e todo caminho deu no mar

e todo caminho deu no mar
"lâmpada para os meus pés é a tua palavra"

sábado, 21 de janeiro de 2012

"conversa ribeira"


“A música segundo Tom Jobim” é um belo filme de Nelson Pereira dos Santos que declara o seu amor à Bossa Nova e à cidade do Rio de Janeiro.  

Na tela, a música de Tom parece uma longa sinfonia que o Brasil compôs para o mundo. Durante 90 minutos,  42 canções são interpretadas por Ella Fitzgerald, Silva Telles, Elizete Cardoso, Stan Getz, Diana Krall, Judy Garland, Elis Regina, Adriana Calcanhoto, Henri Salvador, Frank Sinatra e Sammy Davis Jr, dentre outros.

Documentário leve  e inventivo como a própria obra de Tom, mas com uma implacável ausência: a voz de João Gilberto. Tomara que o tom dessa "conversa ribeira" seja bisado no segundo filme que Nelson prepara sobre Tom.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

"peço que olhes por ela"

São Sebastião de Guido Reni


"... um jovem capitão da Guarda Pretoriana foi acusado e preso por ter adorado um deus proibido. Seu corpo maleável lembrava o de um famoso escravo do Oriente por quem o imperador Adriano se apaixonara, e seu olhar era tal qual o de um conspirador... Era de uma arrogância encantadora. ... A beleza que exibia Sebastião... não estaria destinada à morte?”
.
Yukio Mishima, Confissões de uma Máscara, inspirado no quadro São Sebastião, de Guido Reni

varão

I


Ó mártir de Cristo, ó santo varão
Livrai-nos da guerra, São Sebastião

(Hino de São Sebastião)



II
 
Itália
Antiguidade clássica
Por ser cristão, um jovem oficial é perseguido
Ele é envolvido numa trama que mexe com o império romano


Corpo
Sangue
Flechas


Flechas de Sebastião e sua sangria atravessam séculos inspirando livros filmes pinturas canções esculturas promessas procissões


III

As formas suaves de Sebastião despertam sentimentos dúbios. Seu martírio desconcerta. Principalmente por causa das imagens ambíguas que misturam corpo e flecha, sedução e dor, juventude e morte.


Ele é Oxóssi nos cultos afros, e divide com Nossa Senhora da Conceição o patronato da Portela. Sebastião é padroeiro dos soldados, dos gays e marginalizados em geral.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

cadernos de viagem





I

a educação pela máquina

tanta tinta, tanto sangue, meu deus
e a gente nem ligou a impressora



II

assovio no vento escuro

o som liso

anuncia
algo tátil

acende
lareira
pau e pique



III

narrativa hídrica

o riachinho narra no mesmo tom
uma historinha irrepetível
para as mesmas margens


quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

o cara

Peguei a cachaça de correr.

Dou mamadeira, arrumo cama e também lavo cueca. Porque cueca não se bota para lavar, se lava.

O que a gente tem de deixar... é um rastro.


José Mariano Beltrame (Secretário de Segurança do Rio), Alfa, Dezembro 2011

sábado, 7 de janeiro de 2012

o evangelho segundo César Aira I



O rosto tinha se imposto a tudo, ainda mais do que a palavra.

Um acontecimento na vida de um pintor viajante



...a vida rural tinge-se de um melancólico fatalismo oriental.

Pequeno Manual de Procedimentos



... divide e reinarás...

“Mil gotas” in A literatura latino-americana do século XXI

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

o evangelho segundo César Aira II


...todo realismo é oportunista.

Diálogos oblíquos (entrevistas a Bellla Josef)



... a imaginação só pode operar a partir da composição de elementos fornecidos pela realidade ...

 A trombeta de vime



A arte está sempre buscando o novo e o novo acabou se identificando com o diferente.

As noites de flores

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

o evangelho segundo César Aira III



No princípio está a renúncia. Dela nasce tudo o que podemos amar em nosso ofício...

Pequeno Manual de Procedimentos



... de novo com perfeita energia? E recomeçar era a tarefa mais repetida do mundo. Com efeito...

Um acontecimento na vida de um pintor viajante



O antigo resiste a morrer: fulmina-o o raio do inesperado, burlando suas mais sutis precauções, uma legião.

Pequeno Manual de Procedimentos


terça-feira, 3 de janeiro de 2012

dossiê de formas para Perseu

I



E sem dar uma forma, nada me existe. ...

Uma forma contorna o caos, uma forma dá construção à substância amorfa...



Clarice Lispector, A Paixão Segundo G.H.





II



E a forma? Coisas da vida!

Vinde a mim, geometrias, figuras perfeitas, - Platão, abri o curral de arquétipos e protótipos...



Leminski, Catatau





III



Em Platão, a forma é esse saber que preenche o ser.



Lacan, O Seminário – Livro 20 mais, ainda





IV



A forma custa caro.



Valéry





V



Eu devo experimentar a forma como minha relação axiológica ativa com o conteúdo... é na forma e pela forma que eu canto, narro, represento, por meio da forma eu expresso meu amor, minha certeza, minha adesão.



Bakhtin, Questões de Literatura e de Estética


sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Adélia Prado


Perdi o medo de mim. Adeus.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Leitura das férias I



Dentre várias outras coisas, o bom das férias é a liberdade para ler. Ler o que quiser. Ler sem a preocupação com os planos de aulas nem com as ementas dos cursos que roteirizam a vida do professor.



Nunca tinha ouvido falar de Buell Quain – o etnólogo americano que tinha fascínio por ilhas e viagens. Gostava de escrever cartas e adormecer embalado por histórias. Cientista suicida que bebia e fumava, fazendo do próprio corpo um laboratório. Um homem silencioso que carregava segredos e “arrastava alguém no seu rastro”.



Lendo “Nove noites”, o premiado romance do Bernardo Carvalho, descobri este viajante que viveu entre os índios krahô. Ele morou numa pensão da Lapa, no Rio, e suicidou-se aos 27 anos em Carolina – uma cidadezinha morta no interior de Goiás. Cheia de mistérios, sua morte envolve problemas com afeto, dinheiro e família. Não necessariamente nesta ordem.



Criado em torno de cartas, entrevistas, fotos e relatos, este belo romance é baseado em fatos reais, mas inscreve uma forma contemporânea repleta de “memória e imaginação”.  O autor tematiza tempos modernos: o Brasil na era Vargas; os costumes e o desmatamento da selva; os roteiros de Rondon e dos irmãos Villa Boas;  o encontro de Buell Quain com Lévi-Strauss, em Cuiabá; e até a queda das torres americanas no 11 de setembro...



Sem nenhum desejo de ser governado pelos mortos, o narrador de “Nove noites” ouve os vivos que é uma beleza. Com a fome de quem atravessa o sertão e necessita de um rosto real, ele sabe que “a realidade é o que se compartilha”.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Palavra poética, cor e história

 
Maria Aparecida Andrade Salgueiro*


 

Acaba de ser lançada, pela Editora da UFMG, "Literatura e Afro-descendência no Brasil: Antologia crítica".  Trabalho de fôlego, reúne em quatro volumes, resultado de pesquisa liderada ao longo de mais de dez anos pelo Professor Eduardo de Assis Duarte, daquela Universidade. Fruto da colaboração de 61 pesquisadores de 21 universidades brasileiras e 06 estrangeiras, tendo contado com o apoio de órgãos de fomento, diferentes instituições e inúmeros cidadãos e estudantes da UFMG, a obra necessariamente conduz a novas formas de pensar a Literatura Brasileira.



Lançando foco sobre 100 escritores afro-descendentes, vindos de tempos e espaços diversos, através de ensaios e referências biográficas e bibliográficas sobre cada um deles, dos tempos coloniais até os dias de hoje, a coletânea procura organizar a ainda dispersa reflexão acadêmica atual sobre o tema, num percurso histórico que vai de clássicos (Machado de Assis, Lima Barreto, Cruz e Sousa) a contemporâneos (Nei Lopes, Paulo Lins, Ana Maria Gonçalves), passando por nomes importantes ‘esquecidos’ (Maria Firmina dos Reis, José do Nascimento Moraes). A Antologia deixa claro que seu real objetivo é “mostrar que existe uma produção literária importante que caminha na contracorrente das normas ainda vigentes no circuito literário”. Buscando mapear e conceituar, a Antologia “inclui escritos daqueles que mesmo não assumindo explicitamente um projeto literário afro-brasileiro (termo e conceituação contemporâneos), apresentam traços discursivos que os situam, em muitos momentos, numa órbita de valores socioculturais distintos dos abraçados pelas elites brancas. E que, de uma forma ou de outra, expressam tais valores, transformando-os em linguagem literária”.



Nesse sentido a obra se insere em categoria relevante dos Estudos Literários na contemporaneidade – a do resgate. Resgate de obras que, nas palavras da autora afro-americana Alice Walker, “por instintos contrários”, ou por questões múltiplas de relações de poder e hegemonia acabaram, como tantas outras, ‘perdidas’ ou ‘esquecidas’, apesar de produção literária consistente e valorosa. Rotas que necessariamente avançam na contemporaneidade ao se discutir identidade e Literatura. Nessa ótica, o trabalho de pesquisa liderado pelo Professor Eduardo de Assis Duarte trilha caminhos próprios, porém, semelhantes àqueles que foram decisivos nos Estados Unidos, para o reconhecimento e a visibilidade da produção literária dos afro-descendentes, tal como o trabalho do renomado crítico afro-americano Henry Louis Gates, Jr., e seus estudos de arqueologia literária. Ligados a estudos pós-coloniais de Literatura, ao cruzar gênero e etnia, apresentou descobertas absolutamente impensáveis até anos atrás entre os autores literários, e que passaram, então, a embasar os currículos e redimensionaram os estudos da Literatura Estadunidense.



Assim, em época de revisões, quando as ações afirmativas estão em torno dos dez anos nas Universidades no Brasil, a “Antologia Crítica”, ao lançar um novo olhar sobre a Literatura Brasileira torna-se obra de referência e de encontro identitário para o amplo grupo de alunos afro-descendentes que ingressou na Universidade pelo sistema de cotas e que tem sido submetido a currículos fundamentalmente eurocêntricos. É obra que servirá como fonte de referência para aqueles que devem aplicar a Lei 10.639/2003 que estabelece que “nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares, torna-se obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileiras.”



Com metodologia rigorosa, liderança firme, metas claras e definidas, a obra constitui um marco, um ponto capital, e destaca-se no cenário da pesquisa propositiva em Letras em nosso país. Apresenta produto de trabalho sério e orgânico, organização, consistência e conteúdo crítico. Ao se impor o desafio de realizar pesquisa em todas as regiões do país (fato incomum na área, em geral voltada para aspectos pontuais) com vistas ao mapeamento (absolutamente inédito) e estudo da literatura produzida pelos afro-descendentes desde o período colonial, traz contribuição de peso para os estudos dessa literatura em nosso país, nos colocando, inclusive, em posição de destaque na Afro-América Latina.



Em brevíssimas linhas, um pouco da riqueza de cada um dos volumes. O Volume I – Precursores - parte do século XVIII e se dedica a 31 autores e autoras nascidos até 1930. Passando por clássicos como Machado de Assis, Lima Barreto e Cruz e Souza, chama a atenção também para escritores ‘esquecidos’ ou ‘pouco lembrados’ como o poeta do século XVIII, Domingos Caldas Barbosa, e os pioneiros de meados do século XIX, Luiz Gama e Maria Firmina dos Reis – autora de “Úrsula” (1859), o primeiro romance abolicionista do Brasil, cuja republicação em 2004, após mais de um século fora de circulação, vem contribuindo para a reescrita de nossa história literária. Chega ao século XX com Solano Trindade, Carolina Maria de Jesus e Abdias Nascimento, entre outros. O volume abre com denso ensaio introdutório - “Entre Orfeu e Exu, a Afrodescendência toma a palavra” - de autoria de seu Organizador, Eduardo de Assis Duarte, e nele são traçadas de forma assertiva os pressupostos da Antologia Crítica.



O Volume II – Consolidação – nos apresenta mais 30 autores e autoras nascidos nas décadas de 1930 e 1940, entre eles, os eminentes intelectuais afro-brasileiros, Joel Rufino dos Santos e Muniz Sodré, o poeta e romancista, Domício Proença Filho, membro da Academia Brasileira de Letras, e o compositor, escritor e pesquisador da cultura afro-brasileira Nei Lopes. Entre as mulheres, a poeta, contista, romancista e ensaísta, Conceição Evaristo. O título do volume marca época quando se consolida a existência de uma vertente afro na literatura brasileira.



O Volume III – Contemporaneidade – reúne 39 autores e autoras, nascidos na metade do século XX. Entre eles, o poeta e ficcionista Cuti; Marcio Barbosa e Esmeralda Ribeiro, mantenedores da decisiva série “Cadernos Negros”, publicação ativa desde 1978; Paulo Lins, autor de “Cidade de Deus”; Ana Maria Gonçalves, autora do romance histórico “Um defeito de cor”, vencedor do prestigiado prêmio Casa de las Américas. E ainda, Miriam Alves, Lia Vieira e, na nova geração, Cristiane Sobral, Cidinha da Silva e Allan da Rosa, entre outros, com temática predominante urbana e voltada para as populações marginalizadas nos grandes centros brasileiros.



O Volume IV – História, teoria, polêmica – co-organizado com Maria Nazareth Soares Fonseca, encerra a presente série e abre novas perspectivas de avanços e formulações. Estruturado a partir de diferentes visões e impressões da sociedade brasileira e da literatura produzida por escritores afro-descendentes, reúne depoimentos de escritores e intelectuais negros, reflexões sobre a produção literária e sobre o próprio conceito de literatura afro-brasileira, refletindo a multiplicidade e a diversidade características da contemporaneidade. Os textos críticos problematizam a questão e são assinados, entre outros, por Octávio Ianni e Silviano Santiago.



A obra terá lançamento nacional, em pelo menos seis capitais do Brasil e um lançamento oficial no Rio de Janeiro, no Teatro Machado de Assis da Biblioteca Nacional, com a presença de autores incluídos na Antologia e uma homenagem a Abdias Nascimento. É o início da visibilidade do que até então não era visível ou conhecido, almejada ao longo de todo o texto por seu Organizador.



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Maria Aparecida Andrade Salgueiro é Professora da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), Pesquisadora da FAPERJ e Visiting International Scholar do Dartmouth College, nos Estados Unidos.


quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Perseu

 
No Dicionário de Símbolos, o mito de Perseu ilustra a complexidade da relação pai-filho, filho-pai, existente em todo homem. Apesar de complexa, essa relação pode ser leve (com Perseu e Medusa, Calvino abre a proposta da Leveza em "Seis propostas para o próximo milênio").



Perseu não tem pai humano. Descende diretamente de Zeus. Esse mito alado me lembra um amigo que, como Perseu, nunca teve pai. Ele era pai do seu próprio pai. Até que esse pai do meu amigo morreu. E depois dessa morte o meu amigo continuou eternamente pai. Pai para toda obra.



Paternal e alado, Perseu corta a cabeça da Medusa (simbologia da culpa). Com esse corte, ele abole  a sua própria culpa. Poucos lembram que, depois da Medusa morta, nasce Pégaso - um cavalo cujo coice abre uma fonte (ok, mestre Yoda, eu falo a sua língua). "Coice que abre uma fonte" é um bom título.




Dizem que quem prova daquela fonte é possuído por uma sede infinda. Perseu mata a sede. É o mito que simboliza o ideal realizado. Mas não pensem que é fácil. Esse ideal tem preço. Ele é realizado ao preço de combates e escolhas. Difíceis combates e escolhas corajosas, engenhosas.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Nelson Freire amanhã no Rio



O músico mineiro apresenta, dentre outros, Schumann e Liszt no teatro municipal, às 17 h. De graça. No link abaixo, a uol disponibiliza 5 faixas do cd de 1980, gravado ao vivo neste mesmo teatro do Rio onde Nelson se apresenta neste domingo.


http://www.radio.uol.com.br/#/album/nelson-freire/ao-vivo-no-tatro-municipal-do-rio-de-janeiro/19687