e todo caminho deu no mar

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"lâmpada para os meus pés é a tua palavra"
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terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Cara de quem nutre fantasma



I – o etnólogo vira personagem
 
Meu nome é Buell Quain. Antes de me transformar no personagem principal do romance “Nove Noites”, do Bernardo Carvalho, eu era um etnólogo americano. Fascinado por ilhas, desertos, viagens, só entrei no livro do Bernardo porque vim parar no sertão central do Brasil. Andarilho solitário, eu gosto de escrever cartas. Adormeço embalado por histórias. A minha é curta. Uma historinha que acaba aos 27 anos, como você vai ler: não ultrapassa esta lauda. Uma vida, uma página. Ao contrário da ficção, não são páginas da vida.
 
II – o suicida arrasta um fantasma no seu rastro
 
Um amigo me define como um cientista suicida que bebe, fuma e faz do corpo um laboratório. Para ele, o meu silencio carrega um segredo. Sou um homem que arrasta um fantasma aflito no seu rastro. Nos anos 30 do século XX, vivi entre os índios krahô no sertão de Goiás. Nas tribos, à noite, o mundo ecoava em ondas que dilatavam a minha escuta, e eu passei a suportar a diferença sem nem perceber. O silêncio ficava carregado do que eu ainda não era. Não sabia que jamais seria.

III – Da América do Norte para Goiás passando pela Lapa
 
Nasci na América, no futuro do pretérito: seria. No Brasil, morei numa pensão da Lapa, no Rio de Janeiro, a capital do país. Depois vim morrer em Carolina – uma cidadezinha morta no interior de Goiás, sabendo que o bloco da família não viria atrás. Sem nenhum desejo de ser governado pelos mortos, e com a fome de quem atravessou o sertão sem água nem pele, eu vi: a realidade é o que se compartilha na sede e na superfície. Descartes eu deleto; vale a razão de Deleuze: o mais profundo é a pele.
 

 

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Formosa

 
Para Jô Medeiros
autora da primeira frase

 
Depois que aquele cachorro entrou no puteiro, não ficou pedra sobre pedra. O menino, filho de peixe, correu léguas. A dona do recinto, bobes na cabeça, parou de inclinar bandeja no salão. E a sereia, meu deus, depois que aquele cachorro entrou no puteiro, nunca mais a sereia foi a mesma. Vamos combinar que ninguém foi o mesmo depois que o cachorro entrou no puteiro: nem o menino que correu nem a dona de bobes nem a sereia dizendo o nome do peixe.

 
Para ser sincera, não foram mais os mesmos nenhum dos clientes ali presentes. Sentados à mesa, eles esperavam. Esperavam educadamente os roteiros sugeridos pelos retornos do menino, da dona que servia bandejas e da sereia que entrou com um peixe e sem nenhum voltou. Os clientes não entendiam, a tarde talvez fosse azul, a sereia tinha olhos verdes. Eles não entendiam serem eles, os clientes, os principais personagens daquela narrativa à beira mar. Azul aberto por pedras que uivam, o mar socorria a todos. Depois fez-se noite. As pedras continuaram uivando para a lua que faltava uma banda.

 
Todo mundo sabe que quando a lua falta uma banda, mudam as marés. Tudo muda, move. Move o menino a dona a sereia – todos desaparecidos. O menino corre em busca do lugar. Lugar onde não se ouve o esganiçar dos cães que assestam o ouvido na direção da baía. Igrejinha por perto. Morro branco ao fundo. Peixe frito, e um mar azul sem tamanho a inundar as fendas do olhar esbugalhado. Formosa mulher sem bobs nem bobes. Ela brinca com fogo. Brinca de marginal com trilha romântica, em pleno verão liberal pré e pós. Formosa mulher, acreditei na conversa, e a sereia? Olhei nos olhos da sereia, esqueci o cão e revi o meu mundo caiu 371.

 

sábado, 11 de maio de 2013

Cândido G1



Para Claudia F



Do alpendre da Varzinha, sabia o sertão de cor. Era um misto de Paulo Honório que não queria matar com Macabéa sem querer morrer. De Diadorim, trazia a neblina noturna que alumia o asfalto na noite neon; de Riobaldo, o coro cru que agasalha do jagunço a alma.