e todo caminho deu no mar

e todo caminho deu no mar
"lâmpada para os meus pés é a tua palavra"
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quinta-feira, 10 de setembro de 2015

mortos nas praias

 
 A escritora senegalesa Fatou Diome
e os impasses da velha Europa ou
a leitura histórica perturba o gozo estético


terça-feira, 19 de agosto de 2014

thânatus, dá um tempo


noite

caos

nada

Não apenas no Oriente, mas aqui pelas terras americanas de Pero Vaz sem Caminhos ficou mais difícil de respirar neste último bimestre. No universo da cultura, os últimos dias foram marcados pela presença excessiva da deusa Perséfone, e o seu imaginário repleto de cortes e pedras que respiram sem prazos. O rigor da morte. Perséfone e suas máscaras aniquilam. Sua lição ensina nada sermos.

As máscaras da cultura exigem rigor perante este nada. Caos com rigor? Fernando Pessoa diz que somos contos contando contos. Hoje, nem isso, epitáfio. Epitáfio em pedra. Mine poema elegíaco. Uma nênia daquelas que tratam de assuntos tristes, quase sempre a morte, como na Primeira lição no manual dos gêneros literários. A poesia salva porque recolhe os fragmentos, disse o poeta.

Ariano Suassuna, escritor

Eduardo Campos, político

Ivan Junqueira, poeta

João Ubaldo, escritor

Lauren Bacall, atriz

Nicolau Sevcenko, professor e ensaísta

Robin Williams, ator

Vange Leonel, cantor

e

73 policiais mortos no Rio em 2014

 

 

esta tão
dura morte é ainda o
resto da minha alegria

Walter Hugo Mãe, “Poemas”



terça-feira, 3 de junho de 2014

Laranjeiras de luto



Rio, tarde de Junho de 2014
hospital de cardiologia de Laranjeiras

O fotógrafo morto dentro de um ônibus, em frente ao hospital federal, é a imagem da saúde no Brasil. Na tv, 31 policiais mortos, este ano, nas UPPs do Rio. Takes da nossa violência cotidiana. Imagens da rua e da tela formatam o imaginário social feito de pequenas catástrofes urbanas. Como este homem que morreu de enfarto. Em frente ao hospital de cardiologia.

A direção do hospital alega problemas de comunicação. Segundo ela, a senhora que pediu socorro não expressou, na intensidade correta, o seu pedido. A linguagem como instrumento do poder. Embora o hospital não tenha entendido a gravidade, parabéns para o motorista que parou o ônibus em frente ao hospital.

 

terça-feira, 14 de maio de 2013

país cordial?




Os números apresentados a seguir são do jornal O Globo e do canal GNT.



I - cordial no trabalho


a -  O ministério do trabalho contabilizou, no ano de 2012, o total de 2.849 trabalhadores em condições análogas à escravidão. 

 
 
II -  cordial no trânsito


a - Se comparamos o Brasil com a Europa e os EUA, as estátisticas sobre a violência urbana afirmam sermos o país campeão em acidentes no trânsito.
 
b - A cidade do Rio de Janeiro possui 9 mil ônibus que ciruclam diariamente. Em 1 mes, eles mataram 12 pessoas e feriram 53.

c -  O trânsito da cidade de São Paulo matou 450 motoqueiros em 2012.


 
III - cordial nas relações afetivas e sexuais

 
a - Uma média de 10 mulheres são mortas diariamente no país.
 
b - 1.505 estupros, no estado do RJ, nos 3 primeiros meses de 2013.
  
c - O Brasil é campeão mundial em assassinatos homofóbicos: foram 338 em 2012. Quase uma morte por dia.
 
 
 
 

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Segunda leitura da morte



... esta tão/ dura morte é ainda o/ resto da minha alegria

Valter Hugo Mãe, “Poemas”


Fala a deusa Forma no reino de Perséfone: tua morte mexeu na alma e no corpo. Arrancou de mim dois quilos, e as gramas restantes da utopia que regeu o último verão. Sugeriu novo ritmo: menino, larga essa margem e corre. Ela é violenta e cai. Derruba. Em salas silenciosas, grávidas de tensão e alguma graça mariana, luvas marginais ensaiam a cegueira sem nenhum sossego. Fé na paisagem, “ao retornar e enfrentar o dia-a-dia/ E escrever...”

Tua morte, como a margem, mata. Matou certezas enrijecidas na mente, na carne. Traçou roteiros para uma estação de luz e brisa, atravessada por silêncios que falam. Dizem mais que as reuniões burocráticas e os discursos de plantão, regidos pelo lirismo rigoroso de Thanatus. Um lirismo vio-lento repleto de sombras e afiados canivetes orais.  Teu antigo reino continua sem xerox sem cantina sem  paz - esse artigo de luxo. Nesta guerra de egos, siglas e cus de Judas, foi “Salazar quem me mandou para Angola”.

Agora, querida, é outono. Teu nome, uma sugestão de futura homenagem póstuma. Eros e Prometeu já não promovem desordem, embora o horóscopo anuncie o poder das coxas e do fogo. Leio a oralidade das cachoeiras e os ruídos significantes cheios de desejo e som. Fazes-me falta na tabacaria. Desde que você se foi, um antigo som voltou a funcionar, e o Esteves continua "metendo troco na algibeira das calças". Desde que você se foi, o outono anda nas folhas, e o custo de vida subiu muito.  Desde que você.
 

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

ajoelha



...  a morte que é nesta história o meu personagem predileto.

Clarice Lispector, A Hora da Estrela, 1977

 

... com o rigor/que a morte pede 

Armando Freitas Filho, Cabeça de Homem, 1991

 

...digam-lhe
a verdade, que esta tão
dura morte é ainda o
resto da minha alegria

Walter Hugo Mãe, Poemas, 2005


  
Eu estive com a morte de frente; vou ter medo de encarar o que?
 
Reinaldo Gianecchini em “Marília Gabriela entrevista”, 2012



... quando não escrevo estou morta...

Clarice Lispector, entrevista para a TV Cultura, 1977
 
 

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Leitura das férias I



Dentre várias outras coisas, o bom das férias é a liberdade para ler. Ler o que quiser. Ler sem a preocupação com os planos de aulas nem com as ementas dos cursos que roteirizam a vida do professor.



Nunca tinha ouvido falar de Buell Quain – o etnólogo americano que tinha fascínio por ilhas e viagens. Gostava de escrever cartas e adormecer embalado por histórias. Cientista suicida que bebia e fumava, fazendo do próprio corpo um laboratório. Um homem silencioso que carregava segredos e “arrastava alguém no seu rastro”.



Lendo “Nove noites”, o premiado romance do Bernardo Carvalho, descobri este viajante que viveu entre os índios krahô. Ele morou numa pensão da Lapa, no Rio, e suicidou-se aos 27 anos em Carolina – uma cidadezinha morta no interior de Goiás. Cheia de mistérios, sua morte envolve problemas com afeto, dinheiro e família. Não necessariamente nesta ordem.



Criado em torno de cartas, entrevistas, fotos e relatos, este belo romance é baseado em fatos reais, mas inscreve uma forma contemporânea repleta de “memória e imaginação”.  O autor tematiza tempos modernos: o Brasil na era Vargas; os costumes e o desmatamento da selva; os roteiros de Rondon e dos irmãos Villa Boas;  o encontro de Buell Quain com Lévi-Strauss, em Cuiabá; e até a queda das torres americanas no 11 de setembro...



Sem nenhum desejo de ser governado pelos mortos, o narrador de “Nove noites” ouve os vivos que é uma beleza. Com a fome de quem atravessa o sertão e necessita de um rosto real, ele sabe que “a realidade é o que se compartilha”.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Perseu

 
No Dicionário de Símbolos, o mito de Perseu ilustra a complexidade da relação pai-filho, filho-pai, existente em todo homem. Apesar de complexa, essa relação pode ser leve (com Perseu e Medusa, Calvino abre a proposta da Leveza em "Seis propostas para o próximo milênio").



Perseu não tem pai humano. Descende diretamente de Zeus. Esse mito alado me lembra um amigo que, como Perseu, nunca teve pai. Ele era pai do seu próprio pai. Até que esse pai do meu amigo morreu. E depois dessa morte o meu amigo continuou eternamente pai. Pai para toda obra.



Paternal e alado, Perseu corta a cabeça da Medusa (simbologia da culpa). Com esse corte, ele abole  a sua própria culpa. Poucos lembram que, depois da Medusa morta, nasce Pégaso - um cavalo cujo coice abre uma fonte (ok, mestre Yoda, eu falo a sua língua). "Coice que abre uma fonte" é um bom título.




Dizem que quem prova daquela fonte é possuído por uma sede infinda. Perseu mata a sede. É o mito que simboliza o ideal realizado. Mas não pensem que é fácil. Esse ideal tem preço. Ele é realizado ao preço de combates e escolhas. Difíceis combates e escolhas corajosas, engenhosas.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Poema de Finados



Amanhã que é dia dos mortos
Vai ao cemitério. Vai
E procura entre as sepulturas
A sepultura de meu pai.

Leva três rosas bem bonitas.
Ajoelha e reza uma oração.
Não pelo pai, mas pelo filho:
O filho tem mais precisão.

O que resta de mim na vida
É a amargura do que sofri.
Pois nada quero, nada espero.
E em verdade estou morto ali.


Manuel Bandeira


 outros roteiros da morte aqui no Língua do Pé

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

"A morte... meu personagem predileto"


1983 a.c.

ceifo poesia
no teu pasto

cometo crime
com requinte
no teu pique

redomo feras
da paixão vi-
lã via verbo

tecemos fios
dos Escritos...
e Inéditos...

pela morte
eles safam-se
no teu gesto

saídas apuram
A teus pés

quarta-feira, 29 de abril de 2009

São Sebastião, de Guido Reni




Tela do pintor italiano que inspirou o escritor e ator japonês Yukio Mishima (1925 - 1970), em Confissões de uma Máscara.
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Sobre essa prosa autobiográfica que tem a juventude como alvo, diz Marguerite Yourcenar em Mishima ou A Visão do Vazio: "a atração pela morte é frequente nos seres ávidos de vida".