e todo caminho deu no mar

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"lâmpada para os meus pés é a tua palavra"
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sábado, 12 de abril de 2014

mitologia na metrópole


Uma versão deste texto foi publicada no livro Diásporas e deslocamentos: travessias críticas. Org. Oliveira, Paulo César e Carreira, Shirley de Souza. Rio de Janeiro: FGV, 2014.
 
Resumo: Este ensaio atenta para as formas como o poeta, filósofo e compositor Antonio Cicero relê, através do texto clássico,  a narrativa mítica no início deste milênio. Nesta releitura, o autor desloca-se no tempo e atualiza o imaginário contemporâneo em alguns poemas de A Cidade e os Livros (2002). 
 
 
Palavras-chave: Literatura. Poesia contemporânea. Interdisciplinaridade. Mito. Forma. Imaginário. Antonio Cicero.


Para Beatriz Resende
 

I – Nossa antiga “infância social”

Intitulada “Com sede dessa água”, a primeira versão deste texto foi apresentada na UERJ, no I Simpósio de Estudos Helênicos – Do Clássico ao Contemporâneo – realizado no Rio de Janeiro em 2004. Para construir algumas conexões entre o texto clássico e a poética contemporânea, elegi como objeto de leitura alguns textos de Italo Calvino e Paulo Leminski, dentre outros autores; e embora nesta segunda versão o recorte teórico e intercultural tenha sido ampliado, continuo tendo como referencial a poética de Antonio Cicero.

A produção estética e cultural de Antonio Cicero traduz muito da vitalidade da língua e da produção artística dos autores gregos e latinos. Seja através das canções, dos poemas ou ensaios, o poeta de A Cidade e os Livros (2002) demonstra ser um exímio leitor de Homero, Virgílio, Anacreonte, Ovídio e Heráclito, dentre outros autores representativos da antiguidade clássica. Ao acionar a releitura desses autores canônicos, Cicero dialoga com as formas imaginárias e os roteiros reflexivos que nos legaram os clássicos.

Nessa relação do poeta carioca com a arte clássica, destaca-se a leitura das formas poéticas, das narrativas da mitologia e dos discursos da filosofia. O poeta relê e atualiza fragmentos capitais das formas artísticas e dos discursos míticos construídos por aqueles povos. Sobre eles são marcantes, por exemplo, as leituras feitas por outro filósofo que, assim como Cicero, é também um exímio leitor dos autores clássicos: o economista Karl Marx (1999:123).

Sugere o autor de O Capital que, ao erigir essa arte clássica, ao engendrar a tessitura de seus poemas e narrativas, os autores gregos e latinos vivenciaram – e inscreveram – um estágio da humanidade correspondente à “infância social” da raça humana. A inscrição desse estágio atravessa séculos, e ainda se encontra em vigor num mundo que continua sendo lido e configurado por meio de formas míticas. Formas essas que aparecem, por exemplo, nos vários palcos e telas (de cinema, vídeo, TV, pc ...) nos quais os mitos de Prometeu, Narciso ou Ulisses continuam em cartaz.

“O mito é o nada que é tudo”, diz Fernando Pessoa em Mensagem, abrindo o poema que tem “Ulisses” como título. O poeta moderno sabe que o mito formata o mundo. A modernidade começa, para Leminski, com um “pensar sobre” os mitos. Por isso, a mitologia pode ser lida como um conjunto de formas narrativas, signos culturais e símbolos filosóficos construídos pelos mais diferentes povos no decorrer dos tempos e em múltiplos espaços, na busca da compreensão e do sentido para a existência.

Essa busca existencial visa entender o que não é da ordem do visível ou da razão, resultando numa adição de saberes e ações compostas por elementos físicos, espirituais e intelectuais que dialogam com dados referenciais e históricos repassados de geração a geração. Esse repasse geracional sugere que as mutações e os deslocamentos operados pelos mitos são determinados pela história. Sugere principalmente que o mito surge do processo cultural e coletivo, não sendo, portanto, nenhum produto natural (embora, segundo Rolando Barthes, o mito postule “a imobilidade” da natureza).

A configuração do mundo contemporâneo através dos escritos míticos e clássicos pode também ser aferida por meio de um texto belo como “Latim com gosto de vinho tinto”, do poeta Paulo Leminski (1987:188). Neste texto que serve de posfácio para a sua tradução do Satyricon – narrativa escrita pelo romano Petrônio, e que é considerada o primeiro romance ocidental –, o poeta paranaense diz:

Até as vanguardas do início do século XX, pouca coisa inventamos de novo em relação à civilização greco-latina: recursos de estilo, figuras de linguagem, a distinção entre poesia e prosa, gêneros literários, formas de dizer, moldes do sentir e do pensar, esquemas mentais, tudo devemos a esses gigantes em cujos ombros estamos trepados.  

Para um país jovem como o Brasil, a leitura desse legado estético e daquela “infância social” é imperativa. Ela auxilia na compreensão de nossa história que se constrói levando em conta, dentre outros, o imaginário bélico e autoritário que herdamos desde a colonização européia, passando por golpes e ditaduras dos quais temos dificuldades de rever, compreender, falar.

A leitura dos textos clássicos amplia o diálogo com essa memória social e antiga do país e com este estágio inicial da humanidade. Essa leitura aciona um deslocamento temporal, possibilitando a construção de um intertexto que põe em circulação um corpus interdisciplinar com textos da arte e da cultura, da mitologia, da filosofia... Na viagem que empreende em torno do imaginário grego, esse corpus é lido como uma “máquina” por Paulo Leminski (1998: 62) da seguinte forma:

Literariamente, essa imensa máquina imaginária atravessou viva a idade Média, reacendeu no Renascimento italiano e sobreviveu, impávida, até o romantismo europeu do século XIX, quando começa seu processo de esquecimento. De Homero a Goethe, passando por Dante e Shakespeare, numa linha ininterrupta, durante mais de dois mil anos, o imaginário grego foi o primeiro alimento do poeta ocidental culto, seu “soft-ware” de fantástico, referencial de imagens...

Nesta releitura intertextual operada pelo poeta contemporâneo, esse legado milenar das artes e culturas clássicas é relido enquanto “máquina imaginária” e reflexiva que aciona formas e forças de quem lê e escreve na contemporaneidade. Essa “máquina” impulsiona a produção subjetiva do leitor, elaborando figurações no corpo e na mente, fabricando discursos e formas no espaço. Trata-se de uma releitura potente, cuja força constrói o poema, cuja subjetividade pode erigir um país – “O país das maravilhas” (2002:13), espaço aberto à inscrição e à celebração das coisas no mundo exterior.

Na poética contemporânea criada por Antonio Cicero não ecoa o discurso de nenhum herói grego ou latino. Quando o poeta outorga voz para um herói ou uma divindade, eles parecem encenar, através da oralidade cotidiana do presente, sua porção terrestre no aqui e agora. O poeta dota de linguagem cotidiana, abastece de tonalidade humana aqueles deuses e mitos eternamente estetizados com base numa linguagem olímpica, celebratória.  

O discurso exaltatório ou a narrativa grandiloqüente que durante séculos perdurou no universo das letras e da cultura é rasurado, convertido. Essa conversão lingüística parece sintonizada com o discurso reflexivo do próprio poeta carioca, ao cognominar de esquisito (do vocábulo latino ‘exquisitus’), de requintado, o sujeito que faz arte. Diz Cícero (1995: 175): “... o artista é perverso em relação às versões canônicas, às formas e às ordens, quer dizer, aos mundos positivos do seu tempo”.

Essa “perversão” em relação às formas estéticas pode ser lida na inscrição de alguns procedimentos poéticos e de algumas estratégias subjetivas relacionadas às divindades “devoradas” pelo poeta.  “Perversão” essa que é também sugerida na leitura da mitologia como “o poder que a linguagem exerce sobre o pensamento, e isto em todas as esferas possíveis da atividade espiritual” (1972:19).

II – Prometeu e Palomar

Os filhos de Prometeu se rebelam.


Paulo Leminski, Metaformose



Dentre os procedimentos estéticos utilizados por Cicero nessa “devoração” da tradição, destaca-se a releitura da narrativa mítica em sintonia com as formas contemporâneas e o “espírito urbano” (1972:16). Nesse intertexto com as formas clássicas, alguns dos poemas e ensaios do autor sugerem outros modos de leitura e reflexão. Ao deslocar-se para a antiguidade clássica, o poeta contemporâneo dota de visibilidade humana algumas divindades geralmente estetizadas através de um olhar olímpico. Por meio dessa dotação visível, ele propõe ao leitor a visibilidade do seu tempo.

Através dessa perversão óptica, dessa troca de olhares entre seres humanos e divinos, Antonio Cicero constrói uma linguagem leve, sem peso e que atualiza, neste início de milênio, a dicção milenar das narrativas clássicas. Essa permuta óptica e a atualização dessa dicção poética são visíveis e audíveis no poema “O grito” (2002: 33), onde é estetizada a voz de Prometeu.

 Ensina a mitologia que, por ter roubado de Zeus as “sementes do fogo” para trazê-las à terra, Prometeu é acorrentado a um rochedo. Sobre ele é lançada uma águia que devora o seu fígado. Mito que simboliza a revolta do espírito, o titã Prometeu é uma divindade que marca o advento da nossa consciência aqui na terra, e que ilustra a fome do saber humano. Segundo Bachelard (1990: 91), a imagem de Prometeu contribui “para uma poética do humano”.  Atentando para o fogo (“a fricção ou o choque”) e as figurações criadas em torno deste titã e seus símbolos, o autor francês assegura que “o Prometeu poético nos convida a uma estética do humano”.

Desde “Prometeu Acorrentado”, de Ésquilo, passando por Goethe e outros românticos como Castro Alves, o mito de Prometeu é um dos mais estetizadas pelos poetas ocidentais. Em nossa moderna historiografia literária isso pode ser ratificado num poema da década de 30, como “Novíssimo Prometeu” (1959:108), de Murilo Mendes, que começa assim: “Eu quis acender o espírito da vida,/ Quis refundir meu próprio molde...”. Mais de meio século depois, o “Prometeu” (1996:162), da poeta Orides Fontela é bem diferente. Publicado em Alba, o poema inicia, sem nenhum desejo, mas urdindo – num verso curto – o código jurídico da vida urbana ao ser natural: “A Lei/ cinzenta – ave de/ rapina...”

Observemos, a seguir, as “imagens prometéicas” criadas por Cicero para atualizar esse mito. Ouçamos o eco do seu grito nas “paisagens urbanas”. Ele silva por entre os ruídos e rumores das “urbes formigantes”. Por entre seres que se deslocam num espaço repleto de “cruzamentos” e contaminações culturais que se chocam, se condicionam e acabam por produzir o texto.


Estou acorrentado a este penhasco
logo eu que roubei o fogo dos céus.
Há muito tempo sei que este penhasco
não existe, como tampouco há um deus
a me punir, mas sigo acorrentado.
Aguardam-me amplos caminhos no mar
e urbes formigantes a engendrar
cruzamentos febris e inopinados.
Artur diz “claro” e recomenda um amigo
que parcela pacotes de excursões.
Abutres devoram-me as decisões
e uma ponta do fígado mas digo:
E daí? Dias desses com um só grito
eu estraçalho todos os grilhões.


Como demonstra o Dicionário dos Símbolos (1993:746), o mito de Prometeu representa, em sua narrativa original, o espírito que busca se igualar à inteligência divina, ou pelo menos retirar dela um pouco de luz e fogo. Alguns leitores sugerem, através de uma mirada de viés sociológico, ver nessa tentativa de retirada de luz e fogo das divindades um espírito marxista, já que seria a raça humana beneficiada, de forma comum, com tais elementos divinos – a luz, o fogo (segundo o tradutor Trajano Vieira (1999: 139) e o poeta Paulo Leminski (1998: 66), é o titã Prometeu – gigante que ousou desafiar a ira divina – o mito predileto, o herói filosófico do pensador Karl Marx).

Voltemos a ouvir “O grito”. Na releitura elaborada pela ótica poética, a ironia e o humor servem de procedimentos para a narrativa recriada pelo autor contemporâneo. Sem drama, ele atualiza essa poética clássica através de uma linguagem cuja oralidade permite a um deus escutar – do interlocutor humano – uma interjeição presente nos nossos discursos cotidianos como “claro”. Além disso, esse deus usa expressões interrogativas que retrucam e desafiam como: “E daí?”

Mais inusitado ainda é perceber a sintonia entre seres eternos e elementos corriqueiros, propondo uma sincronia entre o alto e o baixo, o divino e o humano.  Inusitado também é ouvir uma divindade preocupada com “pacotes de excursões”. Ou seja: trata-se de um deus atualíssimo, um ser que lida com roteiros de viagens e prestações a pagar. Figurinha fácil com a qual deparamos nos finais de semana da Lapa, da Ribeira ou da Augusta.

Ao ouvirmos “O Grito” é quase impossível não escutar o discurso narrativo de Palomar – a personagem de um livro homônimo de Italo Calvino. Ouvinte sensível às ondas e assobios, além de ser um leitor contemplativo das formas exteriores, Palomar transita entre a praia, o jardim, a cidade... Como todo mortal, ele sonha, reflete, imagina. Vai às compras. Descreve, narra e argumenta. Buscando o seu equilíbrio nos “cenários em ruínas” por que transitamos através do humor e da ironia, ele assegura que “até a linguagem dos deuses muda com os séculos”.

Essa transmutação lingüística acionada por Calvino nos remete a maneira como Cicero (2002) assume ler os clássicos. Diz ele para o Jornal do Brasil: “A literatura clássica constitui grande parte das idéias e do vocabulário com os quais pensamos e imaginamos o mundo em que vivemos. ...Por direito, o mundo clássico pertence aos brasileiros, assim como nos pertence a língua portuguesa”.

 

III – Com sede dessa água

 

Utilizando-se desse direito de pensar e imaginar a partir da literatura clássica, Cicero relê o vasto arquivo de formas do imaginário e da reflexão produzida pelos gregos e latinos. Exemplo disso é a releitura do mito da “Medusa” (2002:65), cujo poema de título homônimo também faz parte do livro A Cidade e os Livros. Relida pela lente da poesia e da história da cultura, a Esfinge – esse “monstro-pergunta” – metaforiza, segundo Paulo Leminski em sua Metaformose, a imagem do “primeiro filósofo, o ser questionário.”

Na leitura que empreende em torno do imaginário grego, o poeta paranaense diz que toda estátua existente em nosso planeta pode ser vista como alguém que cruzou com a Medusa em algum espaço. Nesse olhar leminskiano, ela – a Medusa – simboliza a paralisação da história, enquanto Perseu anseia por muito mais: ele quer o vôo, o movimento, a mutação. Ele tem sede e se desloca. Sua ação conjuga verbos. Por isso Perseu deseja narrar outra história. É o que Cicero aciona no poema “Medusa”: dá voz a Perseu, esse mito que descende diretamente de Zeus, ilustrando a complexidade da relação pai – filho.

Em “Medusa”, a oralidade clássica encontra-se refletida no ritmo das imagens e no recorte dos temas. Eles produzem uma linguagem carregada de tons mutantes, às vezes rápidos, fragmentados, que refletem muito da subjetividade contemporânea. Por meio desse diálogo entre a forma e a oralidade herdadas da poética clássica, Cicero atualiza, através das estratégias subjetivas do nosso tempo, a relação entre Perseu e a “Medusa”. Mas é bom relembrar que, apesar desse título, quem ganha voz no poema é o sedento filho de Zeus – o próprio Perseu, ouça:


Cortei a cabeça da Medusa
por inveja. Quis eu mesmo o olhar
sem olhos que vê e se recusa
a ser visto e desse modo faz
das demais pessoas pedras: pedras
sim, preciosas, da mais pura água,
onde o olhar mergulha até a medula,
diáfanas, translúcidas, cegas.
Refleti muito, antes. Na verdade
estes meus olhos provêm de carne
de mulher, não do nada imortal
da divindade. Como encarar
com eles a Górgona? Mas mal
pensando assim, lembrei ser mortal
ela também: e seu pai é um deus
do mar mas eu sou filho de Zeus.
Mesmo assim não quis enfrentá-la olhos
nos olhos. Peguei emprestado o espelho
da minha irmã e adentrei o cômodo
da Medusa de soslaio, vendo
tudo por reflexos:
...
Do pescoço
cortado nasceu um cavalo de asas
(é que o deus do mar a engravidara)
e mergulhou no horizonte em fogo
crepuscular. Contam que, no monte
Hélicon, seu coice abriu uma fonte.
A ser não sendo, de madrugada
levanto com sede dessa água.


Segundo Calvino, Perseu é signo da leveza. Para decepar a cabeça da Medusa que nos fita com seus olhos de chumbo, ele precisa calçar sandálias aladas. No início do poema é estetizado o desejo de um olhar que, apesar de ver, vê apenas “por reflexos”. Para cortar a cabeça da deusa, Perseu assume a necessidade de não olhá-la nos olhos, mas através do espelho por meio do qual obtém esses reflexos. Nisso reside a força deste mito: na “recusa da visão direta.”

O desejo refletido nesse olhar – que só consegue ver através de reflexos – parece apontar também para uma outra visão mitológica de Perseu e o seu olhar feminino. Essa visão é sugerida, no poema acima, ao admitir o nosso herói serem os seus olhos provenientes do corpo humano – “de carne/ de mulher”, não do corpo de nenhuma divindade.

Lida por um viés psicanalítico, a medusa aponta para a representação da imagem excessiva da culpa. “Cortei a cabeça da Medusa.” Leia-se: aboli a culpa. Segundo a narrativa clássica, quando a cabeça da Górgona é cortada, nasce um “cavalo de asas”. Esse “cavalo” alado sugere um rico significante que aponta para as idéias de potência, locomoção e deslocamento materializadas na imagem mítica e na forma do próprio poema.

No final do poema, o coice desse cavalo de asas abre “uma fonte” da qual Perseu admite brotar a sua sede. “Com sede dessa água” também vivemos nós, leitores de mitos, poemas, narrativas... Automatizados pelas forças e formas dos sistemas de dominação social que regem os mais diferentes povos e culturas, almejamos freqüentemente as águas míticas e poéticas que batizam novas leituras do mundo. Águas desse imaginário milenar que saciam desde sempre a nossa sede cultural. Nossa infinita sede de formas e linguagens em meio ao caos que diariamente nos solicita.

 

BIBLIOGRAFIA

 
BACHELARD, Gaston. “Prometeu” in Fragmentos de uma poética do fogo. Trad. Norma Telles. São Paulo: Brasiliense, 1990.

Barthes, Roland. Mitologias. Trad. Rita B e Pedro de Souza. 4ª ed. São Paulo/Rio de Janeiro: Difel, 1980.

CALVINO, Ítalo. Palomar. Trad. Ivo Barroso. São Paulo: Cia das Letras, 1994.

____ Por que ler os clássicos. Trad. São Paulo: Cia das Letras, 1993.

CAMPOS, Haroldo de. e MENDES, Odorico. Os nomes e os navios. Homero, Ilíada, I I. Org. Introdução e notas: Vieira,Trajano. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1999.

CASSIRER, Ernst. “A Linguagem e o Mito: sua posição na cultura humana” in Linguagem e Mito. Trad. J. Guinsburg e Miriam S. São Paulo: Perspectiva, 1972. 

CICERO, Antonio. A Cidade e os Livros. Rio de Janeiro: Record, 2002.

____ O mundo desde o fim. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995.

____ Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 2002. (sem título).

CHEVALIER, Jean e GHEERBRANT, Alain. Dicionário de Símbolos. 7ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1993.

FONTELA, Orides. Poesia Reunida (1969 – 1996). São Paulo: Cosac Naify/Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006.

LEMINSKI, Paulo. Metaformose. São Paulo: Iluminuras, 1998.

____ Matsuó Bashô. A Lágrima do Peixe. São Paulo: Brasiliense, 1983.

____ “Latim com gosto de vinho tinto” (posfácio) in Satyricon. Petrônio. São Paulo: Brasiliense, 1987.

MENDES, Murilo. Poesias (1925 – 1955). Rio de Janeiro: José Olympio, 1959.

VIEIRA, Trajano. “Notas & contranotas” in CAMPOS, Haroldo de. e MENDES, Odorico. Os nomes e os navios. Homero, Ilíada, I I. Org. Introdução e notas: Vieira,Trajano. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1999.

 

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

viagem como arte VI



Sísifo carregando pedra é o avesso de Ulisses e sua viagem marítima?

Ulisses = água, movimento, deslocamento

x

Sísifo = pedra, estabilidade, repetição

A viagem terrestre do mito de Sísifo é repetitiva; não leva a lugar nenhum. Parece que a tarefa do seu ser nada completa. Seu roteiro não vinga. Seria Sísifo a própria pedra que ele carrega?

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

dossiê de formas para Perseu

I



E sem dar uma forma, nada me existe. ...

Uma forma contorna o caos, uma forma dá construção à substância amorfa...



Clarice Lispector, A Paixão Segundo G.H.





II



E a forma? Coisas da vida!

Vinde a mim, geometrias, figuras perfeitas, - Platão, abri o curral de arquétipos e protótipos...



Leminski, Catatau





III



Em Platão, a forma é esse saber que preenche o ser.



Lacan, O Seminário – Livro 20 mais, ainda





IV



A forma custa caro.



Valéry





V



Eu devo experimentar a forma como minha relação axiológica ativa com o conteúdo... é na forma e pela forma que eu canto, narro, represento, por meio da forma eu expresso meu amor, minha certeza, minha adesão.



Bakhtin, Questões de Literatura e de Estética


quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Perseu

 
No Dicionário de Símbolos, o mito de Perseu ilustra a complexidade da relação pai-filho, filho-pai, existente em todo homem. Apesar de complexa, essa relação pode ser leve (com Perseu e Medusa, Calvino abre a proposta da Leveza em "Seis propostas para o próximo milênio").



Perseu não tem pai humano. Descende diretamente de Zeus. Esse mito alado me lembra um amigo que, como Perseu, nunca teve pai. Ele era pai do seu próprio pai. Até que esse pai do meu amigo morreu. E depois dessa morte o meu amigo continuou eternamente pai. Pai para toda obra.



Paternal e alado, Perseu corta a cabeça da Medusa (simbologia da culpa). Com esse corte, ele abole  a sua própria culpa. Poucos lembram que, depois da Medusa morta, nasce Pégaso - um cavalo cujo coice abre uma fonte (ok, mestre Yoda, eu falo a sua língua). "Coice que abre uma fonte" é um bom título.




Dizem que quem prova daquela fonte é possuído por uma sede infinda. Perseu mata a sede. É o mito que simboliza o ideal realizado. Mas não pensem que é fácil. Esse ideal tem preço. Ele é realizado ao preço de combates e escolhas. Difíceis combates e escolhas corajosas, engenhosas.

domingo, 1 de maio de 2011

Livro que traumatiza e vinga

Acaba de ser publicado um pequeno ensaio de minha autoria: "Os sertões e alguma coisa do temperamento nacional”. O referido texto encontra-se na revista e-scrita do Curso de Letras da UNIABEU, Nilópolis, v. 2, Número 4, Jan.- Abr. 2011.


Resumo: Leitura de "Os Sertões", de Euclides da Cunha, atentando para as práticas culturais produzidas no espaço e no corpo do sertanejo, cujos reflexos podem ser lidos no imaginário e no “temperamento nacional”.


Palavras-chave: "Os Sertões"; Euclides da Cunha; Antonio Conselheiro; Imaginário; Corpo; Espaço.


Para ler o texto completo, acesse o PDF no link abaixo:
http://www.uniabeu.edu.br/publica/index.php/RE/article/view/105




sábado, 9 de outubro de 2010

O Pássaro que comeu o sol

Tu não és pedra e sim estrela.
Não és estrela e sim sonho.
Não és sonho e sim fogo.

Bak Du-Jin, poeta e crítico moderno da Coreia

sábado, 12 de dezembro de 2009

Borgeanas









G
L
Ó
R
I
A

Rio

do tempo em que o Pedro Nava vivia aqui


1- O dever de todas as coisas é ser uma felicidade; se não são uma felicidade são inúteis ou prejudiciais.


2- O diálogo tem que ser uma pesquisa e pouco importa que a verdade saia da boca de um ou da boca de outro.


3- Os astros e os homens voltam ciclicamente.


4- Não sem grave assombro compreendeu. Naquela noite, dos seus olhos mortais, a que descia agora, esperavam-no também o amor e o risco. Ares e Afrodite, porque já adivinhava (porque já o cercava) um rumor de glória e de hexâmetros...


5- ...porque o que é bom já não é de ninguém, nem sequer do outro, mas sim da linguagem ou da tradição.

domingo, 11 de outubro de 2009

Maldição move, bênção relaxa?

Um dos temas principais do filme é fazer com que os organismos percebam que devem viver juntos para o benefício mútuo. Não apenas os humanos... tudo na galáxia é parte de algo muito maior. É uma questão de aquietar a mente para ouvir a si mesmo.
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Os mitos o ajudam a ter a sua própria saga de herói, a encontrar a sua individualidade e o seu lugar no mundo.
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Você não precisa entrar numa luta de sabres de luz ou viajar em espaçonaves para se tornar um herói. São pequenas coisas que acontecem todos os dias na sua vida... ... você pode ajudar alguém, ter compaixão, tratar as pessoas com dignidade...
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(George Lucas fala p/ Bill Moyers sobre Guerra nas Estrelas in O Poder do Mito)

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

O Cânone do Conselheiro














"Conselheiro vinha de muitas caminhadas, desde o nascimento em Quixeramobim... leitor assíduo das histórias de cavaleiros andantes, de Carlos Magno e os Doze Pares de França, da Demanda do Santo Graal, dos Cavaleiros da Távola Redonda, das lendas da Bela Infanta, dos amores de Dom Carlos de Montealbar, da Filha do Rei de Espanha, que lia em folhetins e almanaques...
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Conselheiro era lido de muitos livros, revistas e almanaques... Estudara os conceitos de Santo Agostinho... Preferia a Suma Teológica de São Tomás de Aquino... "
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Ele conhecia os livros bíblicos, do Gênesis ao Deuteronômio... rezava com os folhetos das Horas Marianas e da Missão Abreviada...
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Trechos do décimo romance de Moacir C. Lopes, autor de A Ostra e o Vento. Publicado em 2007, 110 anos após a tragédia de Canudos, este vigésimo primeiro livro do autor - cearense que nem o Conselheiro - antecipa as comemorações dos 100 anos da morte de Euclides da Cunha (15/08/1909).

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Retrato Sonoro e Afetivo de Canudos












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Vista de Canudos da encosta do Morro da Favela, em exposição aberta em 13/08/2009 na Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, em homenagem aos 100 anos da morte de Euclides da Cunha (15/08/1909).














Ladainha de Canudos
(Gereba/João Bá)

Usaram as águas do rio
Que nem arma do medonho
Pra destruir a morada
Terra Santa
Do beato Santo Antonio
Penitentes e contritos
Na sagrada procissão
Pra bandeira de Canudos
Nunciar ressureição
Usaram as águas do rio











Rio, Abril de 2009

bom dia, Gereba (Monte Santo, 14/08)

bom dia, Bibi (Serrinha, 18/06)

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Euclides na Biblioteca Nacional


















EUCLIDES DA CUNHA - uma POÉTICA do ESPAÇO BRASILEIRO é a exposição cuja cerimônia de abertura acontecerá nesta quinta, 13/08, na FBN, em homenagem aos 100 anos de morte (15/08/1909) do escritor que nasceu em 1866 em Cantagalo-RJ.
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A leitura da poética espacial euclidiana possui assinatura do poeta, tradutor e ensaísta Marco Lucchesi (UFRJ), cuja bibliografia ostenta cerca de 12 títulos, com traduções para o persa, o romeno e o almeão, dentre outros idiomas.
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Barroco Cipó
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Em seu livro póstumo Anseios Crítpticos, o poeta Paulo Leminski lê Os sertões como um texto “barroco positivista/ estilo de cipó”. Essa metáfora do cipó é uma referência a um dos mais renomados intérpretes do Brasil no final do século XIX: Joaquim Nabuco. Nabuco dizia que Euclides escrevia com um cipó.
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A leitura leminskiana possui na sofisticação da linguagem euclidiana um dos seus alvos, e aponta para uma gradação estilística e formal, “um longo percurso textual”, que vai “das anotações às reportagens” até chegar a escrita definitiva de Os sertões. Segundo Paulo Leminski,


Euclides da Cunha...
traumatizou
uma literatura feita por bacharéis
ornamental
“sorriso da sociedade”
brilho dos salões do 2o império
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Antonio Celso Conselheiro: "oratória bárbara e arrepiadora, feita de excertos truncados das Horas Marianas, desconexa..."

O brasileiro, tipo abstrato que se procura... só pode surgir de um entrelaçamento consideravelmente complexo.

Teoricamente ele seria o pardo, para que convergem os cruzamentos do mulato, do curiboca e do cafuz.
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Avaliando-se, porém, as condições históricas que têm atuado, diferentes nos diferentes tratos do território; as disparidades climáticas que nestes ocasionam reações diversas diversamente suportadas pelas raças constituintes; a maior ou menor densidade com que estas cruzaram nos vários pontos do país; e atendendo-se ainda à intrusão - pelas armas na quadra colonial e pelas imigrações em nossos dias - de outros povos, fato que por sua vez não foi e não é uniforme, vê-se bem que a realidade daquela formação é altamente duvidosa, senão absurda.
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"O Homem" in Os sertões (1902), Euclides da Cunha

"Espécie de grande homem pelo avesso"

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Nas águas de Homero ou Ulisses é o cara!


01 – “Canta, ó Musa, o varão que astucioso”

- Este primeiro verso da Odisséia (livro que serve de base para a cultura ocidental) faz referência a MNEMÓSINE – a deusa da memória, e ao varão cheio de astúcia que é Ulisses...



02 – Ulisses Ou Odisseu

Rei de Ítaca
Esposo de Penélope
Pai de Telêmaco



03 – O deus dos mares

Durante dez anos, Ulisses viaja pelo mundo, como narra a Odisséia. Numa primeira etapa desta viagem, ele encara as dificuldades criadas por POSEIDON – o deus dos mares que apronta todas, cria tormentos, maldades...



04 – A memória

Em sua viagem de retorno, Ulisses corre o risco de perder a memória. Por quê? São várias as tentações: o fruto do lótus; as drogas de Circe; o canto das sereias... A perda da memória é uma das principais ameaças para Ulisses. Ele precisa extrair experiência, transmitir lições, produzir o sentido a partir do que ele viveu. Por isso não pode esquecer. Nem pode esquecer o roteiro do futuro para o qual ele viaja.

05 -Italo Calvino lê Homero/Ulisses

"... Em todas as situações Ulisses deve estar atento, se não quiser esquecer de repente... Esquecer o que? A Guerra de Tróia? O assédio? O cavalo? Não: a casa, a rota da navegação, o objetivo da viagem."
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(Italo Calvino, Por que ler os clássicos)



06 – A companheira

Na segunda etapa da viagem, Ulisses volta para o seu lar. O retorno se dá sob as bênçãos de ATENA – a deusa do pensamento, da sabedoria; patrona das artes e dos ofícios.



07 – O primeiro herói grego com inteligência e força física.

Ulisses vence todas as dificuldades e regressa são e salvo ao seu país por dois motivos: ele é o herói de mente perspicaz (raciocínio), e utiliza a força física (equilíbrio).


08 – Pensar é agir

“Porque é capaz de raciocinar e avaliar as coisas”, Ulisses pensa antes de agir; enquanto os “outros heróis se atirariam cegamente para a luta”.



09 – Com o advinho no Hades

Na viagem, Ulisses desce ao Hades. Lá, munido de sua espada, ele encontra TIRÉSIAS – o advinho cego que dá informações de como o herói deve chegar a Ítaca, a terra onde ele é rei.



10 – Encontro com Sísifo e a mãe

O Hades é um espaço problemático, o mundo da sombra. Lá encontram-se, dentre outros, a mãe do herói e Sísifo – aquele que empurra pedra montanha acima, e que com ela escorrega de volta quando chega ao topo.



11 - Sísifo (pedra, estabilidade) x Ulisses (água, movimento)

Sísifo é o avesso de Ulisses e sua viagem marítima. O roteiro terrestre de Sísifo não leva a lugar nenhum. A tarefa do seu ser nada completa. Sua viagem não chega. Sísifo é a própria pedra que ele carrega.



12 – Retorno a Ítaca

Para retomar a família, as posses e o poder, é necessário o disfarce como velho mendigo. Mas a cicatriz de Ulisses dá bandeira. Através dela, a cicatriz na coxa, o herói é reconhecido por Euricléia – sua antiga ama. O cão Argos também saca a artimanha do seu antigo dono.



13– Porto Alegre (Nos Braços de Calipso)
Péricles Cavalcanti


Amarrado num mastro/ Tapando as orelhas/ Eu resisti/ Ao encanto das sereias/ Eu não ouvi/ O canto das sereias/ Eu resisti/ Mas chegando à praia/ Não fiz nada disso/ Então caí/ Nos braços de Calipso

Eu sucumbi/ Ao encanto de Calipso/ Não resisti/ Depois disso eu não tive/ Nenhum outro vício/ Senão dançar/ Ao ritmo de Calipso/ Pois eu caí/ Nas graças de Calipso/ Não resisti/ Ao encanto de Calipso/ Só sei dançar/ Ao ritmo de Calipso/ Calipso


quinta-feira, 18 de junho de 2009

Calvino lê Ulisses




"... a perda da memória é uma ameaça... Em todas as situações Ulisses deve estar atento, se não quiser esquecer de repente... Esquecer o que? A Guerra de Tróia? O assédio? O cavalo? Não: a casa, a rota da navegação, o objetivo da viagem."
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(Italo Calvino, Por que ler os clássicos)

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Sebastião Oxóssi

Itália, Antiguidade clássica. Um jovem oficial é perseguido por ser cristão. Envolve-se numa trama que mexe com os nervos de dois imperadores romanos: Diocleciano e Maximiano. Acerca disso, ecoam pelos tempos infindos boatos místicos, políticos, eróticos...

Morto com flechas – imagem consa(n)grada no imaginário popular – Sebastião e suas formas suaves despertam sentimentos dúbios. Desconcerta em seu martírio, as imagens que misturam sedução e dor, juventude e morte. Sangue e o tecido no centro do corpo.

As flechas de Sebastião e sua sangria atravessam séculos. Inspiram estátuas, livros, pinturas, filmes e canções em tempos violentos, carentes de delicadeza. Ele é Oxóssi nos cultos de influência afro. E divide, com Nossa Senhora da Conceição, o patronato da Portela. Ou seja: no diálogo entre a espiritualidade e o gozo, só perde para Santa Tereza, aquela que foi petrificada por Bernini em pleno gozo. Numa boa. Como os soldados, os gays e marginalizados em geral de quem, com o tempo, Sebastião tornou-se padroeiro.

domingo, 26 de abril de 2009

Klimt e a mãe do Perseu



Danae é fecundada por Zeus - "o deus cintilando como pétalas de uma flor de luz". Daí nasce Perseu, o mito que encara o monstro - a Medusa. "A medusa queria paralisar a história ...Perseu queria fazer a história, contar a história, ser contado pela história..." (Leminski)

Perseu - escudo, capacete, sandálias aladas

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Para cortar a cabeça da Medusa, o herói teve ajuda de 3 divindades: Atena, Hades e Hermes. Atena deu-lhe um escudo polido; Hades, um capacete; e Hermes ofertou sandálias aladas.
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Guiado pelo reflexo do escudo, mas sem olhar diretamente para a Medusa, Perseu corta a cabeça da górgona (monstro que petrifica). Abole, com este gesto, a sua própria culpa. Perseu dilata-se.
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Mas a lenda não acaba aí. Ao morrer, surge do ventre da Medusa o cavalo alado Pégaso. Aí outros roteiros são traçados, como lemos nos dicionários e nos textos de Italo Calvino e Antonio Cicero.
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I – Perseu no Dicionário de Símbolos

O mito de Perseu ilustra a complexidade da relação pai-filho, filho-pai, existente em todo homem. Perseu não tem pai humano, descende diretamente de Zeus... ele simboliza o ideal realizado ao preço de difíceis combates e de escolhas corajosas e engenhosas.



I I - Calvino lê a leveza de Perseu

"O único herói capaz de decepar a cabeça da Medusa é Perseu, que voa com sandálias aladas; Perseu, que não volta jamais o olhar para a face da Górgona, mas apenas para a imagem que vê refletida em seu escudo de bronze. ... Para decepar a cabeça da Medusa sem se deixar petrificar, Perseu se sustenta sobre o que há de mais leve, as nuvens e o vento; e dirige o olhar para aquilo que só pode se revelar por uma visão indireta, por uma imagem capturada no espelho. ... É sempre na recusa da visão direta que reside a força de Perseu."

III – “Medusa”
Antonio Cícero

Cortei a cabeça da Medusa
por inveja. Quis eu mesmo o olhar
sem olhos que vê e se recusa
a ser visto e desse modo faz
das demais pessoas pedras: pedras
sim, preciosas, da mais pura água,
onde o olhar mergulha até a medula,
diáfanas, translúcidas, cegas.
Refleti muito, antes. Na verdade
estes meus olhos provêm de carne
de mulher, não do nada imortal
da divindade. Como encarar
com eles a Górgona? Mas mal
pensando assim, lembrei ser mortal
ela também: e seu pai é um deus
do mar mas eu sou filho de Zeus.
Mesmo assim não quis enfrentá-la olhos
nos olhos. Peguei emprestado o espelho
da minha irmã e adentrei o cômodo
da Medusa de soslaio, vendo
tudo por reflexos:
...
Do pescoço
cortado nasceu um cavalo de asas
(é que o deus do mar a engravidara)
e mergulhou no horizonte em fogo
crepuscular. Contam que, no monte
Hélicon, seu coice abriu uma fonte.
A ser não sendo, de madrugada
levanto com sede dessa água.