e todo caminho deu no mar

e todo caminho deu no mar
"lâmpada para os meus pés é a tua palavra"

sábado, 28 de janeiro de 2012

viagem como arte I



Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir


Manuel Bandeira, “Lua Nova” in Estrela da Vida Inteira

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Eli, foto e texto


                                       E queria dizer que algo se prepara,
                                       que a metamorfose
                                       ruge e fia
                                       que a metamorfose
                                       lã e zela.
                                       Faz cera e cala.
                                       Asa.
                                       Zera.


                                          Eli Celso, "Rua do Coração Perdido", 1999

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

bandeira do divino II


                                               Escandinávia - Foto de Fátima Jácome





Deus nos habita
Adélia Prado, Terra de Santa Cruz



de vez em quando Deus adora um pantim
Numa Ciro, ao vivo



Deus fez tudo num sopro só como quem faz um único verso
Jorge Mautner, “Aeroplano” in As mil e uma noites de Bagdá



Deus é hoje: seu reino já começou.
Clarice Lispector, Um sopro de vida




Deus se distraiu um pouco de nós, não do todo, e somos esse sonho que está vivendo sua própria vida.
Jorge Luis Borges, O Dicionário de Borges



Deus quer, o homem sonha, a obra nasce
Fernando Pessoa, Mensagem


sábado, 21 de janeiro de 2012

"conversa ribeira"


“A música segundo Tom Jobim” é um belo filme de Nelson Pereira dos Santos que declara o seu amor à Bossa Nova e à cidade do Rio de Janeiro.  

Na tela, a música de Tom parece uma longa sinfonia que o Brasil compôs para o mundo. Durante 90 minutos,  42 canções são interpretadas por Ella Fitzgerald, Silva Telles, Elizete Cardoso, Stan Getz, Diana Krall, Judy Garland, Elis Regina, Adriana Calcanhoto, Henri Salvador, Frank Sinatra e Sammy Davis Jr, dentre outros.

Documentário leve  e inventivo como a própria obra de Tom, mas com uma implacável ausência: a voz de João Gilberto. Tomara que o tom dessa "conversa ribeira" seja bisado no segundo filme que Nelson prepara sobre Tom.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

"peço que olhes por ela"

São Sebastião de Guido Reni


"... um jovem capitão da Guarda Pretoriana foi acusado e preso por ter adorado um deus proibido. Seu corpo maleável lembrava o de um famoso escravo do Oriente por quem o imperador Adriano se apaixonara, e seu olhar era tal qual o de um conspirador... Era de uma arrogância encantadora. ... A beleza que exibia Sebastião... não estaria destinada à morte?”
.
Yukio Mishima, Confissões de uma Máscara, inspirado no quadro São Sebastião, de Guido Reni

varão

I


Ó mártir de Cristo, ó santo varão
Livrai-nos da guerra, São Sebastião

(Hino de São Sebastião)



II
 
Itália
Antiguidade clássica
Por ser cristão, um jovem oficial é perseguido
Ele é envolvido numa trama que mexe com o império romano


Corpo
Sangue
Flechas


Flechas de Sebastião e sua sangria atravessam séculos inspirando livros filmes pinturas canções esculturas promessas procissões


III

As formas suaves de Sebastião despertam sentimentos dúbios. Seu martírio desconcerta. Principalmente por causa das imagens ambíguas que misturam corpo e flecha, sedução e dor, juventude e morte.


Ele é Oxóssi nos cultos afros, e divide com Nossa Senhora da Conceição o patronato da Portela. Sebastião é padroeiro dos soldados, dos gays e marginalizados em geral.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

cadernos de viagem





I

a educação pela máquina

tanta tinta, tanto sangue, meu deus
e a gente nem ligou a impressora



II

assovio no vento escuro

o som liso

anuncia
algo tátil

acende
lareira
pau e pique



III

narrativa hídrica

o riachinho narra no mesmo tom
uma historinha irrepetível
para as mesmas margens


quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

o cara

Peguei a cachaça de correr.

Dou mamadeira, arrumo cama e também lavo cueca. Porque cueca não se bota para lavar, se lava.

O que a gente tem de deixar... é um rastro.


José Mariano Beltrame (Secretário de Segurança do Rio), Alfa, Dezembro 2011

sábado, 7 de janeiro de 2012

o evangelho segundo César Aira I



O rosto tinha se imposto a tudo, ainda mais do que a palavra.

Um acontecimento na vida de um pintor viajante



...a vida rural tinge-se de um melancólico fatalismo oriental.

Pequeno Manual de Procedimentos



... divide e reinarás...

“Mil gotas” in A literatura latino-americana do século XXI

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

o evangelho segundo César Aira II


...todo realismo é oportunista.

Diálogos oblíquos (entrevistas a Bellla Josef)



... a imaginação só pode operar a partir da composição de elementos fornecidos pela realidade ...

 A trombeta de vime



A arte está sempre buscando o novo e o novo acabou se identificando com o diferente.

As noites de flores

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

o evangelho segundo César Aira III



No princípio está a renúncia. Dela nasce tudo o que podemos amar em nosso ofício...

Pequeno Manual de Procedimentos



... de novo com perfeita energia? E recomeçar era a tarefa mais repetida do mundo. Com efeito...

Um acontecimento na vida de um pintor viajante



O antigo resiste a morrer: fulmina-o o raio do inesperado, burlando suas mais sutis precauções, uma legião.

Pequeno Manual de Procedimentos


terça-feira, 3 de janeiro de 2012

dossiê de formas para Perseu

I



E sem dar uma forma, nada me existe. ...

Uma forma contorna o caos, uma forma dá construção à substância amorfa...



Clarice Lispector, A Paixão Segundo G.H.





II



E a forma? Coisas da vida!

Vinde a mim, geometrias, figuras perfeitas, - Platão, abri o curral de arquétipos e protótipos...



Leminski, Catatau





III



Em Platão, a forma é esse saber que preenche o ser.



Lacan, O Seminário – Livro 20 mais, ainda





IV



A forma custa caro.



Valéry





V



Eu devo experimentar a forma como minha relação axiológica ativa com o conteúdo... é na forma e pela forma que eu canto, narro, represento, por meio da forma eu expresso meu amor, minha certeza, minha adesão.



Bakhtin, Questões de Literatura e de Estética


sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Adélia Prado


Perdi o medo de mim. Adeus.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Leitura das férias I



Dentre várias outras coisas, o bom das férias é a liberdade para ler. Ler o que quiser. Ler sem a preocupação com os planos de aulas nem com as ementas dos cursos que roteirizam a vida do professor.



Nunca tinha ouvido falar de Buell Quain – o etnólogo americano que tinha fascínio por ilhas e viagens. Gostava de escrever cartas e adormecer embalado por histórias. Cientista suicida que bebia e fumava, fazendo do próprio corpo um laboratório. Um homem silencioso que carregava segredos e “arrastava alguém no seu rastro”.



Lendo “Nove noites”, o premiado romance do Bernardo Carvalho, descobri este viajante que viveu entre os índios krahô. Ele morou numa pensão da Lapa, no Rio, e suicidou-se aos 27 anos em Carolina – uma cidadezinha morta no interior de Goiás. Cheia de mistérios, sua morte envolve problemas com afeto, dinheiro e família. Não necessariamente nesta ordem.



Criado em torno de cartas, entrevistas, fotos e relatos, este belo romance é baseado em fatos reais, mas inscreve uma forma contemporânea repleta de “memória e imaginação”.  O autor tematiza tempos modernos: o Brasil na era Vargas; os costumes e o desmatamento da selva; os roteiros de Rondon e dos irmãos Villa Boas;  o encontro de Buell Quain com Lévi-Strauss, em Cuiabá; e até a queda das torres americanas no 11 de setembro...



Sem nenhum desejo de ser governado pelos mortos, o narrador de “Nove noites” ouve os vivos que é uma beleza. Com a fome de quem atravessa o sertão e necessita de um rosto real, ele sabe que “a realidade é o que se compartilha”.