e todo caminho deu no mar

e todo caminho deu no mar
"lâmpada para os meus pés é a tua palavra"

sábado, 6 de agosto de 2016

Carlos e Paulo

 
dita o deserto 
nada de ombros 
nem palavras 
por aqui


o que suporta o mundo 
é o riso o resto 
é repetição 
e espera

quarta-feira, 3 de agosto de 2016


Texto escrito p a contracapa do livro Poema / rio - Eli de Araujo. Natal,  Sol negro, 2016

 

A poética de Eli Celso pode ser lida como um mapa. Uma declaração de afeto ao espaço e suas mutações: “a metamorfose/ ruge e fia”. A fiação resulta numa cartografia labiríntica – múltiplos eus, formas e linguagens – que leciona os abismos da pele, estepes da alma e as derivas da “planície.../... os trens/ e suas linhas...”. O mapa arma “asas em casco”. Escala pegadas de multifacetados eus sem aura, ideologia ou carta náutica. Eus que celebram a alegria da carne letrada, a melancolia dos sorrisos de gesso e a felicidade aflita de quem foi nutrido na “ceia das cinzas”. Alguns deles carregam em seus rastros um lirismo irônico: “Ela me convidou a um pequeno apocalipse/ e atalhou caminho por mundos estranhíssimos”. Outros eus são bem humorados, alguns violentos, e tem aqueles que não abrem mão da audição dos mortos: “os clássicos cegam”. Outros sugerem, abismados, o ceticismo e a dicção metafísica deste poeta moderno que leu Borges e Cioran, e atravessou aceso a “rua do coração perdido”. As perdas e os atalhos deste mapa não desdenham temas nobres ou menores – do universo das pulgas ao virtual – num fio memorial que dá cria. Tocado pelo fogo poético, esse fio flagra o verbo pelas veredas do imaginário. Nessa ficcionalização de reminiscências, Eli relê o horizonte polifônico de mitos como Sísifo, Judas, Medusa, Quixote, Lilith, Argos e Fênix. Com trânsito pelas artes, ciências e religiões, o “canibal” atualiza, nas formas do vazio e da superfície do deserto, a urgência de lermos as cartografias contemporâneas.

 

 

terça-feira, 3 de maio de 2016

O planalto Nonada

 
Um 
rabisca 
o rio seco
e problemático
sem afluente
nem terceira margem
 
O outro 
entorna o rio
navega mares 
nada nas curvas 
de Diadorim
e do Buriti

domingo, 3 de abril de 2016

Perder




Poeta,
Perder é uma arte, uma lenha ou um tição no terreiro deserto?
Sei q morrer é foda, sumir é foda e foder tb é. 
Como ja morri, sumi e fodi varias vezes, to achando tudo muito foda:
até encarar a vida e o seu ofício, como reza a lição do Maiakóvski, lembra?
 


 
 
 

Sem trilho é Mon nom


Pára de pronunciar o meu nome com tanto ritmo, 
e de mexer no Arquivo dos Quatro Elementos.
A vida n comporta tanto silêncio e sonho. 
Assim, eu chovo, e a lama de Mariana continua impune.
Esse Bom dia - bem dito - formata outro horizonte. 
Nele germina o ser que caiu do trem em movimento, 
e procura, no lado esquerdo, a curva da estrada.

sábado, 2 de abril de 2016

Hóstia na sacristia



Tiro leite da pedra onde fundas tua igreja.
Dou voz a forma que vai sendo ditada
pelo desejo que dilata o dia

Quando a noite vem
eu chovo sobre a pedra
e, coração ateu, adio sermão

Encantador de Serpentes


Firme no mirante

dilata-se feito um rei


Nao se engasga diante

de nenhum horizonte


Primeiro Deus fez o pequi, depois o Barroco

 

 
Sobe a serra e o tom com a métrica de quem usa arma 
e brasão. Nao recua. Aprendeu, na lama e com o lamento 
do herói morto, que recuar é perder um pedaço da alma.
 
No mirante, dilata-se feito um rei que nao se engasga 
diante de nenhum horizonte. E aqui, neste recanto virtual 
de meu deus, ensina-me coisas terrenas como ratel, cobra naja, 
alfabetização solidária e arraia que mata sucuri com o ferrão...
 
É amigo que mune de humor, queijo suíço e poesia, 
quando a cidade exige signos que os sinais de transito 
sequer anunciam. Sua porção mandraque-seminarista
compra baton e escreve, escreve o sr esta preso.

terça-feira, 29 de março de 2016


O Chico Antônio de Mário de Andrade
 
Para o amigo e poeta Marcus Salgado

                                                                                     Jornal O Galo n 3, Natal, Março de 2016


Ao longe as dunas, o mar verde do Rio Grande do Norte
Mário de Andrade, Café

O coqueiro potiguar Chico Antônio é o personagem luzidio e sensual, inconsciente do seu valor cultural, em Café, último romance de Mário de Andrade

I – Romance “narrado” nas cartas

Quem lê ou estuda a cultura brasileira sabe que o escritor Mário de Andrade (1893 - 1945) adorava cartas. Passados mais de 70 anos da sua morte, sabemos que o escritor paulista – um dos principais inventores do nosso Modernismo – correspondeu-se com grande parte da intelectualidade brasileira, como atesta a publicação de sua correspondência com Carlos Drummond, Câmara Cascudo, Henriqueta Lisboa, Moacir Werneck de Castro, Fernando Sabino e Manuel Bandeira, dentre outros.

Numa carta a Manuel Bandeira em 1929, o autor paulista refere-se ao livro que seria o seu primeiro romance após a publicação de Macunaíma (1928). Diz Mário, nesta carta ao poeta pernambucano, estar escrevendo um “romance Café”, cujas páginas estão “cheias de psicologia e intensa vida”. Doze anos depois, o romance de “psicologia” e “vida” continua sendo “narrado” na correspondência. Numa carta a Moacir Werneck, em 1941, Mário escreve: “... Café ... tem um sentido mais viril e mais geral.”

Café é um livro cuja “virilidade” estetiza o contexto fascista dos anos 20 e 30, quando o país intensifica o projeto urbano-industrial, e inicia o declínio econômico do produto de exportação que intitula o romance. O Estado de SP é o espaço narrativo, sendo a cidade, a “Pauliceia Desvairada”, uma “personagem” relida com ironia e afeto. O autor critica a porção inculta da aristocracia ítalo-paulista, nas primeiras décadas do século XX, quando o centro de São Paulo ainda ostentava ares provincianos.

Trata de viagens, travessias e migrações o romance inacabado A pegada antropológica da narrativa e suas etnias deslocadas atualizam a ficção de Mário, e o seu desejo moderno de dar uma alma para o Brasil. Nas referências às culturas nordestinas e italianas, lemos o desconforto do nordestino na metrópole de múltiplas identidades culturais. Por terem “senso de sonho” e “a pecha de... brigões e instáveis” (p. 85), os nordestinos sofrem quando comparados aos italianos e suas conquistas materiais.

II – Potiguar é personagem principal

Café foi publicado em 2015, setenta anos após a morte do seu autor, pela pesquisadora Tatiana Figueiredo. Dividida em duas partes, a narrativa tem Chico Antônio (1904-1993) como personagem principal que atravessa a primeira parte. O homem que formata e viriliza o romance de Mário de Andrade nasceu em Pedro Velho, município situado no litoral do Rio Grande do Norte, cujo nome homenageia o médico potiguar que fundou o jornal A República, e foi o primeiro governador do Estado.

Mário de Andrade e Câmara Cascudo no RN

Chico e Mário se conheceram na primeira viagem etnográfica do poeta ao RN em 1927, tendo como anfitrião o escritor Câmara Cascudo. Na ficção, o cantador é filho de um homem sem passado que “fuzila com a voz”. Se o pai fuzila, o filho ilumina quando canta cocos tipo "Boi tungão", um dos preferidos de Mário, e "Usina (tango no mango)", gravado pelo grupo pernambucano Mestre Ambrósio.

Os textos publicados nas imprensas potiguar e paulista registram o impacto que o coqueiro causou no cronista. Café é o sexto livro de Mário que tem Chico como personagem. Os outros livros são Os Cocos, Danças Dramáticas do Brasil, Melodias do Boi e Outras Peças, O Turista Aprendiz, que reúne crônicas publicadas no Diário Nacional, e Vida de Cantador. Este último foi escrito, segundo o autor, com “elementos da vida e da psicologia do Chico Antônio de carne e osso que foi meu amigo”.

Mário abre assim o seu Café: “Chico Antônio apenas se percebera um pouco enfarado quando a noite caída não permitiu mais enxergar as paisagens passando pelo trem.” O autor ficcionaliza a chegada do cantador de coco nordestino à metrópole paulista, onde a “boniteza violenta” lembra Recife. Homem forte e aluado, o potiguar “enfarado” é movido pelo ritmo, pela música. Interage com animais e transita na ficção como personagem potente, mas sem “noção de tempo nem de espaço”.

Essa potência inconsciente é lida em fragmentos romanescos que ratificam o “sentido” viril e a “intensa vida”, anunciados pelo epistológrafo nas cartas para Manuel Bandeira e Moacir Werneck. A página 49 de Café dá conta da intensidade vital do personagem, ao estetizar um Chico vitorioso em seus deslocamentos: “Andarilho por delícia, por destino, não possuía noção de tempo nem de espaço. ... tinha uma paciência chegadeira que na sexualidade o levava até as vitórias do macho...”.

O autor celebra os “traços confiantes” do cantador, cujo repertório narra as aventuras de bichos fortes e velozes da fauna sertaneja, como o boi. Inscreve o instrumento musical que acompanha o coqueiro e os “valores de som” do seu canto. Atento aos efeitos do significante linguístico, ele escreve: “... na pancada do ganzá, desintelectualizado, todo ele se fundia numa nebulosa de inconsciência eloquente, em que as próprias palavras não possuíam mais que valores de som” (p. 67).

Embora Café não ambicione explorações linguísticas, o registro destes “valores de som” sugerem a força estética do significante, e os seus efeitos lúdicos no repertório musical de Chico. O romance ratifica escritos antigos nos quais O empalhador de passarinho sugere a inconsciência do artista potiguar: “Não sabe que vale uma dúzia de Carusos, vem da terra, canta por cantar, por uma cachaça, por coisa nenhuma e passa uma noite cantando sem parada. Já são 23 horas e desde as 19 horas que canta...”.

III – Coqueiro: máquina de ritmos

Escrito nas três últimas décadas nas quais Mário viveu, o Café brotou de antigos textos do autor que era crítico de música e pesquisador de teoria musical e de musicoterapia. O coqueiro transformado em personagem do romance, foi descrito em crônica de 1929 no Diário Nacional: “De noite, aparece Chico Antônio, o coqueiro. Simpático e formidável. Noite inesquecível”. O cantador comoveu o crítico moderno que diz: “Estou divinizado por uma das comoções mais formidáveis da minha vida”.

O corpo de Chico – amolado e aceso – é uma máquina de ritmos. Na memória do cronista, o coqueiro é “esporte” e “sonho”. Sua performance é também “heroísmo”. A esses temas e procedimentos, Mário associa o repertório musical do cantador e sua força nativa, além de criar o verbo relumear para dizer da luz dos seus olhos, vejam:

“Que artista. ... O que faz com o ritmo não se diz! ...Chico Antônio vai fraseando com uma força inventiva incomparável, tais sutilezas certas feitas que a notação erudita nem pense em grafar, se estrepa. E quando tomado pela exaltação musical, o que canta em pleno sonho, não se sabe mais se é música, se é esporte, se é heroísmo. Não se perde uma palavra... ajoelhado pro Boi Tungão, ...contando a briga que teve com o diabo no inferno, numa embolada sem refrão, durada por 10 minutos sem parar. Sem parar. Olhos lindos, relumeando numa luz que não era do mundo mais. Não era desse mundo mais...”

Além do canto e da luz de Chico, registrados nesta crônica, Mário celebra, no romance tardio, o corpo jovem do coqueiro norte-rio-grandense e sua sensualidade viril. O Chico romanesco de Mário é feito de ritmo, luz e carne. Repleto de figurações metonímicas do corpo, como atestam os takes de pele-olhos-nariz formatados pelo narrador: “a tez polida brilhando e os incomparáveis olhos meigos, com o nariz sensual mas bem feito, o corpo pesado mas com uma juvenilidade esbelta...” (p. 105).

IV – Eles deixaram algum espaço

Café estetiza, no corpo, a angústia do embolador em trânsito pela cidade. O canto e o andar de Chico conduzem o trio masculino pela travessia urbana. Na noite paulista, o narrador registra o “recato de desaponto” (p. 103) do coqueiro excitado, cuja noitada atribulada expõe a sexualidade do personagem potiguar, e acaba assim: “Ficou indiscretamente excitado, no poder da angústia. Respirou forte, abanando as narinas, como colhendo no ar a direção das fêmeas.” (p. 10).

A prosa moderna de Mário de Andrade expressa a percepção dos seres que deixam para traz algum espaço seja um estado, uma região ou um continente. Nela o autor celebra o canto luzidio e o corpo do cantador potiguar deslocado de sua terra. Estetiza as culturas do interior paulistano. O cotidiano moderno dos ricos pouco civilizados que mudam de classe social, trocam o interior paulista pela capital, onde os saberes e os gestos da cultura são permanentemente atualizados junto com a história.

 Capa do CD Carretilha de Cocos, produzido pela Fundação Hélio Galvão, Natal, 2001.

Café estetiza a imigração no contexto sócio-político do Brasil no entre guerras. Os nordestinos, a exemplo dos imigrantes italianos, transitam por São Paulo em busca de emprego ou possibilidade de ganho. “Andarilho por destino”, Chico Antônio atua no romance com a firmeza de quem canta desde os antigos cadernos, crônicas e livros de Mário de Andrade. Ao reler as nossas identidades culturais, o autor moderno retirou o colete da linguagem beletrista e carnavalizou, nos trópicos, a vida dos seus personagens.

Bibliografia
 
ANDRADE, Mário de. Café. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015.
____ O Turista Aprendiz. Introdução e notas: Telê Porto Ancora Lopez. Belo Horizonte: Itatiaia, 2002.
____ A Lição do Amigo. Cartas de Mário de Andrade a Carlos Drummond de Andrade. Rio de Janeiro: José Olympio, 1982.
____ Cartas de Mário de Andrade a Luís da Câmara Cascudo. Introdução e notas: Veríssimo de Melo. Belo Horizonte/Rio de Janeiro: Villa Rica, 1991.
____ Correspondência Mário de Andrade & Manuel Bandeira. Org. Marcos Antônio de Moraes. São Paulo: Edusp/ Instituto de Estudos Brasileiros, 2000.
JARDIM, Eduardo. Eu sou trezentos. Vida e Obra de Mário de Andrade. Rio de Janeiro: Edições de Janeiro, 2015.
Nonato Gurgel é autor de miniSertão (poesia) e Luvas na Marginália (ensaio), e professor de Teoria da Literatura e Literatura Universal da UFRRJ.

Rio de Janeiro, 2015/Baía Formosa, 2016


 

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Cercado de Letras

 
Toda a literatura dos sobreviventes relata esse entorpecimento.
Bernhard Schlink, O Leitor


Amor, Analfabetismo e Auschwitz.
Não necessariamente nessa ordem, são esses os principais ingredientes do filme O Leitor.
O diretor Stephen Daldry demonstra habilidade, no diálogo entre Letras e telas, desde As Horas, filme que narra a vida da grande escritora inglesa Virgínia Wollf.
 
Baseado no livro homônimo do escritor alemão Bernhard Schlink, O leitor é um filme que afeta a respiração de quem vê. A história é carregada de três ingredientes produtivos e perigosos: a política, a poesia e o erotismo. A narrativa é escrita numa linguagem clara e direta, numa forma linear, às vezes até um pouco previsível. Mas essa história – repleta de visibilidade e incertezas, como a maioria das narrativas modernas – não é nada previsível.
 
O romance narra a história de  um garoto de 15 anos. Ele conhece as farpas e o mel – do amor e dos fatos – ao envolver-se com uma mulher de 36 anos. Ela é ex-vigilante. Uma mulher que encaminhava judeus para as câmaras de gás nos campos de concentração nazistas. Ele, um jovem (futuro estudante de Direito) que lê Homero, Rilke, Cicero e Horácio, vivendo numa família cercada de Letras (seu pai é professor de Filosofia e sua irmã estuda Literatura).
 

Verdade e Lei
 

A ficção de Schlink se desenvolve numa Alemanha pós-guerra, na década de 40 do século XX. Esse contexto destroçado traduz-se, no filme, através de cores sóbrias sugerindo, em alguns trechos, a melancolia que perpassa algumas imagens de Schlink. O contexto bélico, os sobreviventes e suas memórias são os referentes através dos quais as questões políticas e sociais se inscrevem.
 
Essas questões que remetem ao holocausto, e ao entorpecimento, aparecem principalmente no livro, e menos no filme. São muitas as indagações que atravessam a narrativa de Bernhard Schlink: o que é o direito? Quais os papéis do advogado e do promotor numa sociedade pós-guerra? Quais os limites do “distanciamento profissional"? São questões complexas que solicitam o leitor e seu repertório cultural. Como deve ser feita a leitura do nosso passado histórico? O que fazer com o medo, o entorpecimento e o horror que invadem violentamente o nosso cotidiano fragmentado e moderno?
 
Enfim, a grande pergunta que atravessou todo o século XX, e continua ecoando em nosso imaginário social: o que as gerações seguintes devem fazer “com as informações sobre as atrocidades dos extermínios dos Judeus?”
 

A tigresa e o filhote-pedrinha
 

Voltemos ao plano dos afetos. Entre os dois amantes rola sexo, leituras (Guerra e Paz) e uma infinda "batalha verbal". A tigresa Hanna tem um “corpo cheio de força e confiante”. Por isso, ela doa para o seu “filhote”-"menino"-“pedrinha” dois elementos raros na juventude: segurança e decisão. Em troca, Michael lê. Ele lê principalmente a nuca, as pernas, o corpo inteiro da amada. Lê também os livros em voz alta. Ele é um exímio leitor. O leitor atende aos pedidos dessa estranha funcionária do bonde, cujo passado bélico ele só conhecerá futuramente num tribunal público.
 
Quanto mais lê, mais ele se submete às ciladas dessa Lilith no vigor da sua maturidade feminina. As brigas e os descompassos produzem mais intimidades. Mergulhos em águas turvas. Trevas e traças de uma história cujo futuro ninguém sabe, ninguém vê. Bombardeios de palavras e beijos. Cenas de sangue e poesia se alternam e aproximam o casal que goza e grita de prazer enquanto trepa. Essa relação paradoxal e conflitante entre eles parece ser uma metonímia histórica das próprias relações políticas num país descompassado pela guerra.
 
Sem efeitos grandiloquentes nem ritmos alucinantes, O Leitor cria ritmos. É o tipo de filme que afeta. Afeta a respiração de quem vê. Isso, por um motivo atroz: aquele que narra e lê – belo, resignado, cheio de memórias – mostra que a verdade e a lei, em alguns contextos, não se encontram. São coisas bem distintas.
 
 

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Cara de quem nutre fantasma



I – o etnólogo vira personagem
 
Meu nome é Buell Quain. Antes de me transformar no personagem principal do romance “Nove Noites”, do Bernardo Carvalho, eu era um etnólogo americano. Fascinado por ilhas, desertos, viagens, só entrei no livro do Bernardo porque vim parar no sertão central do Brasil. Andarilho solitário, eu gosto de escrever cartas. Adormeço embalado por histórias. A minha é curta. Uma historinha que acaba aos 27 anos, como você vai ler: não ultrapassa esta lauda. Uma vida, uma página. Ao contrário da ficção, não são páginas da vida.
 
II – o suicida arrasta um fantasma no seu rastro
 
Um amigo me define como um cientista suicida que bebe, fuma e faz do corpo um laboratório. Para ele, o meu silencio carrega um segredo. Sou um homem que arrasta um fantasma aflito no seu rastro. Nos anos 30 do século XX, vivi entre os índios krahô no sertão de Goiás. Nas tribos, à noite, o mundo ecoava em ondas que dilatavam a minha escuta, e eu passei a suportar a diferença sem nem perceber. O silêncio ficava carregado do que eu ainda não era. Não sabia que jamais seria.

III – Da América do Norte para Goiás passando pela Lapa
 
Nasci na América, no futuro do pretérito: seria. No Brasil, morei numa pensão da Lapa, no Rio de Janeiro, a capital do país. Depois vim morrer em Carolina – uma cidadezinha morta no interior de Goiás, sabendo que o bloco da família não viria atrás. Sem nenhum desejo de ser governado pelos mortos, e com a fome de quem atravessou o sertão sem água nem pele, eu vi: a realidade é o que se compartilha na sede e na superfície. Descartes eu deleto; vale a razão de Deleuze: o mais profundo é a pele.
 

 

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Memórias de um professor do PARFOR


                                                         Para a senadora Fátima Bezerra (RN) e as orientandas do PARFOR (RJ)


I – Educação: direito e dever

Dentre os programas educacionais desenvolvidos pela UFRRJ, no século XXI, destaca-se o PARFOR – Plano Nacional de Formação de Professores para a Educação Básica, cuja recepção é bastante afirmativa nesta universidade. Criado em 2010, divulgado principalmente em sites virtuais e plataformas governamentais, o referido programa educativo contempla os profissionais que se encontram em exercício nas escolas públicas estaduais e municipais, mas que não possuem a formação adequada exigida pelo MEC para atuar em sala de aula.
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Num país com alta taxa de evasão escolar e alto índice de analfabetismo, como ainda acontece no Brasil, um programa pedagógico dessa amplitude possui importância fundamental. Desde a Constituição Federal de 1988, no seu artigo 205, sabemos que a educação é um direito de todos e dever do Estado. Em sintonia com o texto constitucional, o PARFOR é vinculado ao MEC (Ministério da Educação e Cultura) e à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e, em parceria com as Secretarias estaduais e as Prefeituras municipais, o referido programa contempla as cinco regiões do Brasil. Isso não é pouco. Como estudante de graduação, não lembro nenhum programa educacional dessa amplitude, ao cursar Letras em Caicó-RN, nos anos 80, quando a ditadura militar dava os seus últimos suspiros, graças a deus e a tia Lica que torcia muito por isso.
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O PARFOR possui como público alvo os professores da educação básica, profissionais em exercício nas redes públicas de ensino. Destes professores, torna-se imperativo ressaltar, além das atividades de docência e demais experiências pedagógicas, os diferentes contextos multiculturais e os roteiros existenciais por eles trilhados até chegar ao universo acadêmico. São roteiros inéditos para a entrada no universo acadêmico. A vivência comunitária dessas experiências educacionais, o trânsito por estes contextos multiculturais e seus diferentes roteiros de vida transformam estes profissionais num público diferenciado bastante especial.
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Este público requer dialogismo perene e uma metodologia de ensino conectada às suas demandas e ao mundo contemporâneo. São discentes que avisam, até quando em silêncios raros, que os tempos são outros. Outros ruídos. Vivemos tempos de inclusão. A universidade precisa repensar os seus saberes e a sua extensão. Ela precisa rever os moldes medievais nos quais se baseia, na maioria das vezes, os modelos que possuem por base a repetição, a imitação do igual, da semelhança. Este saber excluía a diferença. Trata-se de um saber que permanecia enclausurado entre muros distantes da comunidade. Saber dos tempos antigos de isolamento.
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Acerca da formação e da qualificação destes professores que se transformam em alunos e nos fazem questionar estes saberes, é importante ressaltar algumas dificuldades enfrentadas por quem deseja ingressar no PARFOR. Ecos do que ouvimos em sala de aula sugerem que o processo seletivo nem sempre é uma etapa simples. O acesso ao programa ainda é pouco incentivado. Parece que algumas prefeituras ou secretarias de educação divulgam pouco, ou sequer divulgam o referido programa. Acontece até de, algumas vezes, estes órgãos governamentais dificultarem o acesso dos professores ao programa.
 
Durante os últimos cinco anos venho lecionando para as turmas deste programa; o que marcou definitivamente a postura profissional e a metodologia que utilizo como professor do curso de Letras. Constato que as cidades de Nova Iguaçu, Japeri, Belford Roxo, Queimados e São João do Miriti se destacam, no PARFOR de Letras, como municípios de onde advém grande parte dos nossos alunos.
 
II – Clarice aos sábados e Cazuza no Museu

 
Coordenado nos cursos de Letras do IM – Instituto Multidisciplinar, com lisura e eficiência pela professora Dra. Lucia Helena, do DL – Departamento de Letras da UFRRJ, o PARFOR é composto, em sua grande maioria, por turmas de corajosas mulheres de cores, comportamentos e etnias bastante diferentes. Embora reconheça a presença produtiva dos homens que retornam à sala de aula, através deste programa, quero registrar aqui a coragem e a determinação feminina frente ao PARFOR. Muitas destas mulheres são mães ou avós que criam, ou criaram filhos e netos, e que voltam à sala de aula como alunas de graduação no universo acadêmico. Isso é maravilhoso e faz diferença.


Outras alunas são solteiras ou sozinhas, mas todas trabalham. Com elas vivifiquei profissionalmente alguns momentos marcantes dos meus trinta anos de magistério em cidades do Rio Grande do Norte e do Rio de Janeiro. Pensando nesta trajetória acadêmica, como esquecer, por exemplo, de um programa cujas aulas me fizeram ler Clarice Lispector, aos sábados pela manhã, com uma turma de alunas interessadas na floração da prosa moderna na Baixada Fluminense?

Nenhum professor é o mesmo, depois que ouve da aluna Neide Chatinha que Macabéa não sabia enfeitar a realidade. Nenhum professor continua inalterado depois que outra aluna leciona para ele a forma como a cartomante da novela sugere, para Macabéa, o envolvimento com mulheres. Mestre é quem de repente aprende, viva Guimarães Rosa. Há mais de 20 anos releio A Hora da Estrela, mas nunca havia percebido essa sugestão homossexual por parte da mulher que joga cartas no livro de Clarice.

Além dessas leituras que considero bastante produtivas e até inusitadas, tenho com as turmas do PARFOR as memórias comuns de uma viagem pedagógica. Viajamos para São Paulo, a fim de ver e ouvir Cazuza, cuja vida e obra foram expostas no Museu da Língua Portuguesa em 2013. O mesmo museu que expunha atualmente a vida e a obra do escritor e etnógrafo potiguar Luís da Câmara Cascudo e que, infelizmente, acaba de ser destruído no incêndio deste final de 2015. Museu paulista pegando fogo, convenhamos, parece uma metáfora acesa do momento político e cultural do país em chamas. Mas voltemos ao PARFOR, programa que me fez unir Clarice e Cazuza num mesmo semestre.  Experiência que os une no museu e na Baixada.
 

 

Exímio leitor de ficção, Cazuza amava a prosa interrogativa e meio psicanalítica de Água Viva – livro publicado em 1975 por Clarice Lispector. Desta autora que tinha a nostalgia de não ter nascido bicho, Cazuza musicou trechos da belíssima crônica “Que o deus venha”, texto que compõe o livro póstumo A descoberta do mundo. Cazuza é letra, crônica, verso. Letra pop. O seu som tem a ver com a sensibilidade e a percepção das alunas para quem o PARFOR é um sonho, e por isso não pode acabar. Cazuza celebra o ser e o sonho: “quem tem um sonho não dança”. Seus versos cantam o fedor burguês. Gritam para o país mostrar a sua cara. Sua escrita subjetiva e cortante começa a ser acolhida pela academia como trilha musical da era da redemocratização do Brasil.

III – Mudanças como educador e cidadão

Atuo no PARFOR como orientador de monografias e professor de quatro disciplinas: Teoria da Literatura, Literatura Brasileira, Literatura Portuguesa e Introdução às Literaturas Africanas de Língua Portuguesa. No exercício destas disciplinas, algumas figurações certeiras dos seminários e das aulas ficaram gravadas como prêmios. Lembro, com alegria, a leitura comovida que a aluna Cristiane de Souza fez do escritor português Walter Hugo Mãe, demonstrando a sintonia de sua sensibilidade em conexão com os temas e as culturas do seu tempo. Lembro também das perguntas infindas de Débora Alves, repletas de curiosidade e ironia, acerca dos conteúdos literários, e do seu crescimento visível durante as apresentações dos seminários em grupos.

Guardo para sempre a descoberta do mundo feita por Ercília, ao ler a literatura feminina. E como não lembrar os roteiros de leituras traçados pelas duas alunas quem têm Silvana como nome, ambas tendo como objetos de estudo a obra do escritor carioca Lima Barreto? Como esquecer as crônicas sobre saúde, escritas por Scliar, lidas por Noemi, e o nosso projeto gastronômico de construirmos uma padaria num possível terceiro tempo? São fragmentos de falas, imagens e leituras que marcam além da sala de aula. Pequenas epifanias na Baixada fluminense, onde atuo como professor universitário desde o início do milênio quando dava aulas na UNIGRANRIO, em Duque de Caxias. Baixo Baixada onde transito catando fragmentos do saber, da poesia e da fé. Espaço onde vivo momentos de troca e aprendizagem.

Creio que a experiência com as turmas do PARFOR me transformou como professor, como antigo leitor de Paulo Freire e Magda Soares, e até mesmo como cidadão, já que alterou a percepção multicultural e ideológica. Ampliou a sintonia com o magistério hoje, formado que fui nos anos 80, ao final da ditadura militar, quando o contexto político não permitia a possibilidade de um programa produtivo e democrático como este. O PARFOR exigiu de mim, como educador e orientador, uma pluralidade de métodos, discursos e leituras que eu não sabia, diferentes das leituras e metodologias que utilizo, desde 2009, nos cursos regulares de graduação da UFRRJ.

O trabalho acadêmico com estas turmas exigiu principalmente um exercício de agilidade, concisão e clareza que pareceram ampliar as possibilidades profissionais, em sintonia com a fragmentação e a rapidez características deste milênio eletrônico e virtual. Tudo isso na esteira do que propõe o escritor Ítalo Calvino em seu belo livro Seis propostas para o próximo milênio.

IV – A universidade precisa rever seus paradigmas

As aulas para estas turmas intensificaram as leituras em torno dos Estudos Culturais, das teorias culturais de Walter Benjamin e de filósofos afirmativos como Michel Serres. As teorias que sedimentam os Estudos Culturais, sabemos, evidenciam a necessidade de entendermos as conexões entre diferentes culturas, linguagens e contextos, além de preconizarem a releitura da História e dos cânones estéticos e culturais que movem as comunidades e periferias.

Essas teorias sugeridas pelos Estudos Culturais possuem fortes relações com o público alvo do referido programa educacional, ao atestar a importância de atentarmos para o lugar de onde falamos, e ao questionar as funções do intelectual e, de certa forma, as funções do próprio professor, no contexto histórico e cultural contemporâneo. Para que serve um intelectual num universo em crise, dividido em guerras políticas e religiosas, cuja noção de realidade muda a cada instante?

O PARFOR evidencia a necessidade que a universidade possui de mudar. Mudar e repensar os seus currículos e as suas metodologias de ensino milenares. Sabemos que muitos dos paradigmas universitários provêm da Idade Média, quando surgiram as primeiras universidades europeias, como a de Coimbra, no centro de Portugal, cujos prédios seculares são, até hoje, protegidos pela estátua imensa de Dom Diniz, o rei que gostava de agricultura, o antigo poeta das “naus a haver” que Fernando Pessoa canta lindamente em Mensagem.

Sabemos também que alguns conteúdos e saberes universitários são repassados, muitas vezes, sem a problematização sugerida pelo contexto histórico e cultural dos alunos, e por isso são conteúdos de valia discutível para os dias de hoje, quando a vigência do multiculturalismo e os aparatos tecnológicos e virtuais exigem outras formas de percepção e leitura de mundo. Por isso, enquanto professor do PARFOR, vários foram os momentos de questionamento em torno da minha metodologia educacional e demais práticas docentes, como a avaliação, tendo por base o que vivi com estas turmas e a antiga formação acadêmica.  Como lecionar Camões ás 8 h da manhã, numa universidade periférica, enquanto os autos e motos trafegam velozes pela via Dutra?

Embora o PARFOR do curso de Letras não tenha conseguido formar novas turmas para 2016, continuo ligado ao referido programa, como orientador de sete alunas: Débora (Polegarzinha, do Michel Serres), Martha (A paixão segundo GH, de Clarice Lispector), Roselaine (o heterônimo Ricardo Reis), Tatiane (O Fernando Pessoa de António Tabucci), Priscila (o Jesus de Paulo Leminski), Márcia (Desabrigo, de António Fraga) e Noemi (lendas na literatura infantil de Clarice Lispector). 

Estas alunas são orientadas em trabalhos finais de monografia de curso. Elas dão muito trabalho e proporcionam alegrias também. Rs. Enquanto houver demanda, torço para que o PARFOR, além de outros programas educacionais de grande alcance cultural, como o PIBID, seja mantido nas universidades brasileiras pelos órgãos governamentais que regem a nossa educação.

Rio de Janeiro (RJ) e Baía Formosa (RN), 2015
 
 
 

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

chega



embora eu saiba
que amar dá trabalho
e beleza pode doer
não quer mais ruminar
ruínas da dor



 

sábado, 14 de novembro de 2015

Carta aos leitores de Borges na Rural


Para as alunas de Literatura Universal
 
 
 
Walquíria,
 
Sua pergunta é pertinente, mas não é fácil de responder.
Resumindo: haveria um autor equivalente a Jorge Luís Borges na Literatura Brasileira?
 
Leyla Perrone-Moisés escreveu um ensaio intitulado "Machado de Assis e Borges: nacionalismo e cor local". Neste texto publicado em Vira e mexe, nacionalismo, a autora trabalha os temas apontados no título do referido ensaio, e afirma que Machado "teria  apreciado a ironia borgeana." Regina Zilberman também comparou os dois autores no texto "O leitor, de Machado de Assis a Jorge Luís Borges", publicado na Revista Brasileira de Literatura Comparada.

O crítico uruguaio Emir Monegal, um dos melhores leitores de Borges, o aproxima do escritor Mário de Andrade, através das vanguardas; acho ótimo, mas quando  comparo o requinte da poética do Borges, esse parece ser um dos aspectos que o tornam superior à produção poética do Mário.  Apesar disso, o escritor paulista escreveu Macunaíma e  livros fundamentais da nossa cultura, como os diários de O Turista Aprendiz. Borges, um exímio representante das chamadas Altas Literaturas, nunca escreveu um romance ou diário. Sugeria ver como formas menores estes produtos culturais que ascenderam com a burguesia mercantilista do século XVII.
 
Lembrando que Oswaldo  de Andrade não alimenta o mito da pátria,  a ensaísta Ilza Matias o relaciona a Borges, lendo em ambos um "alegre cinismo". A autora lê também, nos dois autores, uma certa indiferença ao cânone literário e às convenções sociais. Vale aqui lembrar o preço pago por ambos os autores por esse "cinismo" e por essa "indiferença": o autor de Pau Brasil chegou a ser banido das antologias nacionais; o escritor argentino nunca recebeu o Prêmio Nobel que os leitores, a crítica e a academia reconhecem como merecido.

Além do carioca Machado de Assis e dos dois Andrades paulistas, um autor gaúcho é comparado ao escritor argentino.  Essa comparação pode ser aferida no ensaio "Dois leitores da Gauchesca: Jorge Luís Borges e Simões Lopes Neto", da ensaísta gaúcha Tânia Franco Carvalhal.
 
Se tiver que citar um autor que se aproxima, e que é objeto de estudos relacionados ao Borges, eu citaria o Guimarães Rosa, cujo livro Tutaméia você leu muito bem no seminário de Teoria da Literatura I. Creio que o repertório cultural, os procedimentos estéticos e o rigor artístico da ficção de Rosa estão à altura da escrita borgeana, e podem ser comparados aos grandes autores da Literatura Universal.

A ensaísta Walnice Galvão, exímia leitora de Euclides da Cunha e Guimarães Rosa, é autora de um ensaio intitulado "Demiurgos: Borges e Clarice Lispector". Neste texto publicado em Desconversa (1998), ela faz referências aos contos de Ficções, do autor argentino, e aos contos de Laços de família e A Legião Estrangeira, de Clarice. É bom lembrar que a autora de A Descoberta do Mundo (1984) citava Borges em textos de sua coluna no Jornal do Brasil, coligidos depois neste livro póstumo .

Penso também que há algo de Drummond no Borges, ou do Borges no Drummond, mas não sei muito bem o que é, além do fato de ambos parecerem modestos e terem atravessado oito décadas do século XX. Não lembro agora de nenhum estudo comparando os dois autores, mas é visível como os procedimentos da memória e o olhar irônico, dentre outros, os aproxima. Mais: numa entrevista feita por Leo Gilson Ribeiro, para a revista Veja, em 1970, Borges fala de um prêmio que recebera no Brasil e diz: "o prêmio da Bienal me veio como um mensageiro novo: do país de Carlos Drummond de Andrade e Euclides da Cunha."

Euclides aparece em outros textos. Na belíssima entrevista concedida ao jornalista Roberto D"avila, para a TV Manchete, em 1985, e publicada no livro Borges no Brasil (org. Roberto Schwartz), o autor argentino indaga: "... quem sou eu para ombrear-me a Euclides da Cunha, Camões ou Montaigne?"  
 
Borges viveu dentro de uma biblioteca de ilimitados livros escritos em vários idiomas. Lia a biblioteca como metáfora do universo. Escrever e pensar eram formas de viver para quem leu a metafísica como "um ramo da literatura fantástica". No fim da vida, Borges casou novamente, andou de balão, e viajou para receber os prêmios que o mundo outorgou por ele ter suprido, com sua poética, uma das principais carências da América Latina: as fomes de formas, roteiros e linguagens.
 
A imagem de Borges personifica a metáfora da própria Literatura.  Ele insinuava viver em meio a sombras, mas dentro de uma neblina luminosa. Citava de cor os clássicos da tradição – Homero, Virgílio, Dante, Shakespeare, Kafka... Insinuava conhecer muito pouco a Literatura Brasileira. Mas lembrava um fato ocorrido em 1914, um cego declamando "Minha terra tem palmeiras/ onde canta o sabiá". A evocação, sabemos, remete ao poema "Canção do Exílio", escrito pelo poeta romântico Gonçalves Dias quando estudava Direito em Coimbra no século XIX. 
 
Voltemos à sua pergunta e aos autores brasileiros: Mário de Andrade, Oswaldo de Andrade, Simões Lopes Neto, Euclides da Cunha, Carlos Drummond, Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Gonçalves Dias. Veja quem você prefere e por quê.

O que poucos leitores sabem é que Borges cita o Brasil, o escritor Euclides da Cunha e o beato António Conselheiro em mais de um texto de Ficções - sua obra prima de 1944. Um dia desejo escrever um texto chamado Os Sertões de Borges.

Abraço
 
p.s. Lembrei que o professor gaúcho Luís Augusto Fischer escreveu o livro Machado e Borges.