e todo caminho deu no mar
"lâmpada para os meus pés é a tua palavra"
terça-feira, 30 de setembro de 2014
"aparelho excretor"
A linguagem é o homem ou Levy "bem longe daqui"
Homofobia matou ao menos 216 gays em 2014
O Globo, Rio, 30 de Setembro de 2014
sábado, 20 de setembro de 2014
quinta-feira, 4 de setembro de 2014
eleições III
Todo mundo sabe que a igreja
morre de medo do corpo.
No passado ela proibiu
até o riso.
até o riso.
.
Noninha do Açu
O RJ TV de hoje abriu com uma notícia recorrente: jovem de 27 anos saiu de casa, há dois dias, para fazer aborto, e não retornou. Como esta garota, mais de um milhão de mulheres morrem a cada ano no Brasil. A Fifa pune o Grêmio por mais um caso de racismo. Além da moça que não voltou do aborto e do jogador negro chamado de macaco, mais um homossexual é espancado no Rio. A polícia chegou depois. A cada 24 hs morre 1 gay no Brasil, ok pastor Crivela?
Enquanto isso, os três candidatos posicionados nas pesquisas para presidente - Dilma, Marina e Aércio - respondem às questões acerca do aborto, do racismo e do homossexualismo, com discursos ficcionalizados, distantes do nosso contexto social e cultural. Eles nos tornam reféns. Reféns das facções religiosas que obrigam os candidatos a agirem desta maneira, em prol de uma moral que exclui e mata em nome dos valores da família, ok irmão Garotinho?
Com exceção de Eduardo Jorge e Luciana Genro, nossos candidatos encenam. Principalmente Marina Silva, cuja candidatura anuncia a mudança. Mudança que começa pela perda dos prazos para a inscrição da Rede, e por ter voltado atrás na questão da homofobia? Até quando o aborto, racismo, homossexualismo e a maconha vão ser jogados para debaixo do tepete, enquanto os números anunciam sermos um dos países mais violentos do mundo, hein papa Francisco?
terça-feira, 19 de agosto de 2014
thânatus, dá um tempo
noite
caos
nada
Não apenas no Oriente, mas aqui pelas terras
americanas de Pero Vaz sem Caminhos ficou mais difícil de respirar neste último
bimestre. No universo da cultura, os últimos dias foram marcados pela presença excessiva
da deusa Perséfone, e o seu imaginário repleto de cortes e pedras que respiram
sem prazos. O rigor da morte. Perséfone e suas máscaras aniquilam. Sua lição ensina nada sermos.
As máscaras da cultura exigem rigor perante este nada.
Caos com rigor? Fernando Pessoa diz que somos contos contando contos. Hoje, nem
isso, epitáfio. Epitáfio em pedra. Mine poema elegíaco. Uma nênia daquelas que
tratam de assuntos tristes, quase sempre a morte, como na Primeira lição no
manual dos gêneros literários. A poesia salva porque recolhe os fragmentos, disse o poeta.
Ariano Suassuna, escritor
Eduardo Campos, político
Ivan Junqueira, poeta
João Ubaldo, escritor
Lauren Bacall, atriz
Nicolau Sevcenko, professor e ensaísta
Robin Williams, ator
Vange Leonel, cantor
e
73 policiais mortos no Rio em 2014
esta tão
dura morte é ainda o
resto da minha alegria
Walter Hugo Mãe, “Poemas”
segunda-feira, 11 de agosto de 2014
Robin
oh captain, my captain
O irreverente professor John Keating, do filme Sociedade dos poetas mortos, gosta dos universos do magistério e da literatura. Em suas aulas no internato ele cita, dentre outros, Shakespeare e Walt Whitman. No ocidente, o filme de Peter Weir marcou fortemente o imaginário juvenil, e inspirou gerações de professores que começaram a lecionar na década de 80.
quinta-feira, 24 de julho de 2014
Poética sertaneja
O texto a seguir foi escrito pelo poeta Carlos Magno Fernandes, professor da UFPB,.e publicado no blog Caminhos Cruzados: www.palavora.blogstop.com
Poeta e professor, Nonato Gurgel acaba de lançar seu primeiro livro de
poemas, intitulado miniSertão (Ed. Caetés, Rio de Janeiro, 2014).
Trata-se, sem sombra de dúvidas, de uma poesia refinada e concisa, inspirada
sobretudo por suas andanças pelo sertão do Rio Grande do Norte, onde trabalhou
com extensão rural no interior do estado e colocou em prática o humanismo
defendido por Paulo Freire em Extensão ou Comunicação?, e por suas
incansáveis leituras (em uma das inúmeras epígrafes utilizadas pelo autor,
podemos perceber: "Os livros são nossa perdição. Os livros deram-me mais
que as pessoas", Marina Tsvetáieva, Vivendo sob o fogo).
Nessa perspectiva, o autor convocou um paideuma heterogêneo e
extenso para compor sua obra. Em epígrafes, citações nos próprios poemas ou
ainda em introdução às partes do livro, aparecem trechos de Paul Valéry, Walter
Benjamin, José de Alencar, Oswaldo Lamartine, Ricardo Piglia, Jorge Fernandes,
Pero Vaz de Caminha, Guimarães Rosa, Machado de Assis, Graciliano Ramos,
Euclides da Cunha, Câmara Cascudo, Davi Arrigucci Jr., Clarice
Lispector, Paulo Ronai, Manuel Cravino, Charles Baudelaire, Ana
Cristina Cesar, Roland Barthes, Italo Calvino, Cesar Aira, Eli Celso, Elizabeth
Bishop, Veríssimo de Melo, Haroldo de Campos, Fernando Fiorese, Marina Tsvetáieva,
Mateus (Bíblia), Mário de Andrade, Gilles Deleuze, Carlos Drummond de Andrade e
Marco Antônio Saraiva.
Diante dessa tradição literária eclética, Nonato Gurgel percorre o
sertão de sua memória com segurança e desenvoltura, através de procedimentos
poéticos da contemporaneidade: a citação, a intertextualidade, o lúdico, a
concisão. É uma viagem a que o poeta nos convida enquanto leitores: um percurso
pelo sertão munidos com a bagagem dos ensinamentos dos autores de sua
predileção. Livro maduro, como uma fruta madura colhida na planta sertaneja!
O olho não se sacia
Haroldo de Campos, Qohélet-Eclesiastes
Olho no cio das cores
lê a tarde tangendo o sol
leitor de íris e arcos
Dedos pelas teclas
agitados feito bicos
de aves ávidas
pelas letras
Nonato Gurgel, miniSertão, Rio de Janeiro, Ed. Caetés, 2014
domingo, 20 de julho de 2014
russo de roer
Foi só o tempo que errou.
Renato Russo
para os mestres Ilza Matias,
Luiz Alberto e Fernando Vieira,
gauches no país do magistério
Luiz Alberto e Fernando Vieira,
gauches no país do magistério
Dado à dor e à disciplina
à liberdade no confronto
entre a loucura e o amor
ele ouvia ecos bíblicos à liberdade no confronto
entre a loucura e o amor
tinha mania de eleger
era máquina de optar
Destemido quanto à língua
e o pau pra fora no palco viveu a vertigem de ser
livre gauche incendiado
do afeto perdeu os prazos
luz e cinzas sobre o Rio é
Preveu o só o caos tocou
fogo nos mitos bebeu
o mar aberto a tempestade
o que vem é perfeição
minha laranjeira verdefogo nos mitos bebeu
o mar aberto a tempestade
o que vem é perfeição
animal que lodo sou
Fênix que ao voar devora
o tempo e trilha sonora é
do Brasil redemocratizado
releu ruínas sacras e cinzas
o livro dos dias e o sopro
do dragão na ceia dos sonhos
Natal/Rio, 20 de julho de 2014
sábado, 19 de julho de 2014
quinta-feira, 17 de julho de 2014
sertão de mitos e afetos
Tribuna do Norte, 17 de Julho de 2014
Yuno Silva
repórter
“O ‘miniSertão’ dialoga com o ‘Grande Sertão: Veredas’ de Guimarães Rosa. Ele, Euclides da Cunha e Graciliano Ramos são os patronos deste livro”, resume o poeta Nonato Gurgel, que coleciona versos há três décadas e enxerga a compilação como “uma declaração de amor ao Sertão, o sertão literário de Oswaldo Lamartine”. Potiguar de Caraúbas radicado há 16 anos no Rio de Janeiro, onde é professor de Teoria da Literatura na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Gurgel está de passagem por Natal para participar como convidado de uma banca de Doutorado, e aproveita a ocasião para apresentar sua cria nesta quinta-feira, às 15h, no Departamento de Letras da UFRN/CCHLA.
repórter
“O ‘miniSertão’ dialoga com o ‘Grande Sertão: Veredas’ de Guimarães Rosa. Ele, Euclides da Cunha e Graciliano Ramos são os patronos deste livro”, resume o poeta Nonato Gurgel, que coleciona versos há três décadas e enxerga a compilação como “uma declaração de amor ao Sertão, o sertão literário de Oswaldo Lamartine”. Potiguar de Caraúbas radicado há 16 anos no Rio de Janeiro, onde é professor de Teoria da Literatura na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Gurgel está de passagem por Natal para participar como convidado de uma banca de Doutorado, e aproveita a ocasião para apresentar sua cria nesta quinta-feira, às 15h, no Departamento de Letras da UFRN/CCHLA.
Repleto de referências literárias e culturais, o livro traz epígrafes diluídas como se fossem pistas que revelam um pouco da personalidade do autor e sua relação com o universo literário, caso de “IV – Corpo que lê” (pág. 69) que traz citação da poetisa russa Marina Tsvetaeva (1894-1941): “Os livros são nossa perdição. Os livros deram-me mais que as pessoas”. Nonato faz uma releitura dos livros, mitos, lendas e geografia sertanejas, e apresenta uma paisagem livre das abstrações místicas e ideológicas: “Meu Sertão é terreno, pé no chão, e inspirado por Oswaldo Lamartine (1919-2007) tive a ousadia de misturar literatura com Agronomia”, disse o autor, ex-servidor da Emater.
Apesar de impregnadas pela atmosfera do Sertão do Seridó, as poesias de Nonato não se enquadram no que costumam chamar de ‘leitura regional’. “É um livro de memórias, das andanças pelo Seridó, Rio de Janeiro e sertão mineiro, com uma vereda universal, cosmopolita”, analisa o autor, confessando que demorou a aceitar que o Sertão era o grande personagem do livro. “Sem ele (o Sertão) não haveria nada a publicar”.
Escritor de ritmo lento, é nítido o cuidado com que cada palavra, cada frase e cada verso se interligam, como em uma colcha de retalhos tecida infinitamente. “Acho que vou passar a vida (re)escrevendo esse livro, penso em uma segunda edição com pelo menos 20 alterações. Não penso em outro livro por enquanto, e sim em continuar lapidando este”.
Para Nonato Gurgel, “miniSertão” funciona como o trailer de um filme que traz as várias fases de sua vida, suas leituras e suas influências culturais, tanto que o prefácio é substituído pela ‘voz’ do poeta Jorge Fernandes (1887-1953): em uma carta para Câmara Cascudo (1898-1986) o modernista escreveu “ande vire”, como uma sugestão para o leitor seguir em frente.
Gurgel trabalha a tanto tempo no projeto que a primeira ‘boneca’ do livro mereceu comentário do jurista, professor e pesquisador Veríssimo de Melo (1921-1996), em artigo publicado nesta TRIBUNA DO NORTE em dezembro de 1993. É dele o trecho a seguir que acabou na contra-capa do livro: “Poesia de primeira água. Excelente por todos os títulos... Há miniaturas de Nonato que são magníficas da paisagem nordestina... A luz que ilumina a maioria dos seus versos anuncia uma visão nova das coisas e do mundo”.
No poema a seguir, o autor relembra a visita que fez a Cascudo
Natal,
Av. Junqueira Aires
A vereda em vez do elevador
Câmara Cascudo
Para Aluísio Barros que foi comigo
Ouvimos na chegada
sou mouco vejam bem
não façam perguntas
Paredes assinadas
e livros do chão até
o teto do homem
que leciona sertão:
“você tem o direito
de subir a montanha
pela vereda que escolheu”
A vereda em vez do elevador
Câmara Cascudo
Para Aluísio Barros que foi comigo
Ouvimos na chegada
sou mouco vejam bem
não façam perguntas
Paredes assinadas
e livros do chão até
o teto do homem
que leciona sertão:
“você tem o direito
de subir a montanha
pela vereda que escolheu”
segunda-feira, 14 de julho de 2014
uma dose de João
O amor, como a democracia, dá muito trabalho.
Ambos exigem muito investimento, principalmente
de caráter e afetivo.
de caráter e afetivo.
João Antonio
Com trânsito bastante produtivo nos universos da
literatura e do jornalismo, João Antonio assumia ser o tipo de escritor atraído pela vida e pelas formas que vingam às margens da sociedade brasileira. Ele preferia escrever sobre coisas experimentadas,
situações vividas no corpo e na fala. Repórter de ícones importantes da mídia na década de 70, como a revista Realidade e jornal O pasquim, ele
atravessou grande parte do Brasil urbano e rural, e parecia fascinado pelas coisas
da cultura popular.
Alguns dos seus personagens exemplificam aquele
narrador clássico, de quem nos fala Walter Benjamin, um narrador calcado na
oralidade, conectado com a fala cotidiana e seus desvios. Como sabemos, este tipo de narrador recorre
ao seu “acervo” de experiências próprias e alheias, a fim de inscrever a sua
aprendizagem, os seus deslocamentos. Ele tem uma norma de vida que deseja repassar, ao vivo, na cara do freguês, como ensina a lição do
crítico alemão, a partir da leitura que ele faz do russo Leskov e seus personagens agrários.
Esta narrativa que testemunha a
experiência vivida e a memória - como lemos no texto de João “Corpo-a-corpo com a vida” -
possui uma linhagem vigorosa em nossa literatura. A essa linhagem filiam-se
autores da maior importância, como Graciliano Ramos e Lima Barreto. No século
XX, estes autores são parâmetros estéticos e culturais para a abordagem
temática do cotidiano das camadas populares, e das linguagens produzidas pelas diferentes culturas brasileiras. Assim como João, os dois autores modernistas não
enfeitam. Eles detestam a gordura literária; leia-se: eles deletam o excesso, a
grandiloqüência.
sem cânone nem leitor
Influenciado pelo cinema de Glauber Rocha e pela
literatura moderna, João Antonio considerava Lima Barreto o “maior romancista” da
chamada República Velha, sendo Afonso Henriques de Lima Barreto o primeiro
nome que aparece na dedicatória de Malagueta, Perus e Bacanaço. Por isso, ressalto a leitura de Antônio Arnoni Prado, ao reconhecer a filiação tonal
da narrativa de João Antônio à escrita de Lima Barreto; isso se
pensarmos em questões como ética, forma social e estética. Questões sugeridas nos
contos de Malagueta, Perus e Bacanaço (1963), sucesso de crítica que
resultou em dois prêmios Jabuti (revelação de autor e melhor livro de
contos).
Nas relações traçadas entre as ações dos personagens de João Antonio e suas falas, o texto escrito e o contexto social dialogam de forma determinante para a produção das linguagens que o autor constrói. Essa construção leva em conta a oralidade da tribo na qual ele age, e a visibilidade cortante que perpassa a retina do seu cotidiano concreto e carnal feito de sinucas, garrafas, tampas caídas, cafua, barrigas famintas, lutas, animais, jogos da rua...
Nas relações traçadas entre as ações dos personagens de João Antonio e suas falas, o texto escrito e o contexto social dialogam de forma determinante para a produção das linguagens que o autor constrói. Essa construção leva em conta a oralidade da tribo na qual ele age, e a visibilidade cortante que perpassa a retina do seu cotidiano concreto e carnal feito de sinucas, garrafas, tampas caídas, cafua, barrigas famintas, lutas, animais, jogos da rua...
Apenas um seleto grupo de leitores conhece a obra de
João Antonio. O autor de Malhação do Judas Carioca é lido por poucos e
importantes nomes da crítica literária. Sua obra é ainda pouco estudada no
universo acadêmico onde merece, sem dúvida, maior divulgação. É urgente a
leitura deste autor não inscrito, premiado. Principalmente para os
alunos dos cursos de Letras. Talvez não seja uma leitura pela qual o leitor se apaixona de cara, como acontece com Fernando Pessoa, por exemplo. João dá trabalho. Muito trabalho. Como o amor e a democracia.
terça-feira, 8 de julho de 2014
Uma Arte
Elizabeth Bishop – trad. Paulo Henriques Brito
A arte de perder não é
nenhum mistério;
tantas coisas contém em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.
tantas coisas contém em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouco a cada dia. Aceite, austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subseqüente
da viagem não feita. Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe. Ah! e nem querolugares, nomes, a escala subseqüente
da viagem não feita. Nada disso é sério.
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas. E um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
- Mesmo perder você (a voz, o ar etéreo,
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério.
domingo, 6 de julho de 2014
copa violenta
Pancadas e quedas, sabemos, fazem parte do
espetáculo do futebol. Teatro movido por altos gráficos capitalistas e
discursos eufóricos ampliados por toda a mídia, o futebol está cada vez mais
agressivo. Nunca vi copa mais violenta. Copa violenta sob as bênçãos dos
árbitros indiferentes, burocráticos. É estranho não rolar sequer um cartão
amarelo neste lance do jogador colombiano com Neymar.
No gramado, assim como na vida, são muitas as
"pancadas": a vértebra partida do nosso craque, a mordida do vampiro uruguaio, a
euforia dos jogadores de Gana beijando grana. Além destas ações violentas, duas outras
"pancadas" deixam a copa mais triste: o baixo número de crianças
negras ou pardas entrando em campo com os jogadores, e vaias.
Ao contrário do que pregam os discursos
politicamente corretos, nas arquibancadas é pequeno o número de negros, assim como
são raras as crianças negras que entram em campo. Vaiar o hino de um país
adversário, como fizeram com o Chile, é covardia. Vaiar a presidenta, com
palavrões, também é covardia, além de parecer atitude antidemocrática de rico
mal educado.
Com ou sem Neymar, tendo a ter mais simpatia por
quem não vaia.
sábado, 5 de julho de 2014
Copa
Sim, dá para sonhar sem Neymar.
Agora que a semifinal se anuncia, na próxima terça-feira em BH, antecipo aqui as memórias de um torcedor que acredita no hexa. Um torcedor que confirma, maduro, o que todo brasileiro parece nascer sabendo: a identidade e o caráter de um país tem muito a ver com a forma como o seu povo joga, como se comporta em campo, como este povo atua em relação aos seus adversários.
Agora que a semifinal se anuncia, na próxima terça-feira em BH, antecipo aqui as memórias de um torcedor que acredita no hexa. Um torcedor que confirma, maduro, o que todo brasileiro parece nascer sabendo: a identidade e o caráter de um país tem muito a ver com a forma como o seu povo joga, como se comporta em campo, como este povo atua em relação aos seus adversários.
Narradores esportivos
Aprendiz de futebol, fui convertido nesta copa. Das copas que vi, esta é, sem dúvida, a que mais me
chama atenção. Não apenas pelo esporte, mas principalmente por ela acontecer
no Brasil. Como todos, tenho visto e ouvido bastante
sobre futebol. Sinto-me envolto numa teia narrativa que não cessa, e me acompanha no ap, na rua, no taxi, no elevador, na fila da padaria. Tá tudo dominado. Dominado pela euforia que o futubol esbanja e oferta a todo ser independente da sua origem, corte de cabelo ou destino.
Além da euforia dos torcedores, impressiona-me a atuação dos narradores esportivos e seus discursos edificantes. Como são afirmativos, animados, entoados os narradores esportivos. Como eles levam a sério a matéria de suas narrativas em datalhes que somente um bom narrador repete e repete e repete. Imagino o que poderia render, nos campos da educação e da saúde, por exemplo, se esta alta cota de afirmação e foco fosse injetada na porção política e no olhar social de cada um que torce.
Além da euforia dos torcedores, impressiona-me a atuação dos narradores esportivos e seus discursos edificantes. Como são afirmativos, animados, entoados os narradores esportivos. Como eles levam a sério a matéria de suas narrativas em datalhes que somente um bom narrador repete e repete e repete. Imagino o que poderia render, nos campos da educação e da saúde, por exemplo, se esta alta cota de afirmação e foco fosse injetada na porção política e no olhar social de cada um que torce.
Como muitos torcedores, detesto o autoritarismo de Dona Fifa. Ela nos deve. Deve, no mínimo, uma final mais decente do que aquela festa boba da abertura. Mas, além da
vitória na final, não espero grande coisa de um evento ritmado nos
saltitos de Shakira e Ivete. Torço para que a
cota de brasilidade que se anuncia esteja à altura do
que o país é em graça, beleza, em nossa afirmação multicultural da miscigenação. O Brasil perante o mundo "sob o timbre da mestiçagem" (Wisnik).
quinta-feira, 19 de junho de 2014
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