a ser mais imediatas, o que de certa forma interferiu no ritmo da produção da escrita e na recepção das artes e culturas.


Também o aparecimento da imprensa diária contribuiu para a mudança de hábitos. Formou um novo tipo de leitor. Um leitor com um outro ritmo de leitura. Desde então, a literatura passou a ter uma forma mais apressada de recepção; e gêneros como o romance, por exemplo, sofreu influência do jornal. A literatura começava a perder a sua aura.

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Uma nova sensibilidade no ar



Difícil não perceber que a entrada de tanta tecnologia em cena contribuiu para a mudança de percepção do sujeito. E a lição do crítico e pensador Walter Benjamin nos ensina que quando muda essa percepção, transformam-se os modos de existência da coletividade e os seus meios de produzir arte e cultura. Cria-se, com essa transformação perceptiva, uma re-leitura do contexto.


Para essa releitura do contexto, gosto muito de lembrar um autor que os jovens alunos adoram: o poeta Paulo Leminski, romancista que publicou em 1975 o denso e injustamente esquecido Catatau. Ele foi professor de História, ensaísta e tradutor de Petrônio, Joyce e Lennon, dentre outros.

Sintonizado com a concretude do seu contexto histórico e estético, Leminski leu Oswald de Andrade, e por isso sabia que a poesia existe na maquinaria e nos fatos. Por causa deles, os fatos, o poeta não perde a sintonia com o contexto, e sabe que não apenas as formas estéticas e culturais são históricas e mutantes, mas até os sentimentos, os nossos gestos... São as mutações identitárias dos filhos da modernidade e suas movências... Leminski leu Karl Marx, é claro. E escreveu um texto belíssimo, como diria minha querida amiga Tetê, chamado "Latim com gosto de vinho tinto".


Voltemos às novas sensibilidades que sedimentam as identidades modernas. Somos testemunhas de que vários fatos contribuíram para a produção de outras linguagens, além das mutações e alterações nos ritmos e tons do texto literário. Dentre esses fatos e mutações mencionamos:
- a leitura do jornal
- a possibilidade de observarmos imagens que se locomovem na tela - do cinema, da TV, do PC
- a transformação do ritmo temporal gerada pelos meios de locomoção
- a criação de uma escrita automática...
Esses são alguns dos fatos e/ou motivos que contribuíram para que o texto literário ganhasse uma outra oralidade e/ou um outro ritmo no início do século XX. Neste início de milênio, esse ritmo torna-se mais radical, a partir do advento da informática, dos roteiros da computação e da escrita virtual. Surge uma oralidade maquínica que gera outras modalidades de escrita.


Nada disso eu soube dizer quando defendi a “letra” contemporânea na Universidade. "Letra" essa sintomaticamente inscrita num Departamento de Tecnologias e Linguagens. Tudo a ver. Uma “letra” do meu tempo. Escrita com as tintas e as trevas do presente. Conteúdos mais voltados para os roteiros das novas tecnologias que se inscrevem, de forma irreversível, em nosso contexto histórico, estético e cultural. Isso porque muito me inquieta a distância que separa a subjetividade maquínica que aciona atualmente o nosso cotidiano, e o quadro de giz do século VXIII com o qual buscamos inscrever o universo de quem nos assiste.


Essa “letra” contemporânea faz-me pensar na palestra que o crítico George Yudice proferiu na UFRJ em 2009. O autor de A conveniência da cultura: usos da cultura na era global iniciou a sua comunicação ressaltando a importância dos professores e pesquisadores atentarmos para o universo dos jovens. Segundo ele, os jovens alunos devem ser inseridos "libidinosamente". Essa inserção tema ver com o fato de que, na sua opinião, "as mudanças culturais não estão relacionadas apenas com a cultura". Essas mudanças têm a ver com a escola e com as políticas educacionais, pois no atual contexto a cultura é lida como "prática material", e não apenas como uma abstração, um bem simbólico.

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Professores gostam?



Segundo Yudice, a maioria dos professores não conhecem (ou não se interessam) pelas práticas culturais dos jovens contemporâneos: video-games, yotube, blogs, chats, MP-3, músicas no pc... Para ele, esse desconhecimento dificulta a interação entre mestres e alunos. Inseridos na atual "cultura do acesso", esses jovens sentem-se desinteressados pelo modelo proposto pela escola.

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Atentando para a importância dos suportes materiais e dos produtos midiáticos da cultura, o ensaísta ressalta "os lugares de socialização da internet". Para tecer relações com o atual contexto digital e midiático, onde novas tecnologias proporcionam o surgimento de outras sensibilidades, o crítico americano resgata a leitura que Walter Benjamin faz do flaneur e do seu trânsito no espaço urbano no século XX.


Segundo ele, a expressão dessas sensibilidades exige outros modos de percepção, outros meios de interação; assim como as formas perceptivas que o pensador alemão conseguiu captar nas primeiras décadas do século XX, principalmente através do cinema e da arquitetura. Principalmente através das Passagens de Paris, suas modas e mercadorias, e da poesia de Baudelaire.


Já ouvi muita gente boa dizer que, se vivo estivesse, Walter Benjamin leria hoje os shoppings... Tudo a ver. Ele sabia que o crítico é um leitor que rumina. Por isso precisa ter vários estômagos, múltiplos olhares...


terça-feira, 11 de agosto de 2009

Outra forma de ver e significar

"Quem escreve em blog sabe que está sendo observado o tempo todo, o que contribui para fazer da escrita uma encenação em que se constrói uma persona. O narrador perdeu a virgindade. As pessoas já vêm com uma má-fé. Esses escritores novos têm uma irnonia e uma acidez muito cruéis. Tudo tem sempre um travo."

HBH, O Globo, 11 de Agosto de 2009

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

ENTER - Antologia Digital

Site
criado
pela
professora
e escritora
Heloisa
Buarque
de Hollanda
será
lançado
nesta terça.
Clique
no flyer
para
ler
ampliado.

Diz Heloísa: "Enter faz você entrar em outro sistema. Tenho certeza que, para pensar a literatura na internet, é imprescindível que cada um pressione a tecla 'enter'... Não podemos usar os mesmos comandos mentais e teóricos que usamos fora da web. É preciso aceitar o rito de passagem, se permitir entrar em outra lógica de percepção, experimentar novas relações com a palavra, com os autores, com a ideia de literatura na web."

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Cinema Tecnologia Percepção no MAM



Cinema Tecnologia Percepção - Novos diálogos é o título do colóquio internacional que iniciou ontem, dia 30, e vai até amanhã, no Museu de Arte Moderna, Rio de Janeiro. O encontro reune pesquisadores brasileiros, franceses e argentinos para discutir "o estatuto do cinema e da imagem" mediante o impacto das novas teconologias. "O que figura o figurante: o casting daquele ou daqueles que representam o povo", de Marie-Jose Mondzain (École des Hautes Études en Sciences Sociales) é o título da execelente conferência que abriu o evento.


Em sua fala, a autora chamou atenção para os que aparecem na tela, mas não possuem uma identidade própria. Apesar disso, esse seres são tocados pelo "brilho erotizado" da câmara. Corpos transformados em significantes do desejo. Sua fala atenta para o significado político desses figurantes no cinema. Para ela, é importante encarar como uma "energia política" a figura do figurante; o homem da multidão, o homem do povo, o homem da rua - aquele para quem Baudelaire, Põe e Benjamin direcionam o olhar moderno.


Segundo Marie, foi a primeira guerra quem criou os corpos sem nomes, as sombras, os soldados que seriam despois transformados em Monumentos aos Soldados Desconhecidos. Lembrei de Benjamin novamente, para quem o homem retorna da guerra sem querer narrar o horror que viu. Segundo ele, isso também contribui para a morte da narrativa.


Adorável vagabundo - filme dirigido por Frank Capra (A Felicidade Não Se Compra), com Gary Cooper e Barbara Stanwyck no elenco - serve de exemplo para a aprição deste fulano de tal, deste João Ninguém que aparece na tela. Com imagens intercaladas na tela durante a conferência, o filme narra a história de uma jornalista. Após ser demitida, ela publica como seu último artigo uma carta com o nome fictício de John Doe. O texto gera tamanha repercussão que um homem simplório acaba sendo tomado como o autor dela, e fazendo com que os fatos saiam do controle dos poderosos. A partir desta obra, são elaboradas múltiplas relações políticas, estéticas e sociais com o herói sem nome; com este que não é herdeiro de porra nenhuma e que representa uma multidão de trabalhadores, de soldados, de rostos sem assinaturas.


Essa problemática está relacionada com a Era Industrial. Com o modelo do homem médio americano. Põe em cena os paradoxos da democracia social e a questão da visiblidade e da representação popular. Nsta altura, a pesquisadora atenta para o populismo como regime que explora o horói sem nome, e questiona a crença na verdade política. No final de sua fala, a autora atenta para este figurante como o corpo estranho de toda grande narrativa. Um corpo que nos lembra muito bem a nossa própria solidão de cidadãos em busca de uma identidade social. Noite marcante: além da bela conferência, o visual noturno do Rio visto do MAM, da baía. A cidade lida por outro ângulo, como sugere Clavino em As Cidades Invisíveis. Mas essa já é outra história. Amanhã eu narro mais sobre o colóquio.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Yúdice na UFRJ

A seguir, 4 takes construídos a partir da comunicação de George Yúdice. Ele é professor da University of Miami e autor de, dente outros títulos, A conveniência da cultura: usos da cultura na era global - livro lançado pela UFMG em 2005.

1 - Yúdice iniciou a sua comunicação ressaltando a importância dos professores e pesquisadores atentarmos para os jovens. Segundo ele, os jovens alunos devem ser inseridos "libidinosamente", já que, na sua opinião, "as mudanças culturais não estão realcionadas apenas com a cultura". Essas mudanças têm a ver com a escola e com as políticas educacionais, pois no atual contexto a cultura é lida como "prática material" (Abril Trigo).
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2 - Segundo Yúdice, a maioria dos professores não conhecem (nem se interessam) pelas práticas culturais dos jovens contemporâneos: games, youtube, blogs, chats, MP-3, música baixada no pc... Isso dificulta a interação entre mestres e alunos. Inseridos na atual "cultura do acesso", esses jovens sentem-se desinteressados com o modelo proposto pela escola .
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3 - Atentando para a importância dos suportes materias e dos produtos midiáticos na cultura, o ensaísta ressaltou "os lugares de socialização da internet". Falou das possibilidades de movimentos culturais e econômicos a partir dessas redes. Ressaltou pesquisas voltadas para a programação cultural na TV destacando, como exemplo, as relações inusitadas entre os desafios propostos pelos reality shows e a tragédia grega. O prof. citou Antígona, de Sófocles, como exemplo de um dos textos clássicos a partir dos quais é possível traçar relações entre a "experiência pessoal como encenação" e "produto comercial" e o roteiro experimental dos personagens trágicos.
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4 - Walter Benjamin e sua leitura do flanêur em trânsito pelo espaço urbano no século XX foi resgatado por Yúdice. Com base nessa leitura benjaminiana, ele tece relações com o atual contexto digital e midiático, onde novas tecnologias proporcionam o surgimento de outras sensibilidades. Segundo ele, a expressão dessas sensibilidades exige outros modos de percepção, outros meios de interação; assim como as formas perceptivas que o teórico e escritor alemão captou nas primerias décadas do século XX, através do cinema e da arquitetura.