... esta tão/ dura morte é ainda o/ resto da
minha alegria
Valter Hugo Mãe, “Poemas”
Fala a deusa Forma no reino de Perséfone: tua
morte mexeu na alma e no corpo. Arrancou de mim dois quilos, e as gramas restantes da utopia que regeu
o último verão. Sugeriu novo ritmo: menino, larga essa margem e corre. Ela é
violenta e cai. Derruba. Em salas silenciosas, grávidas de
tensão e alguma graça mariana, luvas marginais ensaiam a cegueira sem nenhum sossego. Fé na paisagem, “ao retornar e enfrentar o
dia-a-dia/ E escrever...”
Tua morte, como a margem, mata. Matou
certezas enrijecidas na mente, na carne. Traçou roteiros para uma estação de luz
e brisa, atravessada por silêncios que falam. Dizem mais que as reuniões
burocráticas e os discursos de plantão, regidos pelo lirismo rigoroso de Thanatus.
Um lirismo vio-lento repleto de sombras e afiados canivetes orais. Teu antigo reino continua sem xerox sem cantina sem paz - esse artigo de luxo. Nesta guerra de egos, siglas e cus de Judas, foi “Salazar quem me mandou para Angola”.
Agora, querida, é outono. Teu nome, uma
sugestão de futura homenagem póstuma. Eros e Prometeu já não promovem desordem,
embora o horóscopo anuncie o poder das coxas e do fogo. Leio a oralidade das
cachoeiras e os ruídos significantes cheios de desejo e som. Fazes-me falta na tabacaria. Desde que você se foi, um
antigo som voltou a funcionar, e o Esteves continua "metendo troco na algibeira das calças". Desde que você se foi, o
outono anda nas folhas, e o custo de vida subiu muito. Desde que você.