e todo caminho deu no mar

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"lâmpada para os meus pés é a tua palavra"
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terça-feira, 29 de março de 2016


O Chico Antônio de Mário de Andrade
 
Para o amigo e poeta Marcus Salgado

                                                                                     Jornal O Galo n 3, Natal, Março de 2016


Ao longe as dunas, o mar verde do Rio Grande do Norte
Mário de Andrade, Café

O coqueiro potiguar Chico Antônio é o personagem luzidio e sensual, inconsciente do seu valor cultural, em Café, último romance de Mário de Andrade

I – Romance “narrado” nas cartas

Quem lê ou estuda a cultura brasileira sabe que o escritor Mário de Andrade (1893 - 1945) adorava cartas. Passados mais de 70 anos da sua morte, sabemos que o escritor paulista – um dos principais inventores do nosso Modernismo – correspondeu-se com grande parte da intelectualidade brasileira, como atesta a publicação de sua correspondência com Carlos Drummond, Câmara Cascudo, Henriqueta Lisboa, Moacir Werneck de Castro, Fernando Sabino e Manuel Bandeira, dentre outros.

Numa carta a Manuel Bandeira em 1929, o autor paulista refere-se ao livro que seria o seu primeiro romance após a publicação de Macunaíma (1928). Diz Mário, nesta carta ao poeta pernambucano, estar escrevendo um “romance Café”, cujas páginas estão “cheias de psicologia e intensa vida”. Doze anos depois, o romance de “psicologia” e “vida” continua sendo “narrado” na correspondência. Numa carta a Moacir Werneck, em 1941, Mário escreve: “... Café ... tem um sentido mais viril e mais geral.”

Café é um livro cuja “virilidade” estetiza o contexto fascista dos anos 20 e 30, quando o país intensifica o projeto urbano-industrial, e inicia o declínio econômico do produto de exportação que intitula o romance. O Estado de SP é o espaço narrativo, sendo a cidade, a “Pauliceia Desvairada”, uma “personagem” relida com ironia e afeto. O autor critica a porção inculta da aristocracia ítalo-paulista, nas primeiras décadas do século XX, quando o centro de São Paulo ainda ostentava ares provincianos.

Trata de viagens, travessias e migrações o romance inacabado A pegada antropológica da narrativa e suas etnias deslocadas atualizam a ficção de Mário, e o seu desejo moderno de dar uma alma para o Brasil. Nas referências às culturas nordestinas e italianas, lemos o desconforto do nordestino na metrópole de múltiplas identidades culturais. Por terem “senso de sonho” e “a pecha de... brigões e instáveis” (p. 85), os nordestinos sofrem quando comparados aos italianos e suas conquistas materiais.

II – Potiguar é personagem principal

Café foi publicado em 2015, setenta anos após a morte do seu autor, pela pesquisadora Tatiana Figueiredo. Dividida em duas partes, a narrativa tem Chico Antônio (1904-1993) como personagem principal que atravessa a primeira parte. O homem que formata e viriliza o romance de Mário de Andrade nasceu em Pedro Velho, município situado no litoral do Rio Grande do Norte, cujo nome homenageia o médico potiguar que fundou o jornal A República, e foi o primeiro governador do Estado.

Mário de Andrade e Câmara Cascudo no RN

Chico e Mário se conheceram na primeira viagem etnográfica do poeta ao RN em 1927, tendo como anfitrião o escritor Câmara Cascudo. Na ficção, o cantador é filho de um homem sem passado que “fuzila com a voz”. Se o pai fuzila, o filho ilumina quando canta cocos tipo "Boi tungão", um dos preferidos de Mário, e "Usina (tango no mango)", gravado pelo grupo pernambucano Mestre Ambrósio.

Os textos publicados nas imprensas potiguar e paulista registram o impacto que o coqueiro causou no cronista. Café é o sexto livro de Mário que tem Chico como personagem. Os outros livros são Os Cocos, Danças Dramáticas do Brasil, Melodias do Boi e Outras Peças, O Turista Aprendiz, que reúne crônicas publicadas no Diário Nacional, e Vida de Cantador. Este último foi escrito, segundo o autor, com “elementos da vida e da psicologia do Chico Antônio de carne e osso que foi meu amigo”.

Mário abre assim o seu Café: “Chico Antônio apenas se percebera um pouco enfarado quando a noite caída não permitiu mais enxergar as paisagens passando pelo trem.” O autor ficcionaliza a chegada do cantador de coco nordestino à metrópole paulista, onde a “boniteza violenta” lembra Recife. Homem forte e aluado, o potiguar “enfarado” é movido pelo ritmo, pela música. Interage com animais e transita na ficção como personagem potente, mas sem “noção de tempo nem de espaço”.

Essa potência inconsciente é lida em fragmentos romanescos que ratificam o “sentido” viril e a “intensa vida”, anunciados pelo epistológrafo nas cartas para Manuel Bandeira e Moacir Werneck. A página 49 de Café dá conta da intensidade vital do personagem, ao estetizar um Chico vitorioso em seus deslocamentos: “Andarilho por delícia, por destino, não possuía noção de tempo nem de espaço. ... tinha uma paciência chegadeira que na sexualidade o levava até as vitórias do macho...”.

O autor celebra os “traços confiantes” do cantador, cujo repertório narra as aventuras de bichos fortes e velozes da fauna sertaneja, como o boi. Inscreve o instrumento musical que acompanha o coqueiro e os “valores de som” do seu canto. Atento aos efeitos do significante linguístico, ele escreve: “... na pancada do ganzá, desintelectualizado, todo ele se fundia numa nebulosa de inconsciência eloquente, em que as próprias palavras não possuíam mais que valores de som” (p. 67).

Embora Café não ambicione explorações linguísticas, o registro destes “valores de som” sugerem a força estética do significante, e os seus efeitos lúdicos no repertório musical de Chico. O romance ratifica escritos antigos nos quais O empalhador de passarinho sugere a inconsciência do artista potiguar: “Não sabe que vale uma dúzia de Carusos, vem da terra, canta por cantar, por uma cachaça, por coisa nenhuma e passa uma noite cantando sem parada. Já são 23 horas e desde as 19 horas que canta...”.

III – Coqueiro: máquina de ritmos

Escrito nas três últimas décadas nas quais Mário viveu, o Café brotou de antigos textos do autor que era crítico de música e pesquisador de teoria musical e de musicoterapia. O coqueiro transformado em personagem do romance, foi descrito em crônica de 1929 no Diário Nacional: “De noite, aparece Chico Antônio, o coqueiro. Simpático e formidável. Noite inesquecível”. O cantador comoveu o crítico moderno que diz: “Estou divinizado por uma das comoções mais formidáveis da minha vida”.

O corpo de Chico – amolado e aceso – é uma máquina de ritmos. Na memória do cronista, o coqueiro é “esporte” e “sonho”. Sua performance é também “heroísmo”. A esses temas e procedimentos, Mário associa o repertório musical do cantador e sua força nativa, além de criar o verbo relumear para dizer da luz dos seus olhos, vejam:

“Que artista. ... O que faz com o ritmo não se diz! ...Chico Antônio vai fraseando com uma força inventiva incomparável, tais sutilezas certas feitas que a notação erudita nem pense em grafar, se estrepa. E quando tomado pela exaltação musical, o que canta em pleno sonho, não se sabe mais se é música, se é esporte, se é heroísmo. Não se perde uma palavra... ajoelhado pro Boi Tungão, ...contando a briga que teve com o diabo no inferno, numa embolada sem refrão, durada por 10 minutos sem parar. Sem parar. Olhos lindos, relumeando numa luz que não era do mundo mais. Não era desse mundo mais...”

Além do canto e da luz de Chico, registrados nesta crônica, Mário celebra, no romance tardio, o corpo jovem do coqueiro norte-rio-grandense e sua sensualidade viril. O Chico romanesco de Mário é feito de ritmo, luz e carne. Repleto de figurações metonímicas do corpo, como atestam os takes de pele-olhos-nariz formatados pelo narrador: “a tez polida brilhando e os incomparáveis olhos meigos, com o nariz sensual mas bem feito, o corpo pesado mas com uma juvenilidade esbelta...” (p. 105).

IV – Eles deixaram algum espaço

Café estetiza, no corpo, a angústia do embolador em trânsito pela cidade. O canto e o andar de Chico conduzem o trio masculino pela travessia urbana. Na noite paulista, o narrador registra o “recato de desaponto” (p. 103) do coqueiro excitado, cuja noitada atribulada expõe a sexualidade do personagem potiguar, e acaba assim: “Ficou indiscretamente excitado, no poder da angústia. Respirou forte, abanando as narinas, como colhendo no ar a direção das fêmeas.” (p. 10).

A prosa moderna de Mário de Andrade expressa a percepção dos seres que deixam para traz algum espaço seja um estado, uma região ou um continente. Nela o autor celebra o canto luzidio e o corpo do cantador potiguar deslocado de sua terra. Estetiza as culturas do interior paulistano. O cotidiano moderno dos ricos pouco civilizados que mudam de classe social, trocam o interior paulista pela capital, onde os saberes e os gestos da cultura são permanentemente atualizados junto com a história.

 Capa do CD Carretilha de Cocos, produzido pela Fundação Hélio Galvão, Natal, 2001.

Café estetiza a imigração no contexto sócio-político do Brasil no entre guerras. Os nordestinos, a exemplo dos imigrantes italianos, transitam por São Paulo em busca de emprego ou possibilidade de ganho. “Andarilho por destino”, Chico Antônio atua no romance com a firmeza de quem canta desde os antigos cadernos, crônicas e livros de Mário de Andrade. Ao reler as nossas identidades culturais, o autor moderno retirou o colete da linguagem beletrista e carnavalizou, nos trópicos, a vida dos seus personagens.

Bibliografia
 
ANDRADE, Mário de. Café. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015.
____ O Turista Aprendiz. Introdução e notas: Telê Porto Ancora Lopez. Belo Horizonte: Itatiaia, 2002.
____ A Lição do Amigo. Cartas de Mário de Andrade a Carlos Drummond de Andrade. Rio de Janeiro: José Olympio, 1982.
____ Cartas de Mário de Andrade a Luís da Câmara Cascudo. Introdução e notas: Veríssimo de Melo. Belo Horizonte/Rio de Janeiro: Villa Rica, 1991.
____ Correspondência Mário de Andrade & Manuel Bandeira. Org. Marcos Antônio de Moraes. São Paulo: Edusp/ Instituto de Estudos Brasileiros, 2000.
JARDIM, Eduardo. Eu sou trezentos. Vida e Obra de Mário de Andrade. Rio de Janeiro: Edições de Janeiro, 2015.
Nonato Gurgel é autor de miniSertão (poesia) e Luvas na Marginália (ensaio), e professor de Teoria da Literatura e Literatura Universal da UFRRJ.

Rio de Janeiro, 2015/Baía Formosa, 2016


 

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

A poeta e a cidade

 
Para Marília Gonçalves
 
 
 
Natal, cidade dos vagalumes,
Cidade verde, de coqueirais.
 
                 Palmyra Wanderley
                 Roseira Brava, 1929


terça-feira, 3 de junho de 2014

Laranjeiras de luto



Rio, tarde de Junho de 2014
hospital de cardiologia de Laranjeiras

O fotógrafo morto dentro de um ônibus, em frente ao hospital federal, é a imagem da saúde no Brasil. Na tv, 31 policiais mortos, este ano, nas UPPs do Rio. Takes da nossa violência cotidiana. Imagens da rua e da tela formatam o imaginário social feito de pequenas catástrofes urbanas. Como este homem que morreu de enfarto. Em frente ao hospital de cardiologia.

A direção do hospital alega problemas de comunicação. Segundo ela, a senhora que pediu socorro não expressou, na intensidade correta, o seu pedido. A linguagem como instrumento do poder. Embora o hospital não tenha entendido a gravidade, parabéns para o motorista que parou o ônibus em frente ao hospital.

 

sábado, 12 de abril de 2014

mitologia na metrópole


Uma versão deste texto foi publicada no livro Diásporas e deslocamentos: travessias críticas. Org. Oliveira, Paulo César e Carreira, Shirley de Souza. Rio de Janeiro: FGV, 2014.
 
Resumo: Este ensaio atenta para as formas como o poeta, filósofo e compositor Antonio Cicero relê, através do texto clássico,  a narrativa mítica no início deste milênio. Nesta releitura, o autor desloca-se no tempo e atualiza o imaginário contemporâneo em alguns poemas de A Cidade e os Livros (2002). 
 
 
Palavras-chave: Literatura. Poesia contemporânea. Interdisciplinaridade. Mito. Forma. Imaginário. Antonio Cicero.


Para Beatriz Resende
 

I – Nossa antiga “infância social”

Intitulada “Com sede dessa água”, a primeira versão deste texto foi apresentada na UERJ, no I Simpósio de Estudos Helênicos – Do Clássico ao Contemporâneo – realizado no Rio de Janeiro em 2004. Para construir algumas conexões entre o texto clássico e a poética contemporânea, elegi como objeto de leitura alguns textos de Italo Calvino e Paulo Leminski, dentre outros autores; e embora nesta segunda versão o recorte teórico e intercultural tenha sido ampliado, continuo tendo como referencial a poética de Antonio Cicero.

A produção estética e cultural de Antonio Cicero traduz muito da vitalidade da língua e da produção artística dos autores gregos e latinos. Seja através das canções, dos poemas ou ensaios, o poeta de A Cidade e os Livros (2002) demonstra ser um exímio leitor de Homero, Virgílio, Anacreonte, Ovídio e Heráclito, dentre outros autores representativos da antiguidade clássica. Ao acionar a releitura desses autores canônicos, Cicero dialoga com as formas imaginárias e os roteiros reflexivos que nos legaram os clássicos.

Nessa relação do poeta carioca com a arte clássica, destaca-se a leitura das formas poéticas, das narrativas da mitologia e dos discursos da filosofia. O poeta relê e atualiza fragmentos capitais das formas artísticas e dos discursos míticos construídos por aqueles povos. Sobre eles são marcantes, por exemplo, as leituras feitas por outro filósofo que, assim como Cicero, é também um exímio leitor dos autores clássicos: o economista Karl Marx (1999:123).

Sugere o autor de O Capital que, ao erigir essa arte clássica, ao engendrar a tessitura de seus poemas e narrativas, os autores gregos e latinos vivenciaram – e inscreveram – um estágio da humanidade correspondente à “infância social” da raça humana. A inscrição desse estágio atravessa séculos, e ainda se encontra em vigor num mundo que continua sendo lido e configurado por meio de formas míticas. Formas essas que aparecem, por exemplo, nos vários palcos e telas (de cinema, vídeo, TV, pc ...) nos quais os mitos de Prometeu, Narciso ou Ulisses continuam em cartaz.

“O mito é o nada que é tudo”, diz Fernando Pessoa em Mensagem, abrindo o poema que tem “Ulisses” como título. O poeta moderno sabe que o mito formata o mundo. A modernidade começa, para Leminski, com um “pensar sobre” os mitos. Por isso, a mitologia pode ser lida como um conjunto de formas narrativas, signos culturais e símbolos filosóficos construídos pelos mais diferentes povos no decorrer dos tempos e em múltiplos espaços, na busca da compreensão e do sentido para a existência.

Essa busca existencial visa entender o que não é da ordem do visível ou da razão, resultando numa adição de saberes e ações compostas por elementos físicos, espirituais e intelectuais que dialogam com dados referenciais e históricos repassados de geração a geração. Esse repasse geracional sugere que as mutações e os deslocamentos operados pelos mitos são determinados pela história. Sugere principalmente que o mito surge do processo cultural e coletivo, não sendo, portanto, nenhum produto natural (embora, segundo Rolando Barthes, o mito postule “a imobilidade” da natureza).

A configuração do mundo contemporâneo através dos escritos míticos e clássicos pode também ser aferida por meio de um texto belo como “Latim com gosto de vinho tinto”, do poeta Paulo Leminski (1987:188). Neste texto que serve de posfácio para a sua tradução do Satyricon – narrativa escrita pelo romano Petrônio, e que é considerada o primeiro romance ocidental –, o poeta paranaense diz:

Até as vanguardas do início do século XX, pouca coisa inventamos de novo em relação à civilização greco-latina: recursos de estilo, figuras de linguagem, a distinção entre poesia e prosa, gêneros literários, formas de dizer, moldes do sentir e do pensar, esquemas mentais, tudo devemos a esses gigantes em cujos ombros estamos trepados.  

Para um país jovem como o Brasil, a leitura desse legado estético e daquela “infância social” é imperativa. Ela auxilia na compreensão de nossa história que se constrói levando em conta, dentre outros, o imaginário bélico e autoritário que herdamos desde a colonização européia, passando por golpes e ditaduras dos quais temos dificuldades de rever, compreender, falar.

A leitura dos textos clássicos amplia o diálogo com essa memória social e antiga do país e com este estágio inicial da humanidade. Essa leitura aciona um deslocamento temporal, possibilitando a construção de um intertexto que põe em circulação um corpus interdisciplinar com textos da arte e da cultura, da mitologia, da filosofia... Na viagem que empreende em torno do imaginário grego, esse corpus é lido como uma “máquina” por Paulo Leminski (1998: 62) da seguinte forma:

Literariamente, essa imensa máquina imaginária atravessou viva a idade Média, reacendeu no Renascimento italiano e sobreviveu, impávida, até o romantismo europeu do século XIX, quando começa seu processo de esquecimento. De Homero a Goethe, passando por Dante e Shakespeare, numa linha ininterrupta, durante mais de dois mil anos, o imaginário grego foi o primeiro alimento do poeta ocidental culto, seu “soft-ware” de fantástico, referencial de imagens...

Nesta releitura intertextual operada pelo poeta contemporâneo, esse legado milenar das artes e culturas clássicas é relido enquanto “máquina imaginária” e reflexiva que aciona formas e forças de quem lê e escreve na contemporaneidade. Essa “máquina” impulsiona a produção subjetiva do leitor, elaborando figurações no corpo e na mente, fabricando discursos e formas no espaço. Trata-se de uma releitura potente, cuja força constrói o poema, cuja subjetividade pode erigir um país – “O país das maravilhas” (2002:13), espaço aberto à inscrição e à celebração das coisas no mundo exterior.

Na poética contemporânea criada por Antonio Cicero não ecoa o discurso de nenhum herói grego ou latino. Quando o poeta outorga voz para um herói ou uma divindade, eles parecem encenar, através da oralidade cotidiana do presente, sua porção terrestre no aqui e agora. O poeta dota de linguagem cotidiana, abastece de tonalidade humana aqueles deuses e mitos eternamente estetizados com base numa linguagem olímpica, celebratória.  

O discurso exaltatório ou a narrativa grandiloqüente que durante séculos perdurou no universo das letras e da cultura é rasurado, convertido. Essa conversão lingüística parece sintonizada com o discurso reflexivo do próprio poeta carioca, ao cognominar de esquisito (do vocábulo latino ‘exquisitus’), de requintado, o sujeito que faz arte. Diz Cícero (1995: 175): “... o artista é perverso em relação às versões canônicas, às formas e às ordens, quer dizer, aos mundos positivos do seu tempo”.

Essa “perversão” em relação às formas estéticas pode ser lida na inscrição de alguns procedimentos poéticos e de algumas estratégias subjetivas relacionadas às divindades “devoradas” pelo poeta.  “Perversão” essa que é também sugerida na leitura da mitologia como “o poder que a linguagem exerce sobre o pensamento, e isto em todas as esferas possíveis da atividade espiritual” (1972:19).

II – Prometeu e Palomar

Os filhos de Prometeu se rebelam.


Paulo Leminski, Metaformose



Dentre os procedimentos estéticos utilizados por Cicero nessa “devoração” da tradição, destaca-se a releitura da narrativa mítica em sintonia com as formas contemporâneas e o “espírito urbano” (1972:16). Nesse intertexto com as formas clássicas, alguns dos poemas e ensaios do autor sugerem outros modos de leitura e reflexão. Ao deslocar-se para a antiguidade clássica, o poeta contemporâneo dota de visibilidade humana algumas divindades geralmente estetizadas através de um olhar olímpico. Por meio dessa dotação visível, ele propõe ao leitor a visibilidade do seu tempo.

Através dessa perversão óptica, dessa troca de olhares entre seres humanos e divinos, Antonio Cicero constrói uma linguagem leve, sem peso e que atualiza, neste início de milênio, a dicção milenar das narrativas clássicas. Essa permuta óptica e a atualização dessa dicção poética são visíveis e audíveis no poema “O grito” (2002: 33), onde é estetizada a voz de Prometeu.

 Ensina a mitologia que, por ter roubado de Zeus as “sementes do fogo” para trazê-las à terra, Prometeu é acorrentado a um rochedo. Sobre ele é lançada uma águia que devora o seu fígado. Mito que simboliza a revolta do espírito, o titã Prometeu é uma divindade que marca o advento da nossa consciência aqui na terra, e que ilustra a fome do saber humano. Segundo Bachelard (1990: 91), a imagem de Prometeu contribui “para uma poética do humano”.  Atentando para o fogo (“a fricção ou o choque”) e as figurações criadas em torno deste titã e seus símbolos, o autor francês assegura que “o Prometeu poético nos convida a uma estética do humano”.

Desde “Prometeu Acorrentado”, de Ésquilo, passando por Goethe e outros românticos como Castro Alves, o mito de Prometeu é um dos mais estetizadas pelos poetas ocidentais. Em nossa moderna historiografia literária isso pode ser ratificado num poema da década de 30, como “Novíssimo Prometeu” (1959:108), de Murilo Mendes, que começa assim: “Eu quis acender o espírito da vida,/ Quis refundir meu próprio molde...”. Mais de meio século depois, o “Prometeu” (1996:162), da poeta Orides Fontela é bem diferente. Publicado em Alba, o poema inicia, sem nenhum desejo, mas urdindo – num verso curto – o código jurídico da vida urbana ao ser natural: “A Lei/ cinzenta – ave de/ rapina...”

Observemos, a seguir, as “imagens prometéicas” criadas por Cicero para atualizar esse mito. Ouçamos o eco do seu grito nas “paisagens urbanas”. Ele silva por entre os ruídos e rumores das “urbes formigantes”. Por entre seres que se deslocam num espaço repleto de “cruzamentos” e contaminações culturais que se chocam, se condicionam e acabam por produzir o texto.


Estou acorrentado a este penhasco
logo eu que roubei o fogo dos céus.
Há muito tempo sei que este penhasco
não existe, como tampouco há um deus
a me punir, mas sigo acorrentado.
Aguardam-me amplos caminhos no mar
e urbes formigantes a engendrar
cruzamentos febris e inopinados.
Artur diz “claro” e recomenda um amigo
que parcela pacotes de excursões.
Abutres devoram-me as decisões
e uma ponta do fígado mas digo:
E daí? Dias desses com um só grito
eu estraçalho todos os grilhões.


Como demonstra o Dicionário dos Símbolos (1993:746), o mito de Prometeu representa, em sua narrativa original, o espírito que busca se igualar à inteligência divina, ou pelo menos retirar dela um pouco de luz e fogo. Alguns leitores sugerem, através de uma mirada de viés sociológico, ver nessa tentativa de retirada de luz e fogo das divindades um espírito marxista, já que seria a raça humana beneficiada, de forma comum, com tais elementos divinos – a luz, o fogo (segundo o tradutor Trajano Vieira (1999: 139) e o poeta Paulo Leminski (1998: 66), é o titã Prometeu – gigante que ousou desafiar a ira divina – o mito predileto, o herói filosófico do pensador Karl Marx).

Voltemos a ouvir “O grito”. Na releitura elaborada pela ótica poética, a ironia e o humor servem de procedimentos para a narrativa recriada pelo autor contemporâneo. Sem drama, ele atualiza essa poética clássica através de uma linguagem cuja oralidade permite a um deus escutar – do interlocutor humano – uma interjeição presente nos nossos discursos cotidianos como “claro”. Além disso, esse deus usa expressões interrogativas que retrucam e desafiam como: “E daí?”

Mais inusitado ainda é perceber a sintonia entre seres eternos e elementos corriqueiros, propondo uma sincronia entre o alto e o baixo, o divino e o humano.  Inusitado também é ouvir uma divindade preocupada com “pacotes de excursões”. Ou seja: trata-se de um deus atualíssimo, um ser que lida com roteiros de viagens e prestações a pagar. Figurinha fácil com a qual deparamos nos finais de semana da Lapa, da Ribeira ou da Augusta.

Ao ouvirmos “O Grito” é quase impossível não escutar o discurso narrativo de Palomar – a personagem de um livro homônimo de Italo Calvino. Ouvinte sensível às ondas e assobios, além de ser um leitor contemplativo das formas exteriores, Palomar transita entre a praia, o jardim, a cidade... Como todo mortal, ele sonha, reflete, imagina. Vai às compras. Descreve, narra e argumenta. Buscando o seu equilíbrio nos “cenários em ruínas” por que transitamos através do humor e da ironia, ele assegura que “até a linguagem dos deuses muda com os séculos”.

Essa transmutação lingüística acionada por Calvino nos remete a maneira como Cicero (2002) assume ler os clássicos. Diz ele para o Jornal do Brasil: “A literatura clássica constitui grande parte das idéias e do vocabulário com os quais pensamos e imaginamos o mundo em que vivemos. ...Por direito, o mundo clássico pertence aos brasileiros, assim como nos pertence a língua portuguesa”.

 

III – Com sede dessa água

 

Utilizando-se desse direito de pensar e imaginar a partir da literatura clássica, Cicero relê o vasto arquivo de formas do imaginário e da reflexão produzida pelos gregos e latinos. Exemplo disso é a releitura do mito da “Medusa” (2002:65), cujo poema de título homônimo também faz parte do livro A Cidade e os Livros. Relida pela lente da poesia e da história da cultura, a Esfinge – esse “monstro-pergunta” – metaforiza, segundo Paulo Leminski em sua Metaformose, a imagem do “primeiro filósofo, o ser questionário.”

Na leitura que empreende em torno do imaginário grego, o poeta paranaense diz que toda estátua existente em nosso planeta pode ser vista como alguém que cruzou com a Medusa em algum espaço. Nesse olhar leminskiano, ela – a Medusa – simboliza a paralisação da história, enquanto Perseu anseia por muito mais: ele quer o vôo, o movimento, a mutação. Ele tem sede e se desloca. Sua ação conjuga verbos. Por isso Perseu deseja narrar outra história. É o que Cicero aciona no poema “Medusa”: dá voz a Perseu, esse mito que descende diretamente de Zeus, ilustrando a complexidade da relação pai – filho.

Em “Medusa”, a oralidade clássica encontra-se refletida no ritmo das imagens e no recorte dos temas. Eles produzem uma linguagem carregada de tons mutantes, às vezes rápidos, fragmentados, que refletem muito da subjetividade contemporânea. Por meio desse diálogo entre a forma e a oralidade herdadas da poética clássica, Cicero atualiza, através das estratégias subjetivas do nosso tempo, a relação entre Perseu e a “Medusa”. Mas é bom relembrar que, apesar desse título, quem ganha voz no poema é o sedento filho de Zeus – o próprio Perseu, ouça:


Cortei a cabeça da Medusa
por inveja. Quis eu mesmo o olhar
sem olhos que vê e se recusa
a ser visto e desse modo faz
das demais pessoas pedras: pedras
sim, preciosas, da mais pura água,
onde o olhar mergulha até a medula,
diáfanas, translúcidas, cegas.
Refleti muito, antes. Na verdade
estes meus olhos provêm de carne
de mulher, não do nada imortal
da divindade. Como encarar
com eles a Górgona? Mas mal
pensando assim, lembrei ser mortal
ela também: e seu pai é um deus
do mar mas eu sou filho de Zeus.
Mesmo assim não quis enfrentá-la olhos
nos olhos. Peguei emprestado o espelho
da minha irmã e adentrei o cômodo
da Medusa de soslaio, vendo
tudo por reflexos:
...
Do pescoço
cortado nasceu um cavalo de asas
(é que o deus do mar a engravidara)
e mergulhou no horizonte em fogo
crepuscular. Contam que, no monte
Hélicon, seu coice abriu uma fonte.
A ser não sendo, de madrugada
levanto com sede dessa água.


Segundo Calvino, Perseu é signo da leveza. Para decepar a cabeça da Medusa que nos fita com seus olhos de chumbo, ele precisa calçar sandálias aladas. No início do poema é estetizado o desejo de um olhar que, apesar de ver, vê apenas “por reflexos”. Para cortar a cabeça da deusa, Perseu assume a necessidade de não olhá-la nos olhos, mas através do espelho por meio do qual obtém esses reflexos. Nisso reside a força deste mito: na “recusa da visão direta.”

O desejo refletido nesse olhar – que só consegue ver através de reflexos – parece apontar também para uma outra visão mitológica de Perseu e o seu olhar feminino. Essa visão é sugerida, no poema acima, ao admitir o nosso herói serem os seus olhos provenientes do corpo humano – “de carne/ de mulher”, não do corpo de nenhuma divindade.

Lida por um viés psicanalítico, a medusa aponta para a representação da imagem excessiva da culpa. “Cortei a cabeça da Medusa.” Leia-se: aboli a culpa. Segundo a narrativa clássica, quando a cabeça da Górgona é cortada, nasce um “cavalo de asas”. Esse “cavalo” alado sugere um rico significante que aponta para as idéias de potência, locomoção e deslocamento materializadas na imagem mítica e na forma do próprio poema.

No final do poema, o coice desse cavalo de asas abre “uma fonte” da qual Perseu admite brotar a sua sede. “Com sede dessa água” também vivemos nós, leitores de mitos, poemas, narrativas... Automatizados pelas forças e formas dos sistemas de dominação social que regem os mais diferentes povos e culturas, almejamos freqüentemente as águas míticas e poéticas que batizam novas leituras do mundo. Águas desse imaginário milenar que saciam desde sempre a nossa sede cultural. Nossa infinita sede de formas e linguagens em meio ao caos que diariamente nos solicita.

 

BIBLIOGRAFIA

 
BACHELARD, Gaston. “Prometeu” in Fragmentos de uma poética do fogo. Trad. Norma Telles. São Paulo: Brasiliense, 1990.

Barthes, Roland. Mitologias. Trad. Rita B e Pedro de Souza. 4ª ed. São Paulo/Rio de Janeiro: Difel, 1980.

CALVINO, Ítalo. Palomar. Trad. Ivo Barroso. São Paulo: Cia das Letras, 1994.

____ Por que ler os clássicos. Trad. São Paulo: Cia das Letras, 1993.

CAMPOS, Haroldo de. e MENDES, Odorico. Os nomes e os navios. Homero, Ilíada, I I. Org. Introdução e notas: Vieira,Trajano. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1999.

CASSIRER, Ernst. “A Linguagem e o Mito: sua posição na cultura humana” in Linguagem e Mito. Trad. J. Guinsburg e Miriam S. São Paulo: Perspectiva, 1972. 

CICERO, Antonio. A Cidade e os Livros. Rio de Janeiro: Record, 2002.

____ O mundo desde o fim. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995.

____ Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 2002. (sem título).

CHEVALIER, Jean e GHEERBRANT, Alain. Dicionário de Símbolos. 7ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1993.

FONTELA, Orides. Poesia Reunida (1969 – 1996). São Paulo: Cosac Naify/Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006.

LEMINSKI, Paulo. Metaformose. São Paulo: Iluminuras, 1998.

____ Matsuó Bashô. A Lágrima do Peixe. São Paulo: Brasiliense, 1983.

____ “Latim com gosto de vinho tinto” (posfácio) in Satyricon. Petrônio. São Paulo: Brasiliense, 1987.

MENDES, Murilo. Poesias (1925 – 1955). Rio de Janeiro: José Olympio, 1959.

VIEIRA, Trajano. “Notas & contranotas” in CAMPOS, Haroldo de. e MENDES, Odorico. Os nomes e os navios. Homero, Ilíada, I I. Org. Introdução e notas: Vieira,Trajano. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1999.

 

domingo, 27 de outubro de 2013

Coimbra é uma lição



Para Guilherme Borges, Isadora Pessoa, Patrícia e Mariza

 no coração do país

Localizada no centro de Portugal, Coimbra possui a mais antiga universidade do país. Fundada por D Dinis - "o plantador de naus a haver" (Pessoa), ela data do século XII. Nela estudaram escritores fundamentais da literatura portuguesa, como Almeida Garret e Eça de Queiroz, dentre outros. Como na canção eternizada pela cantora Amália Rodrigues, no Olympia, "Coimbra é uma lição".

Por suas tradições culturais e pela suntuosidade do seu passado histórico (aqui nasceram vários reis lusos), a cidade estará sempre a lecionar aos seus transeuntes. A lição é dada na rua, ao vivo, frente aos arcos, claustros e monumentos que os turistas devoram, através de lentes que parecem para sempre famintas.

Mas, se a lição entoada por Amália, na antiga canção, era feita "de sonho e tradição", a lição de hoje, esta que está nas ruas, possui bem curta a sua porção onírica. Não há lágrima pela fragmentação existencial, como nos tempos de Garret, nem sonhos pichados nas paredes de hoje. O tempo urge nas mentes jovens que habitam a cidade antiga, de hábitos e ritmos lentos, onde os templos do Mc Donalds convivem, sem atrito, com igrejas seculares.
 
anjos bezerros
 
Nenhuma utopia inscreve-se nos muros brancos desta cidade linda. Mesmo assim, sua aura de sabedoria e liberdade seduz mais de 30 mil estudantes do mundo inteiro. Eles reinam nas ruas. Pro-movem uma espécie de carnaval negro, chamado Latada, onde álcool, corpo, alegria e melancolia dão o tom. Com suas ostentosas trajes pretas, eles voam feito anjos negros. Parecem sempre em busca.

A dimensão desse vôo, dessa incessante busca juvenil e da falta de utopia podem ser lidos nas linguagens das ruas. Como neste grafite a carvão, escrito num muro branco, próximo a universidade: "parecem bezerros a gritar, animais". Outro grafite parece traduzir a crise, e o grito ancestral que emana deste grafite anterior: "somos filhos do Euro = Nada".

"é naquele trem que eu vou também"

Atento aos grafites escritos nos espaços históricos e mais asseados da cidade, fui surpreendido por uma espécie de grafite oral, ao vivo, na estação Coimbra B: "Comboios, ao contrário dos passageiros, dificilmente saem dos trilhos". A frase foi dita por uma transeunte para o senhor ao seu lado, cuja mala parecia pesar-lhe além das suas forças. 

Ouvi este grafite oral como uma pequena epifania, para lembrar Caio F, o escritor brasileiro que é objeto de pesquisa acadêmica de Isadora P - estudante da UFRRJ e de Coimbra. Além de Caio F, nascido em 1948, ela selecionou um poeta que nasceu neste mesmo ano em Coimbra: Al Berto. 

Mas voltemos àquela jovem senhora de pssagem: ao pronunciar o grafite epifânico, ela não sabia que algo mudaria o roteiro de nossas viagens, e a noção de pontualidade tão cara aos europeus: o trem que ali esperávamos, atrasaria cerca de 40 minutos. Coimbra é, para sempre, uma inesquecível lição do tempo.

 

terça-feira, 20 de agosto de 2013

"Esau e Jacó", crítico e leitor


 
 
Machado século XX. Machado sempre moderno.  Publicado em 1904, Esaú e Jacó é o penúltimo romance de Machado de Assis. Depois deste, veio o Memorial de Aires, de 1908, ano de sua morte. Essas duas narrativas tem mais em comum do que o simples fato de serem últimos romances: são livros feitos de cadernos. Textos transcritos de cadernos. Escritos à tinta pujante do solitário Aires.

 

Esaú e Jacó é um texto sobre a diferença. Uma prosa sobre a discórdia. Uma narrativa sobre temperamentos opostos, sejam eles republicanos ou monarquistas. Uma narrativa sobre as dualidades ideológicas e existenciais que nos circundam. Um romance sobre a ternura e o tesão, a glória e a agrura, o sublime e o grotesco. Uma ficção do “desacordo no acordo”, “entre um ato e outro”...

 

Esaú e Jacó é um texto sobre o outro. Sobre o leitor. Com ele, Machado dialoga o tempo inteiro. Nesse dialogismo, o autor pede para voltar a página; sugere modos de leitura e ratifica ser melhor ler com atenção. Atento à noção de gênero, ele destingue homens e mulheres como leitores, e poupa o leitor apressado de alguns porquês. Esse diálogo com quem lê atravessa a narrativa. Nela predomina o intertexto com autores com os quais Machado dialoga ao longo de sua produção estética, como Homero, Dante, Cervantes e a Bíblia.


um Conselheiro atravessa dois romances



Como reza a “Advertência” do autor, Esaú e Jacó são os seis cadernos escritos, com tinta encarnada, pelo Conselheiro Aires. Amante da releitura, cultor das Letras clássicas, Aires escrevia bilhetes e cartas. Cordato, o diplomata não era chegado a paixões nem casamentos. “Era homem de todos os climas” (Cap. XXXII), mas preferia a solidão atravessada a sós, como Pessoa: "suave é viver só".

 

O sétimo caderno deixado pelo diplomata transformou-se no Memorial de Aires. Ambos os livros possuem como cenário a cidade do Rio de Janeiro, onde o autor nasceu em 1839. Leitores de Machado de Assis, sabemos que, desde meados do século XIX, quando a cidade do Rio era iluminada por lampiões de rua, este constitui-se seu espaço narrativo recorrente.

 

No bairro do Catete mora Aires, o ex-ministro aposentado que oferece almoços - repletos de salmão e ofícios - para os gêmeos Pedro e Paulo e a bela Flora. É também lá, no Catete, onde termina o Conselheiro “apalpando a botoeira, onde viçava a mesma flor eterna.” Alguém vai morrer em Esaú e Jacó; e não é Aires. Ele e o seu memorial estarão vivíssimos no próximo (e último) romance de Machado.

 

A forma e o ruminante

 

Com capítulos curtos de belos e inusitados títulos, o romance é formado por micro-narrativas. Na verdade, o autor narra através de pequenos contos, canções sertanejas, quadrinha espanhola, ditos populares relidos. Seu texto é atravessado por versos ou pequenos poemas em prosa a serem desentranhados pelo arguto leitor.

 

Além dessa forma pouco linear para um romance escrito antes da Semana de 22, o texto apresenta personagens cujos olhos trazem a ironia acesa nas retinas. Ironia e humor. Há bastante humor em Esaú e Jacó. Humor e metalinguagem. Neste livro, o autor elucida parte do seu processo narrativo, através de um exercício metalingüístico que diz: “... porque há estados da alma em que a matéria da narração é nada, o gosto de a fazer e de a ouvir é que é tudo.”

 

Acerca da leitura crítica, Machado dialoga com o alemão Schlegel, de Conversa sobre a poesia e Outros fragmentos que diz: “um crítico é um leitor que rumina. Ele deve, portanto, ter mais de um estômago". No diálogo que aciona com esse autor romântico alemão, o romancista carioca que rompeu com a linearidade da nossa narrativa escreve: “O leitor atento, verdadeiramente ruminante, tem quatro estômagos no cérebro, e por ele faz passar e repassar os atos e os fatos, até que deduz a verdade...”

 

terça-feira, 14 de maio de 2013

país cordial?




Os números apresentados a seguir são do jornal O Globo e do canal GNT.



I - cordial no trabalho


a -  O ministério do trabalho contabilizou, no ano de 2012, o total de 2.849 trabalhadores em condições análogas à escravidão. 

 
 
II -  cordial no trânsito


a - Se comparamos o Brasil com a Europa e os EUA, as estátisticas sobre a violência urbana afirmam sermos o país campeão em acidentes no trânsito.
 
b - A cidade do Rio de Janeiro possui 9 mil ônibus que ciruclam diariamente. Em 1 mes, eles mataram 12 pessoas e feriram 53.

c -  O trânsito da cidade de São Paulo matou 450 motoqueiros em 2012.


 
III - cordial nas relações afetivas e sexuais

 
a - Uma média de 10 mulheres são mortas diariamente no país.
 
b - 1.505 estupros, no estado do RJ, nos 3 primeiros meses de 2013.
  
c - O Brasil é campeão mundial em assassinatos homofóbicos: foram 338 em 2012. Quase uma morte por dia.
 
 
 
 

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Cidade dos Reis: conversa de rua nas veredas da ficção



Neste quarto livro de Carlos de Souza, uma das primeiras coisas que chamam a atenção do leitor é a delimitação do espaço narrativo. A noção de espaço urbano é recortada nas idéias de cultura e poder afirmadas no título. Logo nas primeiras páginas fica claro como esse espaço sugere – e às vezes determina – a ação da narrativa. Fica claro, como diz a voz que narra, ser a cidade o espaço da “alma potiguar em ação”.

 

Cidade dos Reis atravessa a “alma” de Jonas – o personagem que nasce no primeiro dia do século XX. O livro pode ser lido como uma biografia apaixonada de Natal na travessia do século XX. Jonas em natal. Ambos se atravessam – a cidade, o personagem. A narrativa é centrada nele e suas ações, embora a personagem principal esteja anunciada desde o título: um espaço que, segundo Cascudo, nunca precisou ser vila, povoado ou distrito: já nasceu cidade.

    

Antenado com a oralidade fragmentada do seu tempo, Cidade dos Reis é uma “conversa de beira de calçada” cheia de derivas. Uma conversa sortida de ficção, história e alguma memória sertaneja: “O sertão está dentro da cabeça de cada um”, lê-se no capítulo 11. Uma conversa de rua, uma sopa de letras feita de camarão e jerimum. Rango nutrido de alguma poesia, um vasto “silêncio oceânico” e a brutalidade produzida pela moral dominante ao longo de um século.

 

Cidade dos Reis é uma “conversa” repleta de re-começos. Conversa de quem aprendeu a repetir re-começo. Memórias de um narrador que conta e reconta que é uma beleza. Ficções fragmentadas sem o rigor da gravata que burocratiza a informação, matando a narrativa. Nenhuma que se compare com a narrativa centenária de Jonas, cujas crises e mutações perpassam os 20 capítulos deste romance que atravessa o século XX e seus espaços bélicos.

 

Transitando pelas tradições cultuais da nação potiguar, o livro registra nossos “primeiros bafios da modernidade” até o Plano Real do governo FH, quando o personagem Jonas estanca a sua travessia urbana. Neste trânsito, afirmam-se algumas das mais importantes metamorfoses políticas ocorridas na sociedade potiguar e na vida cotidiana de Natal, no decorrer do século, cujas três primeiras décadas são recortadas até mais ou menos o capitulo 10.

 

Essa modernidade alcança o seu apogeu no capítulo 13. Nele surgem lendas e narrativas da ocupação americana durante a segunda guerra, quando Natal absorve outros hábitos culturais e a população urbana incorpora aos seus ouvidos e paladares novos ritmos e sabores.  Outros gestos e palavras.  A cidade fabrica outro imaginário.

 

Essa modernidade natalense pode ser aferida logo no capítulo 4. Nele o leitor tem notícias da belle époque potiguar, ao ver registrados os primeiros lampiões de gás acetileno que iluminavam as ruas das Rocas, Ribeira e Cidade Alta.  O bonde elétrico e o telefone depois. Outras figurações modernas atravessam o romance, como o sonho de Manuel Dantas, e o registro de suas conferências, cujas visões oníricas perpassam o imaginário potiguar de quem produz arte e cultura desde as vanguardas do início do século XX.


os mártires de Cunhaú e a “aspereza das mantilhas”

 

Cidade dos Reis é um livro cujas narrativas transitam principalmente entre o referente histórico e os planos míticos e culturais. Repleto de registros orais, causos antigos, lendas urbanas e ditos populares, o romance apresenta procedimentos comparativos da maior relevância estética e cultural ao reler, por exemplo, a história de Natal frente às histórias de outras cidades, como Recife – outro espaço urbano que ganha relevo nas aventuras existenciais de Jonas. Nestas releituras, o autor realça as diferenças culturais entre o domínio holandês em PE e no RN, e o leitor percebe a diferença entre as águas que correm no Potengi e noutros rios. “A literatura era um rio de águas transparentes...”, lemos no último capítulo.

 

Mergulhado nestas “águas”, o autor recorta um cânone de inscrição potiguar, onde são audíveis as vozes de autores de diferentes contextos e estéticas como Nísia Floresta, Auta de Souza, Henrique Castriciano, Palmira Wanderley, Jorge Fernando, Lenine Pinto, Myriam Coeli, Luís Carlos Guimarães, Bosco Lopes, o próprio Carlos de Souza e Câmara Cascudo, dentre outros.

 

Natal Cascudo. A cidade lida, inscrita pelo seu autor. A biografia de Cascudo, os seus livros, sua recepção crítica. As relações do autor com o Integralismo e sua adesão ao Modernismo paulista. Esses núcleos temáticos perpassam o romance, na medida em que avançam as aventuras afetivas e “profissionais” de Jonas, o “comerciante” leitor de Zila e Cascudo.

 

O paralelo entre o personagem principal e a narrativa do profeta bíblico é um dos achados deste romance polifônico onde a literatura coexiste com a memória e o texto bíblico, e onde um outro cânone – o cânone da traição, na tradição literária ocidental – é recortado nas letras de Shakespeare, Machado, Eça e Flaubert. Além destes autores, o autor dialoga com Dostoievski – outro escritor realista a quem ele recorre, quando necessita refletir ou estetizar a maldade humana que reina na Cidade... repleta de informação e poesia.  Na travessia desta Cidade..., o leitor encontra tanto os mártires de Cunhaú, da guerra do Paraguai, da guerra de Canudos e da segunda guerra mundial, como depara com um recorte vocabular – poético e violento – que mensura, mesmo no universo religioso, a “aspereza das mantilhas”.

 

lendas, ventos, conversas

 

Nesta Cidade dos Reis os homens criam lendas. Produzem ventos. Na audição desses ventos e lendas ouço algumas das figurações mais consistentes da literatura potiguar contemporânea. Repleta de restos dos discursos do senso comum (precisava mesmo de tanto lugar comum?), essa “conversa” aviva algumas das paisagens mais afirmativas da história norteriograndense. Aviva e diz muito do Brasil, a partir das narrativas e lendas criadas nesta esquina americana, cujo povo ganhou a “alcunha de Papa-jerimum”.

 

Carlos de Souza anota os nomes da terra. Dá nome aos bois. Põe “a alma potiguar em ação”. Não sei se os seus personagens sabem o preço de suas escolhas, mas pelas curvas da história e veredas da ficção, sua linguagem ajuda o leitor a configurar uma identidade lingüística e espacial nesta esquina silenciosa do continente. Por isso esta prosa deve ser lida nas escolas do Rio Grande do Norte. Parodiando Jonas e seu final, a Cidade dos Reis “interessa ao resto do Brasil”.