e todo caminho deu no mar

e todo caminho deu no mar
"lâmpada para os meus pés é a tua palavra"

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Mário Quintana, Esconderijos do Tempo


As mãos de meu pai


As tuas mãos têm grossas veias como cordas azuis
sobre um fundo de manchas já da cor da terra
- como são belas as tuas mãos
pelo quanto lidaram,
acariciaram ou fremiram da nobre cólera dos justos...

Porque há nas tuas mãos... essa beleza...
... uma luz parece vir de dentro delas...
Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente, vieste
alimentando na terrível solidão do mundo,
como quem junta gravetos e tenta acendê-los contra o vento?

Ah! como os fizeste arder, fulgir, com o milagre das tuas mãos! ...

domingo, 19 de abril de 2009

Gereba canta Canudos



Retrato sonoro de Canudos marca o retorno de Gereba ao Rio, século XXI. Seu espetáculo multimídia (música, vídeo, fotografia) e intertextual (poesia, história, política) dialoga, em alguns aspectos, com Os Sertões, de Zé Celso. Ambos os espetáculos ostentam uma alta dose de sintonia estética e cultural com o Brasil contemporâneo.

Dos momentos marcantes do show, registro "Ladainha de Canudos", “Duas Pedras” – a parceria cabralina com João Ba, e “A história fará sua homenagem” – letra do poeta Ivanildo Vilanova, que começa assim: “Num profundo deserto sem ter fonte/ já surgiu um regime igualitário”. Além de músico consagrado, Gereba é bom narrador. São marcantes os momentos nos quais ele narra memórias pessoais e causos da história e da tradição sertaneja. Traça relações entre os habitantes de Canudos – o lugar onde nasceu –, o Rio de Janeiro e as origens da favela. Com leveza, sem tonalidade panfletária, essas micro-narrativas orais sugerem imagens de poesia e violência que aproximam o Rio e a Bahia – o Brasil urbano e o país rural.

Retrato sonoro de Canudos faz pensar nas inúmeras leituras que podem ser acionadas entre Os Sertões (1902), de Euclides da Cunha, e alguns textos modernos e contemporâneos como a novela A Hora da Estrela (1977), de Clarice Lispector, o romance Cidade de Deus (1997), de Paulo Lins, ou o livro que venceu o Prêmio Jabuti como melhor obra de não-ficção de 2004 – Abusado, o dono do morro Dona Marta, de Caco Barcellos.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Retrato sonoro de Canudos

Este é o título do show que o compositor, cantor e arranjador Gereba apresenta, neste final de semana, na Caixa Cultural do Rio. Nascido no sertão de Canudos, Bahia, ele cresceu ouvindo as narrativas de uma guerra na qual as tropas republicanas destruíram uma população estimada entre 10 e 25 mil habitantes. Essa guerra inspirou um dos clássicos da Literatura Brasileira: o livro Os Sertões (1902), de Euclides da Cunha.

"Do Gangu que é pura luz"

Assim como Euclides, Gereba faz da tragédia, arte. A paisagem sonora e geográfica de Canudos permeia a sua produção musical. Com base nas experiências orais dos cenários bélicos e místicos do Nordeste, ele lançou o Cd Canudos, cujas faixas “Duas Pedras” e “Sossego da Vila” sintetizam as performances vocais e instrumentais do autor e seu exímio violão. O encarte abre com um texto de Antonio Conselheiro – líder místico e social que inspirou, em 1897, a revolta contra a igreja e o Governo; e que inspira, cem anos depois, a parceria com Ivanildo Vilanova em “A História fará sua homenagem”.


Transitando entre temas urbanos (Trovadores Urbanos) e rurais (Sertão), entre acordes populares (Dom Quixote xote xote) e eruditos (Canções que vêm do sol), Gereba filia-se a uma trajetória musical que possui em Luiz Gonzaga e Villa-Lobos algumas de suas raízes. Participou de discos fundamentais da nossa música como Jóia, de Caetano Veloso, e Contrastes, de Jards Macalé. Gravado por Elizeth Cardoso e Paulo Moura, dentre outros, possui Capinam, Tom Zé, Abel Silva e Renato Teixeira como parceiros.

Em Gereba convida, o compositor dialoga musicalmente com o que a canção brasileira produziu de mais moderno e sofisticado em termos de interpretação: Cássia Eller, Cida Moreira, Na Ozzetti e Tetê Espíndola, dentre outros. Essa trajetória artística atesta o diálogo estético que Gereba engendra - há mais de 30 anos - entre a antena pop e global e a sua pujante raiz histórica e cultural.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

do blog de Saramago em 8 de Abril

.
.
Ler

Isto a que chamam o meu estilo assenta na grande admiração e respeito que tenho pela língua que foi falada em Portugal nos séculos XVI e XVII. Abrimos os Sermões do Padre António Vieira e verificamos que há em tudo o que escreveu uma língua cheia de sabor e de ritmo, como se isso não fosse exterior à língua, mas lhe fosse intrínseco.

Nós não sabemos ao certo como se falava na época, mas sabemos como se escrevia. A língua então era um fluxo ininterrupto. Admitindo que possamos compará-la a um rio, sentimos que é como uma grande massa de água que desliza com peso, com brilho, com ritmo, mesmo que, por vezes, o seu curso seja interrompido por cataratas.

Chegam dias de férias, uma boa ocasião para entrar nesta água, nesta língua escrita pelo Padre Vieira. Não aconselho nada a ninguém, mas digo que vou mergulhar na melhor prosa e vou desaparecer estes dias. Alguém quer acompanhar-me?

quinta-feira, 26 de março de 2009

"Minha música não quer pouco"




A Revista Suite Rio n 9 publicou uma entrevista que fiz, em 2005, com a cantora e compositora Adriana Calcanhotto. A seguir, 3 dentre as perguntas e respostas dessa entrevista.

NG – O diálogo entre múltiplos campos da arte é audível em seu trabalho. Principalmente com o artista plástico Hélio Oiticica e com poetas de diferentes contextos e estéticas, como: Antonio Cicero (“Água Perrier”, “Inverno”, “Pelos ares”), Waly Salomão (“A fábrica do poema”, “Remix século XX”), Mário de Sá-Carneiro (“O outro”) e, dentre outros, Ferreira Gullar (“O ronrom do gatinho” e “Dono do pedaço”). Gostaria que comentasse a sua relação com as outras artes, a poesia, os seus parceiros.

AC: Sempre tive dificuldades para respeitar as fronteiras entre as linguagens, nunca achei que isso funcionasse ou mesmo existisse na prática. Sou sinestésica e acredito que todo artista, em maior ou menor medida, também o é. Gosto de me deixar impactar por autores e inventores de qualquer linguagem e me deixo permear por eles quase como um exercício de aprendizagem, de humildade e de poesia.

NG – Numa sacada genial, você relaciona a passagem do tempo à perda das certezas. E os ganhos? Haveria algum em amadurecer?

AC: Amadurecer é ganhar. Perde-se a juventude, as certezas vão-se embora, mas ganha-se experiência, rugas, peso e alguma autoridade. Hoje em dia, quando alguém me pede algo que considero chato ou absurdo eu digo – não posso fazer isso, sou uma senhora – e ninguém ousa retrucar, rs,rs.

NG – Quais cores e imagens você usaria para pintar um painel do seu tempo?

AC: Acho que pintaria um painel como um borrão de algo que passou em alta velocidade, e usaria todas as cores. O tempo em que vivemos parece ser o mais veloz que consegue ser e mesmo assim anseia por mais rapidez. Eu gosto dessa idéia, mesmo com seus exageros e com o nível de superficialidade que parece predominar; prefiro o privilégio de viver em um tempo assim do que num tempo de marasmo.

Minha música não quer pouco

Na revista Suite Rio n 9 há uma entrevista que fiz com a cantora e compositora Adriana Calcanhoto em 2005. A seguir, 3 respostas

quinta-feira, 19 de março de 2009

Ana C na semana da poesia



A história está completa:
Minha boca também
está seca
deste ar seco do planalto
bebemos litros d'água
Brasília está tombada
iluminada
como o mundo real
pouso a mão no teu peito
mapa de navegação
desta varanda
hoje sou eu que
estou te livrando
da verdade

segunda-feira, 16 de março de 2009

O amor desnudo

...o amor cantado por Drummond... não será aquele feito sob os lençóis macios do amor tradicional... Trata-se do quinto grau do amor, aquele que representa a sua mais elevada forma, segundo a tradição hinduísta. O amor clandestino. Apaixonado e ilícito. Esse amor transgressor teria o poder de intensificar em um devoto, pelo seu caráter arrebatador, o conhecimento da própria identidade com o Ser dos seres e com o mundo.

Adriano Espínola

Drummond na semana da poesia

Quarto em desordem

Na curva perigosa dos cinqüenta
derrapei neste amor. Que dor! que pétala
sensível e secreta me atormenta
e me provoca à síntese da flor

que não sabe como é feita: amor
na quinta-essência da palavra, e mudo
de natural silêncio já não cabe
em tanto gesto de colher e amar

a nuvem que de ambígua se dilui
nesse objeto mais vago do que nuvem
e mais indefeso, corpo! Corpo, corpo, corpo

verdade tão final, sede tão vária
e esse cavalo solto pela cama
a passear o peito de quem ama.

sábado, 14 de março de 2009

Hoje é o dia da Poesia


Surto com rajadas de água lusa

Título recortado com letras de caixas de remédios, Saga Lusa, de Adriana Calcanhoto, é um livro extremamente corajoso. Texto testemunho, o livro narra um surto psicótico da cantora e compositora, e tem tudo a ver com o contexto bélico e de superfície no qual vivemos.
.
Neste contexto, a memória e o referente ganham uma importância antes creditada apenas ao imaginário. Repleto de referências existenciais, o texto da autora recicla informações artísticas e culturais e brinca consigo neste grau:

“Minha mãe sempre me disse que um dia eu ia escrever um livro, gozado. A gente se esforça, batalha, luta, faz psicanálise, vai ao teatro, tudo, pra se constituir, pra ter recorte. Aí, na primeira surtadinha faz o quê? O que mamãe queria. Não sei não, achei meio caído.”

“To surtada, não surda” é um “capítulo” que dá o tom deste texto onde “curvas enganam o olhar”. O livro de Adriana é um prato cheio para psicólogos, psiquiatras, educadores e afins. Nele, a cantora narra como, através da escrita, encarou a Coisa (“ela ruge na tua cara”) durante a excursão do seu cd Maré por Portugal, “cara a cara com a multidão e seu deserto”. No seu “rito de passagem”, Adriana pede socorros a analistas e psiquiatras, cancela shows, visita hospitais. Pira com lucidez e roteiros de Suely – a produtora acesa de todas as horas.

A autora transita por uma zona limite perigosa, onde a maioria evita ir, embora um número cada vez maior de contemporâneos tenha ido (sem assumir que foi). Neste trânsito entre as imagens criadas pelas pílulas e as cenas ao seu redor, ela contata uma dimensão antes relacionada à loucura, e hoje cada vez mais administrada no meio social, através de pílulas e da criação de siglas como TOC e outros transtornos mentais.

Como nas canções, a escrita de AC possui humor – ingrediente raro em nossas letras geralmente comprometidas em representar algum tipo de “real”. Saga Lusa faz rir, sentir prazer, pensar: “O que não pode é panicar, descontrole cognitivo, essas baixarias”. O livro é um recorte da subjetividade aflita e fragmentada que circula por cenários bélicos pós 11 de setembro. Diz muito da nossa condição doída, mas sem drama, encarando a Coisa: “Me erra, Coisa. Vai, sai, que este corpo não é teu.”

quinta-feira, 12 de março de 2009

Auschwitz, Analfabetismo, Amor




Analfabetismo, Amor, Auschwitz. Não necessariamente nessa ordem, são esses os ingredientes do filme O leitor. Stephen Daldry, o diretor, demonstra habilidade no diálogo entre letras e telas desde As Horas, onde narra a vida da escritora Virgínia Woolf.

Baseado num livro do escritor alemão Bernhard Schlink, O leitor é uma história carregada de dois ingredintes produtivos e perigosos: poesia e erotismo. A narrativa de Schlink é escrita numa linguagem clara e direta, numa forma linear, às vezes meio previsível. Mas a história não é nada previsível. Um garoto de 15 anos conhece farpas e mel - do amor e dos fatos - ao envolver-se com uma mulher de 36. Ela, uma ex-vigilante que encaminhava judeus para as câmaras de gás nos campos de concentração nazistas; ele, um jovem (futuro estudante de Direito) que lê Homero, Rilke, Cicero e Horácio, vivendo numa família cercada de Letras (seu pai é professor de Filosofia e sua irmã estuda Literatura).
.
A ficção de Schlink se desenvolve numa Alemanha pós-guerra, cujo contexto traduz-se, no filme, em cores sóbrias que sugerem imagens trágicas. Entre os dois amantes rola sexo, leituras e "batalha verbal". Hanna doa para o seu amado -"menino" dois elementos raros na juventude: segurança e decisão. Em troca, Michael lê em voz alta - atendendo aos pedidos da funcionária do bonde - e submete-se às ciladas da "maturidade" feminina. As brigas e os descompassos produzem mais intimidades. Cenas de sangue e poesia se alternam e aproximam o casal que grita de prazer enquanto trepa.

Sem efeitos grandiloquentes nem ritmos alucinantes, O leitor cria ritmos. É aquele tipo de filme que afeta a respiração de quem vê. Isso, por um motivo atroz: aquele que narra e lê - belo, resignado, cheio de memórias - mostra que a verdade e a lei, em alguns contextos, são coisas bem distintas.