e todo caminho deu no mar

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"lâmpada para os meus pés é a tua palavra"

sábado, 14 de novembro de 2015

Carta aos leitores de Borges na Rural


Para as alunas de Literatura Universal
 
 
 
Walquíria,
 
Sua pergunta é pertinente, mas não é fácil de responder.
Resumindo: haveria um autor equivalente a Jorge Luís Borges na Literatura Brasileira?
 
Leyla Perrone-Moisés escreveu um ensaio intitulado "Machado de Assis e Borges: nacionalismo e cor local". Neste texto publicado em Vira e mexe, nacionalismo, a autora trabalha os temas apontados no título do referido ensaio, e afirma que Machado "teria  apreciado a ironia borgeana." Regina Zilberman também comparou os dois autores no texto "O leitor, de Machado de Assis a Jorge Luís Borges", publicado na Revista Brasileira de Literatura Comparada.

O crítico uruguaio Emir Monegal, um dos melhores leitores de Borges, o aproxima do escritor Mário de Andrade, através das vanguardas; acho ótimo, mas quando  comparo o requinte da poética do Borges, esse parece ser um dos aspectos que o tornam superior à produção poética do Mário.  Apesar disso, o escritor paulista escreveu Macunaíma e  livros fundamentais da nossa cultura, como os diários de O Turista Aprendiz. Borges, um exímio representante das chamadas Altas Literaturas, nunca escreveu um romance ou diário. Sugeria ver como formas menores estes produtos culturais que ascenderam com a burguesia mercantilista do século XVII.
 
Lembrando que Oswaldo  de Andrade não alimenta o mito da pátria,  a ensaísta Ilza Matias o relaciona a Borges, lendo em ambos um "alegre cinismo". A autora lê também, nos dois autores, uma certa indiferença ao cânone literário e às convenções sociais. Vale aqui lembrar o preço pago por ambos os autores por esse "cinismo" e por essa "indiferença": o autor de Pau Brasil chegou a ser banido das antologias nacionais; o escritor argentino nunca recebeu o Prêmio Nobel que os leitores, a crítica e a academia reconhecem como merecido.

Além do carioca Machado de Assis e dos dois Andrades paulistas, um autor gaúcho é comparado ao escritor argentino.  Essa comparação pode ser aferida no ensaio "Dois leitores da Gauchesca: Jorge Luís Borges e Simões Lopes Neto", da ensaísta gaúcha Tânia Franco Carvalhal.
 
Se tiver que citar um autor que se aproxima, e que é objeto de estudos relacionados ao Borges, eu citaria o Guimarães Rosa, cujo livro Tutaméia você leu muito bem no seminário de Teoria da Literatura I. Creio que o repertório cultural, os procedimentos estéticos e o rigor artístico da ficção de Rosa estão à altura da escrita borgeana, e podem ser comparados aos grandes autores da Literatura Universal.

A ensaísta Walnice Galvão, exímia leitora de Euclides da Cunha e Guimarães Rosa, é autora de um ensaio intitulado "Demiurgos: Borges e Clarice Lispector". Neste texto publicado em Desconversa (1998), ela faz referências aos contos de Ficções, do autor argentino, e aos contos de Laços de família e A Legião Estrangeira, de Clarice. É bom lembrar que a autora de A Descoberta do Mundo (1984) citava Borges em textos de sua coluna no Jornal do Brasil, coligidos depois neste livro póstumo .

Penso também que há algo de Drummond no Borges, ou do Borges no Drummond, mas não sei muito bem o que é, além do fato de ambos parecerem modestos e terem atravessado oito décadas do século XX. Não lembro agora de nenhum estudo comparando os dois autores, mas é visível como os procedimentos da memória e o olhar irônico, dentre outros, os aproxima. Mais: numa entrevista feita por Leo Gilson Ribeiro, para a revista Veja, em 1970, Borges fala de um prêmio que recebera no Brasil e diz: "o prêmio da Bienal me veio como um mensageiro novo: do país de Carlos Drummond de Andrade e Euclides da Cunha."

Euclides aparece em outros textos. Na belíssima entrevista concedida ao jornalista Roberto D"avila, para a TV Manchete, em 1985, e publicada no livro Borges no Brasil (org. Roberto Schwartz), o autor argentino indaga: "... quem sou eu para ombrear-me a Euclides da Cunha, Camões ou Montaigne?"  
 
Borges viveu dentro de uma biblioteca de ilimitados livros escritos em vários idiomas. Lia a biblioteca como metáfora do universo. Escrever e pensar eram formas de viver para quem leu a metafísica como "um ramo da literatura fantástica". No fim da vida, Borges casou novamente, andou de balão, e viajou para receber os prêmios que o mundo outorgou por ele ter suprido, com sua poética, uma das principais carências da América Latina: as fomes de formas, roteiros e linguagens.
 
A imagem de Borges personifica a metáfora da própria Literatura.  Ele insinuava viver em meio a sombras, mas dentro de uma neblina luminosa. Citava de cor os clássicos da tradição – Homero, Virgílio, Dante, Shakespeare, Kafka... Insinuava conhecer muito pouco a Literatura Brasileira. Mas lembrava um fato ocorrido em 1914, um cego declamando "Minha terra tem palmeiras/ onde canta o sabiá". A evocação, sabemos, remete ao poema "Canção do Exílio", escrito pelo poeta romântico Gonçalves Dias quando estudava Direito em Coimbra no século XIX. 
 
Voltemos à sua pergunta e aos autores brasileiros: Mário de Andrade, Oswaldo de Andrade, Simões Lopes Neto, Euclides da Cunha, Carlos Drummond, Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Gonçalves Dias. Veja quem você prefere e por quê.

O que poucos leitores sabem é que Borges cita o Brasil, o escritor Euclides da Cunha e o beato António Conselheiro em mais de um texto de Ficções - sua obra prima de 1944. Um dia desejo escrever um texto chamado Os Sertões de Borges.

Abraço
 
p.s. Lembrei que o professor gaúcho Luís Augusto Fischer escreveu o livro Machado e Borges.

 
 
 
 

2 comentários:

Walquiria Rodrigues disse...

Muito interessante.... É possível trabalhar os rasgos desses autores brasileiros, relacionando-os com o Borges então? Pegar uns três escritores e traçar um perfil comparando com o autor argentino .

Walquiria Rodrigues disse...

Muito interessante.... É possível trabalhar os rasgos desses autores brasileiros, relacionando-os com o Borges então? Pegar uns três escritores e traçar um perfil comparando com o autor argentino .