e todo caminho deu no mar

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"lâmpada para os meus pés é a tua palavra"
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quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Memórias de um professor do PARFOR


                                                         Para a senadora Fátima Bezerra (RN) e as orientandas do PARFOR (RJ)


I – Educação: direito e dever

Dentre os programas educacionais desenvolvidos pela UFRRJ, no século XXI, destaca-se o PARFOR – Plano Nacional de Formação de Professores para a Educação Básica, cuja recepção é bastante afirmativa nesta universidade. Criado em 2010, divulgado principalmente em sites virtuais e plataformas governamentais, o referido programa educativo contempla os profissionais que se encontram em exercício nas escolas públicas estaduais e municipais, mas que não possuem a formação adequada exigida pelo MEC para atuar em sala de aula.
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Num país com alta taxa de evasão escolar e alto índice de analfabetismo, como ainda acontece no Brasil, um programa pedagógico dessa amplitude possui importância fundamental. Desde a Constituição Federal de 1988, no seu artigo 205, sabemos que a educação é um direito de todos e dever do Estado. Em sintonia com o texto constitucional, o PARFOR é vinculado ao MEC (Ministério da Educação e Cultura) e à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e, em parceria com as Secretarias estaduais e as Prefeituras municipais, o referido programa contempla as cinco regiões do Brasil. Isso não é pouco. Como estudante de graduação, não lembro nenhum programa educacional dessa amplitude, ao cursar Letras em Caicó-RN, nos anos 80, quando a ditadura militar dava os seus últimos suspiros, graças a deus e a tia Lica que torcia muito por isso.
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O PARFOR possui como público alvo os professores da educação básica, profissionais em exercício nas redes públicas de ensino. Destes professores, torna-se imperativo ressaltar, além das atividades de docência e demais experiências pedagógicas, os diferentes contextos multiculturais e os roteiros existenciais por eles trilhados até chegar ao universo acadêmico. São roteiros inéditos para a entrada no universo acadêmico. A vivência comunitária dessas experiências educacionais, o trânsito por estes contextos multiculturais e seus diferentes roteiros de vida transformam estes profissionais num público diferenciado bastante especial.
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Este público requer dialogismo perene e uma metodologia de ensino conectada às suas demandas e ao mundo contemporâneo. São discentes que avisam, até quando em silêncios raros, que os tempos são outros. Outros ruídos. Vivemos tempos de inclusão. A universidade precisa repensar os seus saberes e a sua extensão. Ela precisa rever os moldes medievais nos quais se baseia, na maioria das vezes, os modelos que possuem por base a repetição, a imitação do igual, da semelhança. Este saber excluía a diferença. Trata-se de um saber que permanecia enclausurado entre muros distantes da comunidade. Saber dos tempos antigos de isolamento.
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Acerca da formação e da qualificação destes professores que se transformam em alunos e nos fazem questionar estes saberes, é importante ressaltar algumas dificuldades enfrentadas por quem deseja ingressar no PARFOR. Ecos do que ouvimos em sala de aula sugerem que o processo seletivo nem sempre é uma etapa simples. O acesso ao programa ainda é pouco incentivado. Parece que algumas prefeituras ou secretarias de educação divulgam pouco, ou sequer divulgam o referido programa. Acontece até de, algumas vezes, estes órgãos governamentais dificultarem o acesso dos professores ao programa.
 
Durante os últimos cinco anos venho lecionando para as turmas deste programa; o que marcou definitivamente a postura profissional e a metodologia que utilizo como professor do curso de Letras. Constato que as cidades de Nova Iguaçu, Japeri, Belford Roxo, Queimados e São João do Miriti se destacam, no PARFOR de Letras, como municípios de onde advém grande parte dos nossos alunos.
 
II – Clarice aos sábados e Cazuza no Museu

 
Coordenado nos cursos de Letras do IM – Instituto Multidisciplinar, com lisura e eficiência pela professora Dra. Lucia Helena, do DL – Departamento de Letras da UFRRJ, o PARFOR é composto, em sua grande maioria, por turmas de corajosas mulheres de cores, comportamentos e etnias bastante diferentes. Embora reconheça a presença produtiva dos homens que retornam à sala de aula, através deste programa, quero registrar aqui a coragem e a determinação feminina frente ao PARFOR. Muitas destas mulheres são mães ou avós que criam, ou criaram filhos e netos, e que voltam à sala de aula como alunas de graduação no universo acadêmico. Isso é maravilhoso e faz diferença.


Outras alunas são solteiras ou sozinhas, mas todas trabalham. Com elas vivifiquei profissionalmente alguns momentos marcantes dos meus trinta anos de magistério em cidades do Rio Grande do Norte e do Rio de Janeiro. Pensando nesta trajetória acadêmica, como esquecer, por exemplo, de um programa cujas aulas me fizeram ler Clarice Lispector, aos sábados pela manhã, com uma turma de alunas interessadas na floração da prosa moderna na Baixada Fluminense?

Nenhum professor é o mesmo, depois que ouve da aluna Neide Chatinha que Macabéa não sabia enfeitar a realidade. Nenhum professor continua inalterado depois que outra aluna leciona para ele a forma como a cartomante da novela sugere, para Macabéa, o envolvimento com mulheres. Mestre é quem de repente aprende, viva Guimarães Rosa. Há mais de 20 anos releio A Hora da Estrela, mas nunca havia percebido essa sugestão homossexual por parte da mulher que joga cartas no livro de Clarice.

Além dessas leituras que considero bastante produtivas e até inusitadas, tenho com as turmas do PARFOR as memórias comuns de uma viagem pedagógica. Viajamos para São Paulo, a fim de ver e ouvir Cazuza, cuja vida e obra foram expostas no Museu da Língua Portuguesa em 2013. O mesmo museu que expunha atualmente a vida e a obra do escritor e etnógrafo potiguar Luís da Câmara Cascudo e que, infelizmente, acaba de ser destruído no incêndio deste final de 2015. Museu paulista pegando fogo, convenhamos, parece uma metáfora acesa do momento político e cultural do país em chamas. Mas voltemos ao PARFOR, programa que me fez unir Clarice e Cazuza num mesmo semestre.  Experiência que os une no museu e na Baixada.
 

 

Exímio leitor de ficção, Cazuza amava a prosa interrogativa e meio psicanalítica de Água Viva – livro publicado em 1975 por Clarice Lispector. Desta autora que tinha a nostalgia de não ter nascido bicho, Cazuza musicou trechos da belíssima crônica “Que o deus venha”, texto que compõe o livro póstumo A descoberta do mundo. Cazuza é letra, crônica, verso. Letra pop. O seu som tem a ver com a sensibilidade e a percepção das alunas para quem o PARFOR é um sonho, e por isso não pode acabar. Cazuza celebra o ser e o sonho: “quem tem um sonho não dança”. Seus versos cantam o fedor burguês. Gritam para o país mostrar a sua cara. Sua escrita subjetiva e cortante começa a ser acolhida pela academia como trilha musical da era da redemocratização do Brasil.

III – Mudanças como educador e cidadão

Atuo no PARFOR como orientador de monografias e professor de quatro disciplinas: Teoria da Literatura, Literatura Brasileira, Literatura Portuguesa e Introdução às Literaturas Africanas de Língua Portuguesa. No exercício destas disciplinas, algumas figurações certeiras dos seminários e das aulas ficaram gravadas como prêmios. Lembro, com alegria, a leitura comovida que a aluna Cristiane de Souza fez do escritor português Walter Hugo Mãe, demonstrando a sintonia de sua sensibilidade em conexão com os temas e as culturas do seu tempo. Lembro também das perguntas infindas de Débora Alves, repletas de curiosidade e ironia, acerca dos conteúdos literários, e do seu crescimento visível durante as apresentações dos seminários em grupos.

Guardo para sempre a descoberta do mundo feita por Ercília, ao ler a literatura feminina. E como não lembrar os roteiros de leituras traçados pelas duas alunas quem têm Silvana como nome, ambas tendo como objetos de estudo a obra do escritor carioca Lima Barreto? Como esquecer as crônicas sobre saúde, escritas por Scliar, lidas por Noemi, e o nosso projeto gastronômico de construirmos uma padaria num possível terceiro tempo? São fragmentos de falas, imagens e leituras que marcam além da sala de aula. Pequenas epifanias na Baixada fluminense, onde atuo como professor universitário desde o início do milênio quando dava aulas na UNIGRANRIO, em Duque de Caxias. Baixo Baixada onde transito catando fragmentos do saber, da poesia e da fé. Espaço onde vivo momentos de troca e aprendizagem.

Creio que a experiência com as turmas do PARFOR me transformou como professor, como antigo leitor de Paulo Freire e Magda Soares, e até mesmo como cidadão, já que alterou a percepção multicultural e ideológica. Ampliou a sintonia com o magistério hoje, formado que fui nos anos 80, ao final da ditadura militar, quando o contexto político não permitia a possibilidade de um programa produtivo e democrático como este. O PARFOR exigiu de mim, como educador e orientador, uma pluralidade de métodos, discursos e leituras que eu não sabia, diferentes das leituras e metodologias que utilizo, desde 2009, nos cursos regulares de graduação da UFRRJ.

O trabalho acadêmico com estas turmas exigiu principalmente um exercício de agilidade, concisão e clareza que pareceram ampliar as possibilidades profissionais, em sintonia com a fragmentação e a rapidez características deste milênio eletrônico e virtual. Tudo isso na esteira do que propõe o escritor Ítalo Calvino em seu belo livro Seis propostas para o próximo milênio.

IV – A universidade precisa rever seus paradigmas

As aulas para estas turmas intensificaram as leituras em torno dos Estudos Culturais, das teorias culturais de Walter Benjamin e de filósofos afirmativos como Michel Serres. As teorias que sedimentam os Estudos Culturais, sabemos, evidenciam a necessidade de entendermos as conexões entre diferentes culturas, linguagens e contextos, além de preconizarem a releitura da História e dos cânones estéticos e culturais que movem as comunidades e periferias.

Essas teorias sugeridas pelos Estudos Culturais possuem fortes relações com o público alvo do referido programa educacional, ao atestar a importância de atentarmos para o lugar de onde falamos, e ao questionar as funções do intelectual e, de certa forma, as funções do próprio professor, no contexto histórico e cultural contemporâneo. Para que serve um intelectual num universo em crise, dividido em guerras políticas e religiosas, cuja noção de realidade muda a cada instante?

O PARFOR evidencia a necessidade que a universidade possui de mudar. Mudar e repensar os seus currículos e as suas metodologias de ensino milenares. Sabemos que muitos dos paradigmas universitários provêm da Idade Média, quando surgiram as primeiras universidades europeias, como a de Coimbra, no centro de Portugal, cujos prédios seculares são, até hoje, protegidos pela estátua imensa de Dom Diniz, o rei que gostava de agricultura, o antigo poeta das “naus a haver” que Fernando Pessoa canta lindamente em Mensagem.

Sabemos também que alguns conteúdos e saberes universitários são repassados, muitas vezes, sem a problematização sugerida pelo contexto histórico e cultural dos alunos, e por isso são conteúdos de valia discutível para os dias de hoje, quando a vigência do multiculturalismo e os aparatos tecnológicos e virtuais exigem outras formas de percepção e leitura de mundo. Por isso, enquanto professor do PARFOR, vários foram os momentos de questionamento em torno da minha metodologia educacional e demais práticas docentes, como a avaliação, tendo por base o que vivi com estas turmas e a antiga formação acadêmica.  Como lecionar Camões ás 8 h da manhã, numa universidade periférica, enquanto os autos e motos trafegam velozes pela via Dutra?

Embora o PARFOR do curso de Letras não tenha conseguido formar novas turmas para 2016, continuo ligado ao referido programa, como orientador de sete alunas: Débora (Polegarzinha, do Michel Serres), Martha (A paixão segundo GH, de Clarice Lispector), Roselaine (o heterônimo Ricardo Reis), Tatiane (O Fernando Pessoa de António Tabucci), Priscila (o Jesus de Paulo Leminski), Márcia (Desabrigo, de António Fraga) e Noemi (lendas na literatura infantil de Clarice Lispector). 

Estas alunas são orientadas em trabalhos finais de monografia de curso. Elas dão muito trabalho e proporcionam alegrias também. Rs. Enquanto houver demanda, torço para que o PARFOR, além de outros programas educacionais de grande alcance cultural, como o PIBID, seja mantido nas universidades brasileiras pelos órgãos governamentais que regem a nossa educação.

Rio de Janeiro (RJ) e Baía Formosa (RN), 2015
 
 
 

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Escritas do sertão na cultura moderna




Caro(a)s inscrito(a)s para o curso de extensão na UFRRJ
Devido aos jogos da Copa, o feriado de 13 de junho, em Nova Iguaçu, e a aproximação do término desse semestre atípico, o curso planejado para junho/julho foi adiado para agosto/setembro/2014. Aos alunos selecionados que desejam participar do curso no segundo semestre, peço que confirmem, por favor, até 31 de maio, a sua participação através do email abaixo, já que as inscrições foram encerradas e há fila de espera.

minisertao@bol.com.br
 

sábado, 15 de junho de 2013

quinta-feira, 13 de junho de 2013

"O mundo é um texto a ser interpretado com cuidado"



NG: Gustavo, para que serve um professor no século XXI?
 
GB: Ele continua a ser um exemplo para os alunos, quer o professor esteja consciente disso ou não. Pode ser um bom exemplo – alguém que está sempre lendo, investigando, perguntando, duvidando, aprendendo – ou pode ser um mau exemplo – alguém que não lê mais, que não tem mais dúvidas, que não respeita o aluno como o outro que não sabe mas quer e precisa saber.
 
NG: No capítulo “A filosofia ajuda a literatura?”, você faz uma bela leitura do "Grande Sertão" de Guimarães Rosa. Utilizando o recorte vocabular deste autor mineiro, você diz: “A palavra, como o Diabo, tem rabo.” O que sugere essa conexão entre o verbal e o demoníaco?
 
GB: Aprendemos com a ficção que toda palavra, toda frase, toda ideia tem uma sombra, um não dito que na verdade se diz junto com o dito, mas subliminar e inconscientemente. Aprendemos também que todo discurso é fundamentalmente ficcional, hipotético. Logo, precisamos sempre pensar o que se diz na sombra das palavras. O mundo é um texto a ser interpretado com cuidado. Cada pessoa também é um mundo, logo, cada pessoa também é um texto a ser interpretado com cuidado.
 
NG: Como professor de uma das universidades que melhor acolheu o sistema de cotas no país, você assume que era contra, mas que hoje continua contra, embora seja a favor. Justifica que esse sistema compromete o “princípio básico do mérito”.  Gostaria que comentasse acerca dessa questão.

 
GB: Os candidatos a uma vaga na universidade devem ser julgados com a mesma medida, independentemente de classe social ou cor da pele. Por isso no início achava que as cotas eram uma solução que escamoteava o verdadeiro problema: a baixa qualidade da escola pública, associada à desvalorização crescente do professor brasileiro. Este é o problema que deveria e deve ser atacado. Entretanto, o resultado efetivo dos alunos cotistas na UERJ, que não deixam nada a dever aos colegas não-cotistas, transformou uma iniciativa populista e demagógica num problema político muito interessante. Estes alunos seguram com garra essa oportunidade e dessa maneira forçam colegas e sociedade a rever seus preconceitos sociais. A experiência das cotas acabou escrevendo certo por linhas tortas, digamos assim.

 

NG: Quais dos seus livros você prefere e por quê?

 
GB: Bem, publiquei 22 livros: 1 volume de poemas, 10 romances e 11 ensaios.

O romance de que mais gosto é o último, "O gosto do apfelstrudel", talvez porque seja o último e porque mergulhei minha vida nele. O romance conta tudo o que passou pela cabeça do meu pai durante o mês em que esteve em coma, antes de morrer. Como eu soube disso? Eu não soube, eu inventei – e assim, acabei sabendo.

O ensaio de que mais gosto é o que estou escrevendo agora; imagino que só consiga terminá-lo no ano que vem. Chama-se “A ficção de Deus”. Nesse ensaio, procuro mostrar a estreita relação entre literatura e religião, a partir do personagem Deus e sob o ponto de vista de quem não crê, mas admira quem de fato acredita em Deus.
 
 

sábado, 9 de março de 2013

fora, pastor



Exposto a diversos questionamentos éticos e sociais, o deputado conservador e pastor evangélico Marco Feliciano foi eleito para assumir a presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara.

Sou contra a eleição do referido pastor. Ele é denunciado por três crimes: homofobia, racismo e estelionato. Além dessas denúncias, os seus projetos defendem castração para estupradores, e resgatam o ensino de Moral e Cívica - matéria fora dos currículos educacionais desde os tempos da ditadura militar.
 
No vídeo abaixo, o pastor pede a senha do cartão de crédito dos "fiéis", e negocia os prazos divinos recebendo cheques, vejam:


 

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

FLIPIPA 2012


 
No link abaixo, encontra-se a programação do quarto Festival Literário da Pipa que acontecerá este ano de 22 a 24 de Novembro no RN. Evento literário que se identifica com o discurso multicultural contemporâneo, o FLIPIPA celebra a literatura e a leitura, e  conta com a participação de escritores, poetas, professores, jornalistas, pesquisadores acadêmicos e críticos literários, objetivando, segundo o site do evento,  "unir as duas pontas da prática literária: o pensamento crítico/acadêmico e a formação através de uma programação educativa".

http://www.flipipa.org/

quinta-feira, 5 de julho de 2012

greve no "entre aspas"



Iniciada em 17 de maio de 2012, a greve nas universidades federais brasileiras é o tema do programa ancorado por Monica Waldvogel.  O debate dura em torno de 23 minutos. Começa expondo um tema contemporâneo que é  polêmico e pouco debatido: a mudança de paradigmas universitários na produção de conhecimento.  

O programa trata do “caráter mercantil” e da problemática da privatização no ensino superior, da desestruturação do plano de trabalho e das condições materiais das instituições. Ressalta questões como Reuni, aposentadoria e, dentre outros, as relações entre alunos e professores.   Veja no link:

http://g1.globo.com/globo-news/entre-aspas/videos/t/todos-os-videos/v/acordo-sobre-greves-em-universidades-brasileiras-segue-sem-solucao/2024203/

sexta-feira, 25 de maio de 2012

greve

Iniciada no dia 17 de maio, a greve dos docentes das universidades federais envolve 44 das 60 instituições de ensino. Essas instituições são a base de 48 seções sindicais filiadas ao ANDES-SN. A seguir, transcrevo um texto do Comando Nacional de Greve da Andes - SN. www.andes.org.br




À SOCIEDADE BRASILEIRA
Por que os(as) professores(as) das instituições federais estão em greve?

A defesa do ensino público, gratuito e de qualidade é parte essencial da história do Sindicato Nacional das Instituições de Ensino Superior (ANDES-SN), assim como a exigência da população brasileira, que clama por serviços públicos, com qualidade, que atendam às suas necessidades de saúde, educação, segurança, transporte, entre outros direitos sociais básicos.
Os(as) professores(as) federais estão em greve em defesa  da Universidade Pública, Gratuita e de Qualidade e de uma carreira digna, que reconheça o importante papel que os docentes têm na  vida da população brasileira.
O governo vem usando seguidamente o discurso da crise financeira internacional como justificativa para cortes de verbas nas áreas sociais e para rejeitar todas as demandas feitas pelos servidores públicos federais por melhores condições de trabalho, remuneração e, consequentemente, qualidade no serviço público.
A situação provocada pela priorização de investimentos do Estado no setor empresarial e financeiro causa impacto no serviço público, afetando diretamente a população que dele se beneficia.
Os professores federais estão em greve em defesa da Universidade Pública, Gratuita e de Qualidade e de uma carreira digna, que reconheça  o importante papel que os docentes federais tem na vida da população brasileira.

Pela reestruturação da carreira.
Há anos os(as) professores(as) vêm lutando pela reestruturação do Plano de Carreira da categoria, por acreditarem que essa reivindicação valoriza a atividade docente e, dessa forma, motiva a entrada e permanência dos profissionais nas instituições federais de ensino. No ano passado, o ANDES-SN assinou um acordo emergencial com o governo, que previa, como um dos principais pontos, a reestruturação da carreira até 31 de março de 2012. Já estamos na segunda quinzena de maio e nada aconteceu em relação a essa reestruturação.
Para reestruturação da carreira atual, desatualizada e desvirtuada conceitualmente pelos sucessivos governos, o ANDES-SN propõe uma carreira com 13 níveis, variação remuneratória de 5% entre níveis, a partir do piso para regime de trabalho de 20 horas, correspondente ao salário mínimo do DIEESE (atualmente calculado em R$2.329,35) A valorização dos diferentes regimes de trabalho e da titulação devem ser parte integrante de salários e não dispersos em forma de gratificações.

Pela melhoria das condições de trabalho nas Instituições Federais.
O começo do ano de 2012 evidenciou a precariedade de várias instituições. Diversos cursos em Instituições Federais de Ensino – IFE tiveram seu início suspenso ou atrasado devido à precariedade das Instituições.
O quadro é muito diferente do que o governo noticia. Existem instituições sem professores, sem laboratórios, sem salas de aula, sem refeitórios ou restaurantes universitários, até sem bebedouros e papel higiênico, afetando diretamente a qualidade do ensino.
Ninguém deveria ser submetido a trabalhar, a ensinar ou a aprender num ambiente assim. Sofrem professores, estudantes e técnicos administrativos das Instituições Federais de Ensino. E num olhar mais amplo, sofre todo o povo brasileiro, que utilizará dos serviços de profissionais formados em situações precárias e que, se ainda não têm, pode vir a ter seus filhos estudando nessas condições.
Por isso convidamos todos a se juntarem à nossa luta. Essa batalha não é só dos(as) professores(as), mas de todos aqueles que desejam um país digno e uma educação pública, gratuita e de qualidade.

Para saber mais sobre a greve e as negociações com o governo acesse : www.andes.org.br
A Educação pública, gratuita e de qualidade é um direito de todos.

sábado, 5 de novembro de 2011

Eduardo de Assis Duarte nO Globo



A literatura afro-brasileira é “um conceito em construção”, diz o professor Eduardo de Assis Duarte, da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde coordena o grupo de pesquisa “Afrodescendências na Literatura Brasileira”. Contribuição significativa para o edifício deste conceito, a coleção “Literatura e afrodescendência no Brasil: antologia crítica”, organizada por ele e recém-lançada pela Editora da UFMG, reúne, em quatro volumes, uma série de ensaios e referências biográficas e bibliográficas sobre cem escritores, dos tempos coloniais até hoje. Fruto da colaboração de 61 pesquisadores de 21 universidade brasileiras e seis estrangeiras, a coletânea procura organizar a ainda dispersa reflexão acadêmica atual sobre o tema, num percurso histórico que vai de clássicos (Machado de Assis, Lima Barreto, Cruz e Sousa) a contemporâneos (Nei Lopes, Paulo Lins, Ana Maria Gonçalves), passando por nomes importantes esquecidos (Maria Firmina dos Reis, José do Nascimento Moraes). O trabalho do projeto pode ser acompanhado no site .

Em entrevista ao GLOBO, Duarte diz que o objetivo da antologia não é estabelecer um cânone da literatura afro-brasileira, e sim compensar omissões da crítica nacional a autores negros — e à presença da questão racial na obra de escritores consagrados (tema de outro livro do pesquisador, “Machado de Assis afrodescendente”, de 2007).

— Nossa antologia não pretende instituir um cânone, mas trazer elementos para se refletir sobre as diversas facetas desta literatura e da literatura brasileira como um todo. Não se trata de evangelizar, criar novos altares (ou novas alturas), mas de fornecer elementos para uma formação mais aberta à diversidade, sobretudo para os jovens estudantes e pesquisadores de nossa literatura — afirma Duarte, por e-mail (leia a entrevista na íntegra abaixo).

Já disponível nas livrarias, a coleção será lançada oficialmente no Rio dia 28 de novembro, segunda-feira, às 18h, no Teatro Machado de Assis da Biblioteca Nacional, com a presença de 20 escritores cariocas (ou residentes no Rio) incluídos na antologia e uma homenagem a Abdias Nascimento.





Num ensaio da coleção, você propõe um conceito de “literatura afro-brasileira”. Como defini-la?


EDUARDO DE ASSIS DUARTE: Quando acrescentado ao texto do escritor negro brasileiro, o suplemento “afro” ganha densidade crítica a partir da existência de um ponto de vista específico — afroidentificado — a conduzir a abordagem do tema, seja na poesia ou na ficção. Tal perspectiva permite elaborar o tema do negro de modo distinto daquele predominante na literatura brasileira canônica. Os traços de negrícia ou negrura do texto seriam oriundos do que a escritora Conceição Evaristo chama de “escrevivência”, ou seja, a experiência como mote e motor da produção literária. Daí o projeto de trabalhar por uma linguagem que subverta imagens e sentidos cristalizados. É uma escrita que, de formas distintas, busca se dizer negra, até para afirmar o antes negado. E que, também neste aspecto, revela a utopia de formar um público leitor negro.


Na introdução à coleção, você aponta uma omissão histórica da crítica nacional quanto a autores negros, ou quanto a essa dimensão da obra de autores reconhecidos, como Machado de Assis. A que pode ser atribuída essa omissão?


O ponto de vista afroidentificado nem sempre se explicita como em muitos autores contemporâneos. E isto também tem a ver com o público leitor de outras épocas, sobretudo do século XIX e de pelo menos metade do século XX. O próprio Machado se considera um “caramujo” a dissimular sua negrícia perante o leitor branco de seu tempo. É um capoeirista da linguagem, como já afirmou Luiz Costa Lima. Por trás da aparente superficialidade de muitos de seus contos e romances, como “Helena”, está a crítica ao discurso senhorial e à branquitude que busca naturalizar esse discurso como verdadeiro. De fato, só mais recentemente tais aspectos passaram a ser enfatizados, em função do predomínio anterior de paradigmas críticos formalistas e/ou marxistas, entre outras razões. O eurocentrismo, a assunção dos valores estéticos ocidentais como norteamento crítico relegou muitos autores negros ao esquecimento. É o caso de Lino Guedes, que deixou 13 livros publicados entre os anos 1930 e 1940 e foi ignorado pela crítica modernista e pela história literária desde então. E este é apenas um exemplo. Poderia citar Solano Trindade, Nascimento Moraes, Raimundo de Souza Dantas, entre outros.



Em 2007, você publicou “Machado de Assis afrodescendente”, e agora volta a incluí-lo na antologia, no volume dedicado aos “precursores”. Como a questão racial se coloca na obra de Machado, muitas vezes tomado como avesso às questões políticas de seu tempo?


Machado é de fato um precursor, um ancestral que deixou inúmeras lições, e não apenas para os escritores negros. Tem razão Octávio Ianni quando, num texto magistral de 1988 que fizemos questão de incluir no volume 4 da antologia, aponta-o, juntamente com Cruz e Sousa e Lima Barreto, como “fundador da literatura negra” no Brasil, sendo, portanto, “clássico duas vezes”: da literatura brasileira e da literatura negra. Ousaria dizer que o considero três vezes clássico, pois o é também da literatura mundial e, neste ponto, concordo com Harold Bloom. Machado é precursor da literatura afro-brasileira por diversas razões, conforme tentei mostrar no livro de 2007. Ressalto apenas duas, a segunda decorrente da primeira: o ponto de vista afroidentificado, não-branco e não-racista, apesar de toda a discrição e compostura do “caramujo”; e o fato de matar o senhor de escravos em seus romances, criando um universo ficcional que é alegoria do fim da escravidão e da decadência da classe que dela se beneficiou ao longo de mais de 300 anos de nossa História.


Além de Machado, você cita outros autores que se viram “encurralados entre a assunção e o recalque da afrodescendência”, como Cruz e Sousa, Lima Barreto e Maria Firmina dos Reis. Quais foram as consequências dessa posição na obra e na recepção crítica desses autores?


São inúmeras e infelizmente não há espaço para detalhar todas elas. Fico contente com a menção a Maria Firmina dos Reis, autora de “Úrsula”, primeiro romance abolicionista, publicado em 1859, e, sem dúvida, texto precursor. Firmina coloca o negro como referência moral da narrativa: nela, os brancos, quando bons, assim o são porque conseguem ser tão bons quanto o jovem escravo Túlio... E este ponto de vista, absolutamente revolucionário para o Brasil de meados do século XIX, juntamente com outros méritos do romance, não foi suficiente para retirar Firmina do mesmo esquecimento que recai sobre outros autores negros. A autora chega a se desculpar no prólogo por ser mulher de pouco estudo... Já Cruz e Sousa, apesar da militância abolicionista, dos inúmeros poemas, crônicas, cartas, e do contundente testamento literário que é o “Emparedado”, continua caracterizado por muitos como “negro de alma branca”. Em geral, dele só se lêem “Missal” e “Broquéis”. Quando digo que estão encurralados, remeto à branquitude dos conceitos e valores críticos hegemônicos, detentores do poder literário capaz de elevá-los ou deixá-los no limbo, e isto ainda hoje, em pleno século XXI. Se verificarmos atentamente, é possível que o romance “Recordações do escrivão Isaías Caminha” — onde Lima Barreto desnuda o racismo que perpetua a escravidão dissimulada —, não faça parte de nenhum programa de literatura de nossos cursos de Letras. Polêmico e provocador, Lima Barreto respondia sempre que o indagavam pela identidade étnica: “negro ou mulato, como queiram”... Resultado: morreu vendo serem-lhe fechadas todas as portas da cidade letrada.


O que há de mais singular na formação e no desenvolvimento da literatura afro-brasileira, em comparação com processos similares no resto do mundo?


Esta é uma questão complexa. Talvez o fato de os autores, sobretudo de 1930 em diante, terem a todo instante de declarar a palavra “negro” como instância de afirmação de uma identidade denegada pelo imaginário social hegemônico. Isto ocorreu também nos Estados Unidos, com o “New Negro Movement” e nos países francófonos com a “Négritude”, que assumiu a palavra “negro” como enfrentamento ao sentido pejorativo nela alocado. Tal rebaixamento decorre também do estigma que, a partir do discurso bíblico, envolve o signo “negro” no Ocidente. A transformação do negro em tabu linguístico talvez seja o mais cruel legado da escravidão. No dicionário, vemos dezenas de “sinônimos atenuantes”: preto, pardo (este adotado oficialmente pelo IBGE), marrom, moreno, bombom, chocolate... Diante disso, são inúmeros os autores a destacar a assunção pelos próprios afrodescendentes do estigma que os desqualifica a partir da cor da pele. E, diferentemente dos escritos africanos de língua portuguesa, na literatura afro-brasileira é uma constante a repetição de versos como “sou negro, meus avós foram queimados pelo sol da África”, como podemos ler em Solano Trindade.



Num dos textos da coleção, você afirma que a tese da democracia racial, no Brasil, “cristaliza a pátria como instância mítica de apagamento das diferenças”. Como a literatura afro-brasileira contesta a tese da democracia racial e que interpretações da sociedade nacional oferece em contraposição a ela?


Fico apenas num exemplo: já em 1915, em pleno São Luís do Maranhão dominado pelas oligarquias herdeiras do escravismo, o escritor negro José do Nascimento Moraes publicava seu romance “Vencidos e degenerados”, também presente na antologia. O livro se inicia às 8 da manhã do dia 13 de maio de 1888, algo raro, para não dizer inédito, no romance brasileiro. Além de toda a agitação ali ocorrida, traz, quase como crônica histórica, as reações provocadas pela nova situação na subjetividade e no comportamento de antigos senhores e dos novos homens e mulheres livres. Há cenas de crueldade e violência que nada ficam a dever a narrativas como “Cidade de Deus”, de Paulo Lins ou “Um defeito de cor”, de Ana Maria Gonçalves: ex-escravos que devolvem no rosto dos antigos senhores as bofetadas que sofriam diariamente; outros que apedrejam suas mansões; outros que deixam o jantar queimando no fogão... E há brancos revoltados que se articulam para dar o troco, ou que, em desespero, investem contra os próprios filhos. Nascimento Moraes traça um panorama realista do regime servil e de sua continuidade sob novas formas de exploração, respaldadas pelo racismo, tal como previsto por Machado de Assis. E, muito antes de Gilberto Freyre, desconstrói o 13 de maio como happy end apaziguador e consagrador do mito da escravidão benigna. Hoje, escritores como Oswaldo de Camargo, Cuti, Miriam Alves, Conceição Evaristo têm na denúncia do preconceito um dos pontos centrais de seu projeto literário.


Como você interpreta a situação da literatura afro-brasileira hoje? Que temas são os mais importantes e como se dá a circulação dessas obras no mercado nacional?


Costumo dizer que, no meio acadêmico, a literatura afro-brasileira é um conceito em construção, isto é, em discussão. Na prática, ou seja, verificando-se o volume de textos acumulados todo este tempo, não há como duvidar da existência desta vertente de nossas letras, ao mesmo tempo dentro e fora da literatura brasileira, como já defendia Octávio Ianni no ensaio aqui citado. É uma produção consistente, que se afirma pela diferença. Na poesia de Oswaldo de Camargo, Éle Semog, Oliveira Silveira, Cuti, Miriam Alves, Edimilson de Almeida Pereira, Conceição Evaristo, Esmeralda Ribeiro, Salgado Maranhão, e Cristiane Sobral, entre outros, expressa de diversas formas a positividade do ser negro, mulher ou homem; revisita a História, celebra os ancestrais e as divindades do culto afro; e denuncia, às vezes de forma explicitamente militante, a discriminação contemporânea. Mas trata também de tópicos mais universais, situando-os em nova perspectiva, o erotismo, por exemplo. Na ficção, reproduz estas linhas de força, em especial a recuperação crítica do passado, como em “Crônica de indomáveis delírios” e “Bichos da terra tão pequenos”, de Joel Rufino dos Santos; “Ponciá Vicêncio”, “Becos da memória”, e “Insubmissas lágrimas de mulheres”, de Conceição Evaristo; “Vinte contos e uns trocados”, “Mandingas da mulata velha na cidade nova” e “Oiobomé”, de Nei Lopes; além de “Um defeito de cor”, de Ana Maria Gonçalves; persiste ainda uma linhagem contundente sem se descuidar da leveza vinda do humor, a exemplo de “Contos crespos”, de Cuti, ou “Mulher mat(r)iz”, de Miriam Alves ou “Só as mulheres sangram”, de Lia Vieira. São obras que circulam majoritariamente em circuitos alternativos, infelizmente. Resta torcer para que consigam atingir maior visibilidade e, quem sabe, cumprir a utopia que os move: formar um público afrodescendente que com eles se identifique.


domingo, 16 de outubro de 2011

Diversidade e Inclusão


O Campus da UFRRJ de Nova Iguaçu promove, a partir desta segunda-feira, o I Congresso Nacional Multidisciplinar e a III Semana Acadêmica de Letras – Identidade e Linguagens Hoje: Olhares sobre a Diversidade e a Inclusão.


“Voz rouca da periferia” é o título da conferência de abertura que será proferida pela professora e ensaísta Heloisa Buarque de Hollanda. Além dessa conferência, Heloisa lançará Escolhas: uma autobiografia intelectual, livro publicado Ed. Língua Geral.


Outros lançamentos que se destacam durante o Congresso, de 17 a 21 de outubro, são os livros de escritores como Luiza Lobo (Terras Proibidas), Dau Bastos (Reima), Lucia Assis (Identidade e Cidadania em Lima Barreto) e Marcos Bagno, dentre outros.


Mais informações sobre o evento serão obtidas através dos telefones (21) 2669-0105 / 2669-0817 e neste link onde está a programação completa: http://r1.ufrrj.br/wp/eventos/semanaletrasim/

sábado, 1 de outubro de 2011

Identidade e Linguagens Hoje

Encontra-se no link abaixo a programação completa do I Congresso Nacional Multidisciplinar e a III Semana Acadêmica de Letras – Identidade e Linguagens Hoje: Olhares sobre a Diversidade e a Inclusão.

O referido evento acontecerá de 17 a 21 de Outubro no Campus da UFRRJ em Nova Iguaçu. Informações sobre o evento serão obtidas através dos telefones (21) 2669-0105 / 2669-0817 :  http://r1.ufrrj.br/wp/eventos/semanaletrasim/

sábado, 10 de setembro de 2011

Congresso de Letras na Rural


Estão abertas as inscrições para o I Congresso Nacional Multidisciplinar e a III Semana Acadêmica de Letras – Identidade e Linguagens Hoje: Olhares sobre a Diversidade e a Inclusão.


O referido evento acontecerá em Outubro na UFRRJ, Campus de Nova Iguaçu, e conta com a participação de Heloisa Buarque de Hollanda,  Luiza Lobo, Marcos Bagno e Eduardo Navarro, dentre outros autores e pesquisadores.


Programação: http://r1.ufrrj.br/wp/eventos/semanaletrasim/

 

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

O livro como extensão da vida

Uma versão desta entrevista foi publicada, na semana passada, na Revista Dedo d' Prosa da UFRRJ e no site Substantivo Plural

Nonato Gurgel é professor adjunto de Teoria da Literatura da UFRRJ e doutor em Ciência da Literatura pela UFRJ. Cursou Mestrado em Estudos da Linguagem, Especialização em Literatura Brasileira e Graduação em Letras na UFRN.  Lecionou na UFRN, UFRJ, UERJ, UNIGRANRIO e várias escolas do Rio Grande do Norte. Atuou como pesquisador da FAPERJ e da EMATER.

Atualmente, cursa pós-doutorado no PACC – Programa Avançado de Cultura Contemporânea da UFRJ e conclui o livro “Luvas na Marginália”.  Disponibiliza as suas produções culturais e acadêmicas no blog Arquivo de Formas: http://arquivodeformas.blogspot.com



1     – Observando o seu currículo, percebemos haver algumas publicações relacionadas a experiências na área de Teoria Literária. Em que consistem tais publicações?



NG: Estas publicações são resultados das leituras que venho desenvolvendo desde a década de 80, quando me graduei em Letras na UFRN. São leituras pautadas, principalmente, na ficção moderna do século XX e na poesia contemporânea, e que levam em conta as formas e as noções de identidade do meu tempo. Com base nessas leituras, realizei algumas pesquisas que divulguei em livros, revistas, jornais e sites virtuais, onde leio quase sempre os mesmos autores: Euclides, Clarice, Guimarães, Ana C, Caio F, Leminski, Calvino, Camus... Na área da Teoria, releio Homi Bhabha, Zygmunt Bauman, Stuart Hall e os de sempre: Walter Benjamin, Roland Barthes, Mikhail Bakhtin, Freud, Lacan, Compagnon...  



2     – Sabendo que é natural de outro estado, o que o motivou a vir para o Rio de Janeiro?



NG: O curso de doutorado em Ciência da Literatura da UFRJ. Até 1998, quando cheguei no Rio, não havia doutorado na área de Letras na UFRN. Essa motivação das letras, esse deslocamento do RN para o RJ é muito importante. A partir daí tracei um roteiro de vida e trabalho que inclui alguns dos espaços mais instigantes, sedutores e provocativos por que vivo: o Rio de Janeiro e a Baixada Fluminense.



3     Qual é a importância de lecionar Teoria Literária, no campus da UFRRJ, na Baixada Fluminense?



NG: Durante mais de 5 anos lecionei na UNIGANRIO, em Duque de Caxias. Tive lá uma experiência bastante produtiva com diferentes cursos de graduação como Letras, Pedagogia, Comunicação, Educação Física, Informática... Portanto, quando vim lecionar na Rural, eu já conhecia o potencial e a multiplicidade do público da Baixada.



 Acho o máximo lecionar no curso de Letras de Nova Iguaçu. Para mim é uma coisa natural porque fecha um ciclo da minha vida profissional. Quando prestei concurso para a UFRRJ, escrevi um memorial que começa assim: “O meu percurso profissional e existencial é pautado numa dualidade que se concretiza na relação entre as pesquisas acadêmicas e a ação da extensão rural.”



Essa dualidade começou a pautar a minha vida quando concluí o curso Técnico em Agropecuária e fui trabalhar na EMATER-RN – Empresa Brasileira de Assistência Técnica e Extensão Rural. Nesta empresa, desenvolvi longo trabalho de extensão rural junto a líderes comunitários, agências bancárias, grupos de jovens e de pequenos produtores rurais em quatro municípios do RN: Serra Negra do Norte, Jardim do Piranhas, Pureza e Ceará-Mirim. Enquanto desenvolvia esse trabalho de extensão rural nestes municípios, cursava Letras na UFRN e lia muita poesia e os manuais de Victor Manuel, Antonio Candido e Alfredo Bosi, dentre outros livros.



Em meio a outros teóricos e críticos, Cândido e Bosi continuam sendo referências na Rural de Nova Iguaçu onde leciono Teoria da Literatura. Respondendo a pergunta, creio que a importância dessa disciplina esteja no fato dela sugerir, através da literatura, um exercício reflexivo que é bastante crítico. Além desse exercício, a teoria aciona um mergulho no imaginário que possibilita a produção de formas e idéias. Num momento histórico no qual a Baixada Fluminense se afirma socialmente como espaço gerador de formas e linguagens, penso que a teoria pode ajudar a ler e formatar os discursos que engendram as relações éticas, políticas, existenciais e afetivas. Ajuda também na leitura e na construção de traços identitários. Por isso creio que a teoria auxilia na projeção de roteiros de vida. Ou seja: é o momento da Baixada dizer e ela diz. O dorso da baixada fala. Eu vi isso no ano passado quando lecionei um curso sobre a Floração da Prosa no Sertão. Este curso aconteceu na Casa da Leitura, no Rio, e os alunos da Baixada se destacaram numa platéia onde havia professores, escritores, tradutores, coordenadores de cursos, estudantes de graduação e de pós-graduação...

 

4     Quais obras influenciaram na sua formação como intelectual e profissional na área de Letras?



NG: São muitas obras, mas vou destacar apenas algumas: “Magia e Técnica, Arte e Política” e “A origem do drama barroco alemão”, de Walter Benjamin; “Ensaios”, de T. S. Eliot; “Formação da Literatura Brasileira”, de Antonio Cândido; “Os sertões”, de Euclides da Cunha; “Grande Sertão: veredas”, de Guimarães Rosa; “A lição do amigo”, cartas do Mário de Andrade para Carlos Drummond; “Cenários em ruínas”, de Nelson Brissac Peixoto; “Seis propostas para o próximo milênio” e “Palomar”, de Ítalo Calvino e “O local da cultura”, de Homi Bhabha.



A leitura é uma ação. Através dos livros fundamentei a minha existência como homem e cidadão. Sou muito borgiano no sentido de amar a vida e os livros como uma extensão dela. Questiono se eu sobreviveria num mundo sem livros. Eles me “salvaram”: Kafka, Pessoa, Carlos Drummond, Gilberto Freyre, Câmara Cascudo, Graciliano Ramos, James Joyce, César Aira, Henrique Vila-Mata... Seus personagens e narradores foram os meus heróis desde a infância e continuam.

sábado, 2 de julho de 2011

livros livros livros

Trecho de entrevista de Katy Navarro e Sandra Ney com Nonato Gurgel para o PROLER – Casa da Leitura, Laranjeiras, Rio de Janeiro.

...
PROLER: Qual é a diferença que a leitura faz na vida do indivíduo?
NG: A leitura é uma ação. Ela auxilia na construção do discurso e o discurso engendra a identidade, a cidadania. Através da leitura, o indivíduo torna-se um produtor de sentidos. A leitura amplia a visão contextual, remove obstáculos existenciais. A leitura pode ser também terapêutica.

PROLER: Como incentivar a leitura nas crianças nessa era de mídia digital?

NG: Vejo as mídias digitais como suportes que intensificam as possibilidades de leitura e produção de textos. Cabe aos pais e educadores estabeleceram metas e propostas que incluam as leituras impressas e virtuais na formação das crianças.


PROLER:
O que a leitura acrescentou na sua vida?

NG: A leitura não acrescentou. Ela fundamentou a minha existência como homem e cidadão. Sem a leitura, não haveria isso que as pessoas chamam “projeto de vida” ou “minha vida”. Fui salvo pelos livros. Autores e personagens foram os meus heróis desde a infância.


PROLER: Cite os autores mais lidos por você.


NG: Euclides da Cunha, Clarice Lispector, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Carlos Drummond, João Cabral de Melo Neto, Ana Cristina Cesar, Jorge Luís Borges, Ítalo Calvino, Cesar Aira, Roland Barthes e Walter Benjamin.

PROLER: Se puder escreva um pequeno trecho de um texto de autor que tenha marcado sua vida.


NG: O seguinte trecho foi transcrito do livro “Os Sertões”, de Euclides da Cunha: O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral. A sua aparência, entretanto, ao primeiro lance de vista, revela o contrário. (...) É desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasímodo, reflete no aspecto a fealdade típica dos fracos. (...) É o homem permanentemente fatigado. Reflete a preguiça invencível, a atonia muscular perene, em tudo (...). Entretanto, toda esta aparência de cansaço ilude. Nada é mais surpreendedor do que vê-la desaparecer de improviso. Naquela organização combalida operam-se, em segundos, transmutações completas. (...)

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Las Venas de Galeano

Para Lenita Pinheiro, a primeira leitora de Eduardo Galeano que conheci, linda, uma graça

Texto escrito a partir da arguição da tese de doutorado “Figurações do intelectual latino-americano em Las Venas Abiertas de América Latina”, defendida por Lindinei Rocha Silva na UFRJ, em 2011, tendo a professora Dra Silvia Carcamo como orientadora.

I

Eduardo Galeano é um escritor uruguaio reconhecido internacionalmente como autor do clássico As Veias Abertas da América Latina, publicado em 1971, e de outros livros de tonalidade poética tipo O Livro dos Abraços, de 1989. Com mais de 30 títulos publicados e trânsito pelo jornalismo, o autor é reconhecido também pelo seu testemunho socialista e pelo engajamento político que o levou à prisão e ao exílio durante o período da ditadura militar implantada em vários países da América Latina na década de 1970. Apesar de difícil e radical, essa experiência do autor como exilado foi geradora de formas estéticas e discursos ideológicos. Segundo ele, “o exílio foi a experiência mais importante” de sua vida.


II

Leitor de formação marxista, Galeano filia-se estética e ideologicamente a autores existencialistas como Sartre e Camus. Intelectual engajado que fala em nome do outro, Galeano aposta na oralidade. De ouvido atento ao discurso do outro, às outras vozes que a história não inscreveu, é compreensível que a intertextualidade – o diálogo entre textos – seja o procedimento moderno do qual Galeano lança mão com maior propriedade em Las Venas. A partir do recorte de um cânone literário particular, ele dialoga na produção de intertextos onde ecoam as vozes de autores dos mais diferentes contextos históricos e estéticos como Cervantes, Pablo Neruda, Mario Vargas Lhosa, Graciliano Ramos, Jorge Amado e Darcy Ribeiro, dentre outros. Além de Darcy, três outros "personagens" mineiros aparecem em Las Venas: Tiradentes, Chica da Silva e Aleijadinho.


III

Como forma estética, Las Venas é um obra engendrada a partir do diálogo entre a atividade jornalística e a produção ensaística. Diálogo entre os fatos e os dados referenciais que sedimentam o jornalismo e a “descontinuidade” (Adorno) que caracteriza o ensaio. Las Venas é também uma forma de tom romanesco repleta de personagens míticos e históricos sedimentados em dualidades e paradoxos. Essas formas duais (metrópole/colônia, capitalismo/socialismo, tradição/tempo presente) e os paradoxos servem de base para o projeto da dialética que perpassa todo o século XX como uma das formas de pensar características do intelectual moderno. Essas dualidades e paradoxos se anunciam, antes dos textos, já em alguns títulos poéticos dos capítulos dos ensaios de Las Venas como, por exemplo, “O signo da cruz nas empunhaduras das espadas”.


IV

Eduardo Galeano é um sedutor. Ele deseja seduzir o leitor. Para isso faz, de forma alongada, a “defesa apaixonada de seus temas”, como diz Ángel Rama ao caracterizar a sua escritura. Esse desejo de seduzir o leitor tem a ver também com a necessidade de narrar e repassar o valor da experiência vivida. As viagens de Galeano pela América Latina foram fundamentais para a escritura de Las Venas. Para escrever sobre o continente, ele precisou viver a experiência na pele; o que o aproxima daquele tipo de narrador calcado na oralidade, e sobre o qual escreveu Walter Benjamin no seu belo ensaio “O Narrador”. Esse ensaio é focado na narrativa que possui como base a experiência vivida, gerando uma prosa oral que é repassada do narrador para a sua comunidade. Como o texto de Galeano, o ensaio benjaminiano relaciona o deslocamento e a experiência com a possibilidade de poder narrar e repassar uma norma de vida. Em ambos os autores há um narrador que deseja transmitir uma moral social, um preceito para a existência. No caso de Galeano, é mais do que isso: ele é um intelectual engajado e moderno, típico do século XX. Como grande parte dos autores modernos, ele aposta na totalidade e deseja nada menos que inscrever a identidade de um continente. Como faz em Las Venas.


sexta-feira, 25 de março de 2011

Universidade livre


Artigo publicado em 25/03/2011 no jornal O GLOBO



Marco Lucchesi



Como são amplos os desafios que cercam a universidade pública no Brasil. E todos fascinantes, oriundos da pressão legítima, democrática e inclusiva da sociedade civil. Traduzem o projeto de um país maior, não do ponto de vista geográfico, mas a partir de um rigoroso imperativo moral. Maiores investimentos. Mais alunos. Professores. E um programa de aceleração do crescimento da pesquisa.

Os possíveis ruídos entre o Ministério da Educação e as universidades públicas traduzem o índice de como e de quanto a discussão das metas não se esgota, ao mesmo tempo em que revela uma experiência coral nas altas esferas de decisão, no aumento do número de interlocutores, diante de uma agenda efervescente.

Tudo sob a defesa absolutamente incontornável da autonomia universitária, de que não se pode abrir mão sob qualquer hipótese. Autonomia que produz uma variegada expressão de tendências e desenhos nas universidades públicas, nos campos da pesquisa, ensino e extensão, em todas as regiões do país, promovendo ações sociais positivas e pólos de excelência, de que a Federal do Rio, dentre outras, não perde seu revigorante protagonismo.

Um exemplo notável é o da Faculdade de Letras da UFMG e que consiste num golpe desferido contra a burocracia: a supressão total dos departamentos, criando, em seu lugar, núcleos de estudos, células de pesquisas afins, com alto potencial multiplicador de pesquisa e conhecimento, apostando fortemente no diálogo, na criação permanente de interfaces, aproximações, e sobretudo de belas e sólidas aventuras intelectuais.

A experiência pode não responder bem em outras unidades, seja por demandas específicas de gestão, seja por perfis acadêmicos muito específicos. E, contudo, na Letras da UFMG a qualidade dos trabalhos e a consequente avaliação nos órgãos de fomento subiu de modo substancial.

Para além dos índices, que são sempre secundários, importa refletir o conceito da mudança e indagar o alcance de metas e resultados possíveis.

Primeiramente porque tira da interdisciplinaridade o caráter fantasmal que lhe atribui o professor-burocrata, que lhe declara uma guerra subterrânea, com seu ódio indisfarçável e preguiça contumaz. O discurso politicamente correto defende o domínio interdisciplinar, mas a prática mostra muitas vezes o oposto.

Senhor de um pequeno feudo ou vassalo de um conjunto de disciplinas, diz conhecer melhor - ou dominar - seu pobre território. Nesse caso, a grade curricular cria uma base monolítica, dura e sem janelas, como se as matérias não fossem mais que um complexo de mônadas, irrevogavelmente solitárias. O novo como um insulto. E a curiosidade, um ato de insurgência.

Aos feudatários importa cumprir o ato litúrgico e vazio de uma cultura tabeliã. Produzir memorandos. Selos. Diplomas. Carimbos de marca. E cumprir rigorosamente a procissão interminável de milhares de reuniões, interrompidas, apenas, por vezos cartoriais hierarquicamente superiores. O Homo burocraticus produz formulários e relatórios (on-line ou off-line), num tempo de estudos minguantes e superficiais. Muito cartório para pouco laboratório. E ai de quem olha acima das aduanas disciplinares: estará cometendo um crime de lesa-departamento, seguindo-se um código penal invisível para quem é flagrado cometendo práticas interdisciplinares.

Creio que a Faculdade de Letras da UFMG quebrou núcleos feudais, rompendo laços que prendiam os alunos às disciplinas, como servos da gleba, vistos a partir de um setor ou departamento, de um carimbo ou endereço.

Não se aposta no diletantismo. O específico permanece. Importa apressar a extinção dos que nasceram debaixo do guarda-chuva cartorial, completando um percurso claudicante das alianças litúrgicas de papelórios, longe de qualquer demanda intelectual.

Acredito profundamente na universidade pública e nos seus altos destinos. Por isso rezo para Santa Flexibilidade, padroeira dos estudos interdisciplinares e de uma universidade mais aberta.