e todo caminho deu no mar

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"lâmpada para os meus pés é a tua palavra"
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quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Clarice vai à Feira



I Conferência de Saberes e Tradições Nordestinas
Local: Rio de Janeiro, Centro Luiz Gonzaga - Feira de São Cristóvão,17 a 20 de Setembro


Dia 17 - 09 - Local: Biblioteca Padre Cícero
14H às 15:30H – Histórias da Feira de São Cristovão - Patrimônio Cultural Imaterial

Elis Regina Barbosa Angelo – UFRRJ: Âmbitos do patrimônio imaterial: conceitos, definições e direções na construção dos saberes do Brasil.

Prof. Nonato Gurgel – UFRRJ: Clarice Lispector na Feira de são Cristóvão.

Prof. Leonardo Santana da Silva - Unisuam – (mediador)

quarta-feira, 15 de julho de 2015

curso

 
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quinta-feira, 17 de julho de 2014

sertão de mitos e afetos


Tribuna do Norte, 17 de Julho de 2014


Yuno Silva
repórter

“O ‘miniSertão’ dialoga com o ‘Grande Sertão: Veredas’ de Guimarães Rosa. Ele, Euclides da Cunha e Graciliano Ramos são os patronos deste livro”, resume o poeta Nonato Gurgel, que coleciona versos há três décadas e enxerga a compilação como “uma declaração de amor ao Sertão, o sertão literário de Oswaldo Lamartine”. Potiguar de Caraúbas radicado há 16 anos no Rio de Janeiro, onde é professor de Teoria da Literatura na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Gurgel está de passagem por Natal para participar como convidado de uma banca de Doutorado, e aproveita a ocasião para apresentar sua cria nesta quinta-feira, às 15h, no Departamento de Letras da UFRN/CCHLA.

O autor avisa que o lançamento de “miniSertão” (Editora Caetés, R$ 25) será simbólico, mas adianta que o título poderá ser encontrado no Sebo Vermelho e na Cooperativa Cultural Universitária.

Repleto de referências literárias e culturais, o livro traz epígrafes diluídas como se fossem pistas que revelam um pouco da personalidade do autor e sua relação com o universo literário, caso de “IV – Corpo que lê” (pág. 69) que traz citação da poetisa russa Marina Tsvetaeva (1894-1941): “Os livros são nossa perdição. Os livros deram-me mais que as pessoas”. Nonato faz uma releitura dos livros, mitos, lendas e geografia sertanejas, e apresenta uma paisagem livre das abstrações místicas e ideológicas: “Meu Sertão é terreno, pé no chão, e inspirado por Oswaldo Lamartine (1919-2007) tive a ousadia de misturar literatura com Agronomia”, disse o autor, ex-servidor da Emater.

Apesar de impregnadas pela atmosfera do Sertão do Seridó, as poesias de Nonato não se enquadram no que costumam chamar de ‘leitura regional’. “É um livro de memórias, das andanças pelo Seridó, Rio de Janeiro e sertão mineiro, com uma vereda universal, cosmopolita”, analisa o autor, confessando que demorou a aceitar que o Sertão era o grande personagem do livro. “Sem ele (o Sertão) não haveria nada a publicar”.

Escritor de ritmo lento, é nítido o cuidado com que cada palavra, cada frase e cada verso se interligam, como em uma colcha de retalhos tecida infinitamente. “Acho que vou passar a vida (re)escrevendo esse livro, penso em uma segunda edição com pelo menos 20 alterações. Não penso em outro livro por enquanto, e sim em continuar lapidando este”.

Para Nonato Gurgel, “miniSertão” funciona como o trailer de um filme que traz as várias fases de sua vida, suas leituras e suas influências culturais, tanto que o prefácio é substituído pela ‘voz’ do poeta Jorge Fernandes (1887-1953): em uma carta para Câmara Cascudo (1898-1986) o modernista escreveu “ande vire”, como uma sugestão para o leitor seguir em frente.

Gurgel trabalha a tanto tempo no projeto que a primeira ‘boneca’ do livro mereceu comentário do jurista, professor e pesquisador Veríssimo de Melo (1921-1996), em artigo publicado nesta TRIBUNA DO NORTE em dezembro de 1993. É dele o trecho a seguir que acabou na contra-capa do livro: “Poesia de primeira água. Excelente por todos os títulos... Há miniaturas de Nonato que são magníficas da paisagem nordestina... A luz que ilumina a maioria dos seus versos anuncia uma visão nova das coisas e do mundo”.


No poema a seguir, o autor relembra a visita que fez a Cascudo





Natal, Av. Junqueira Aires

                                                                                         A vereda em vez do elevador 

    
                                                                                                          Câmara Cascudo
                                                                                    

                                                                                   Para Aluísio Barros que foi comigo

Ouvimos na chegada
sou mouco vejam bem
não façam perguntas

Paredes assinadas
e livros do chão até
o teto do homem
que leciona sertão:

“você tem o direito
de subir a montanha
pela vereda que escolheu”


sábado, 11 de janeiro de 2014

Seridó, Seridós


 
foto: Ailton Medeiros

 
O título deste post é uma homenagem ao livro de Moacy Cirne, que faleceu hoje, e que li na semana passada em Natal. O volume foi editado em 2013, por Abimael Silva, e dele destaco o seguinte trecho que ratifica a identidade urbana e sertaneja do autor seridoense: "...o sertão, faca e bala, existe dentro do sertanejo através de alfenins, alpendres e lonjuras."
 
Professor da UFF, autor de inúmeros títulos relacionados aos quadrinhos e à indústria cultural, o tricolor Moacy contribuiu, através de sua produção estética e acadêmica, para a leitura e a construção do imaginário e da cultura potiguar. Ele inscreveu, principalmente, o re-finado e belo sertão de Caicó, onde nasceu em 1943, saboreando iguarias, lendas e banhos de bica deste país onde, segundo ele, o capitão Marvel viveu aventuras infindas. Raíz e antena em ação, ele foi também um autor representativo das vanguardas poéticas do século XX, sobretudo do poema/processo.
 
No diálogo que empreende com autores e livros, Moacy utiliza, como epígrafe de Seridó, Seridós, uma citação do escritor Oswaldo Lamartine, que considero um dos textos mais belos da literatura sertaneja. Diz o autor de Em alpendres d´Acauã - Conversa com Oswaldo Lamartine de Faria: "Cada vivente tem o seu sertão. Para uns são as terras além do horizonte e para outros, o quintal perdido da infancia ...".

 
 

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Cidade dos Reis: conversa de rua nas veredas da ficção



Neste quarto livro de Carlos de Souza, uma das primeiras coisas que chamam a atenção do leitor é a delimitação do espaço narrativo. A noção de espaço urbano é recortada nas idéias de cultura e poder afirmadas no título. Logo nas primeiras páginas fica claro como esse espaço sugere – e às vezes determina – a ação da narrativa. Fica claro, como diz a voz que narra, ser a cidade o espaço da “alma potiguar em ação”.

 

Cidade dos Reis atravessa a “alma” de Jonas – o personagem que nasce no primeiro dia do século XX. O livro pode ser lido como uma biografia apaixonada de Natal na travessia do século XX. Jonas em natal. Ambos se atravessam – a cidade, o personagem. A narrativa é centrada nele e suas ações, embora a personagem principal esteja anunciada desde o título: um espaço que, segundo Cascudo, nunca precisou ser vila, povoado ou distrito: já nasceu cidade.

    

Antenado com a oralidade fragmentada do seu tempo, Cidade dos Reis é uma “conversa de beira de calçada” cheia de derivas. Uma conversa sortida de ficção, história e alguma memória sertaneja: “O sertão está dentro da cabeça de cada um”, lê-se no capítulo 11. Uma conversa de rua, uma sopa de letras feita de camarão e jerimum. Rango nutrido de alguma poesia, um vasto “silêncio oceânico” e a brutalidade produzida pela moral dominante ao longo de um século.

 

Cidade dos Reis é uma “conversa” repleta de re-começos. Conversa de quem aprendeu a repetir re-começo. Memórias de um narrador que conta e reconta que é uma beleza. Ficções fragmentadas sem o rigor da gravata que burocratiza a informação, matando a narrativa. Nenhuma que se compare com a narrativa centenária de Jonas, cujas crises e mutações perpassam os 20 capítulos deste romance que atravessa o século XX e seus espaços bélicos.

 

Transitando pelas tradições cultuais da nação potiguar, o livro registra nossos “primeiros bafios da modernidade” até o Plano Real do governo FH, quando o personagem Jonas estanca a sua travessia urbana. Neste trânsito, afirmam-se algumas das mais importantes metamorfoses políticas ocorridas na sociedade potiguar e na vida cotidiana de Natal, no decorrer do século, cujas três primeiras décadas são recortadas até mais ou menos o capitulo 10.

 

Essa modernidade alcança o seu apogeu no capítulo 13. Nele surgem lendas e narrativas da ocupação americana durante a segunda guerra, quando Natal absorve outros hábitos culturais e a população urbana incorpora aos seus ouvidos e paladares novos ritmos e sabores.  Outros gestos e palavras.  A cidade fabrica outro imaginário.

 

Essa modernidade natalense pode ser aferida logo no capítulo 4. Nele o leitor tem notícias da belle époque potiguar, ao ver registrados os primeiros lampiões de gás acetileno que iluminavam as ruas das Rocas, Ribeira e Cidade Alta.  O bonde elétrico e o telefone depois. Outras figurações modernas atravessam o romance, como o sonho de Manuel Dantas, e o registro de suas conferências, cujas visões oníricas perpassam o imaginário potiguar de quem produz arte e cultura desde as vanguardas do início do século XX.


os mártires de Cunhaú e a “aspereza das mantilhas”

 

Cidade dos Reis é um livro cujas narrativas transitam principalmente entre o referente histórico e os planos míticos e culturais. Repleto de registros orais, causos antigos, lendas urbanas e ditos populares, o romance apresenta procedimentos comparativos da maior relevância estética e cultural ao reler, por exemplo, a história de Natal frente às histórias de outras cidades, como Recife – outro espaço urbano que ganha relevo nas aventuras existenciais de Jonas. Nestas releituras, o autor realça as diferenças culturais entre o domínio holandês em PE e no RN, e o leitor percebe a diferença entre as águas que correm no Potengi e noutros rios. “A literatura era um rio de águas transparentes...”, lemos no último capítulo.

 

Mergulhado nestas “águas”, o autor recorta um cânone de inscrição potiguar, onde são audíveis as vozes de autores de diferentes contextos e estéticas como Nísia Floresta, Auta de Souza, Henrique Castriciano, Palmira Wanderley, Jorge Fernando, Lenine Pinto, Myriam Coeli, Luís Carlos Guimarães, Bosco Lopes, o próprio Carlos de Souza e Câmara Cascudo, dentre outros.

 

Natal Cascudo. A cidade lida, inscrita pelo seu autor. A biografia de Cascudo, os seus livros, sua recepção crítica. As relações do autor com o Integralismo e sua adesão ao Modernismo paulista. Esses núcleos temáticos perpassam o romance, na medida em que avançam as aventuras afetivas e “profissionais” de Jonas, o “comerciante” leitor de Zila e Cascudo.

 

O paralelo entre o personagem principal e a narrativa do profeta bíblico é um dos achados deste romance polifônico onde a literatura coexiste com a memória e o texto bíblico, e onde um outro cânone – o cânone da traição, na tradição literária ocidental – é recortado nas letras de Shakespeare, Machado, Eça e Flaubert. Além destes autores, o autor dialoga com Dostoievski – outro escritor realista a quem ele recorre, quando necessita refletir ou estetizar a maldade humana que reina na Cidade... repleta de informação e poesia.  Na travessia desta Cidade..., o leitor encontra tanto os mártires de Cunhaú, da guerra do Paraguai, da guerra de Canudos e da segunda guerra mundial, como depara com um recorte vocabular – poético e violento – que mensura, mesmo no universo religioso, a “aspereza das mantilhas”.

 

lendas, ventos, conversas

 

Nesta Cidade dos Reis os homens criam lendas. Produzem ventos. Na audição desses ventos e lendas ouço algumas das figurações mais consistentes da literatura potiguar contemporânea. Repleta de restos dos discursos do senso comum (precisava mesmo de tanto lugar comum?), essa “conversa” aviva algumas das paisagens mais afirmativas da história norteriograndense. Aviva e diz muito do Brasil, a partir das narrativas e lendas criadas nesta esquina americana, cujo povo ganhou a “alcunha de Papa-jerimum”.

 

Carlos de Souza anota os nomes da terra. Dá nome aos bois. Põe “a alma potiguar em ação”. Não sei se os seus personagens sabem o preço de suas escolhas, mas pelas curvas da história e veredas da ficção, sua linguagem ajuda o leitor a configurar uma identidade lingüística e espacial nesta esquina silenciosa do continente. Por isso esta prosa deve ser lida nas escolas do Rio Grande do Norte. Parodiando Jonas e seu final, a Cidade dos Reis “interessa ao resto do Brasil”.

 

sábado, 17 de novembro de 2012

Cordel não é folclore


Como diz na entrevista a seguir, o professor e poeta Aderaldo Luciano, autor de O auto de Zé Limeira (2008), vem pesquisando o cordel há 20 anos. Em 2007, ele defendeu na UFRJ a tese de doutorado “Literatura de Cordel: visão e revisão”, orientada pela professora e escritora Helena Parente Cunha.

Desde então, o autor vem ministrando aulas e apresentações públicas onde apresenta uma “narrativa” entremeada de figurações da cultura sertaneja e cenas urbanas, com uma metodologia repleta de informação e humor, na tradição da aula-espetáculo de Ariano Suassuna.

Seguindo a trilha aberta por M Cavalcanti Proença que lê os aspectos literários do cordel, a pesquisa de Aderaldo elege a linguagem como um dos principais “personagens” desta literatura. Ele traça uma espécie de recepção crítica desta forma literária, e critica a maioria dos estudiosos e pesquisadores da historiografia do cordel.

Esta crítica tem como base os aspectos folclóricos e culturais dos antigos estudos e pesquisas, em detrimento dos elementos literários que esta pesquisa busca priorizar. A seguir, a fala deste leitor de Câmara Cascudo e Augusto dos Anjos, que traz para o campo da linguagem a especificidade do cordel, e acredita no seu “caráter literário”.
 

1 - Aderaldo, por que o cordel em pleno século XXI?

O cordel é a única forma poética genuinamente brasileira. Todas as escolas literárias passaram e o cordel continua. É como o soneto: não tem idade e é sempre vanguarda. Infelizmente nunca recebeu o tratamento merecido. Com os deslocamentos do eixo cultural e as mudanças sociais vigentes neste século, o olhar sobre o cordel também migrará. Há 20 anos venho me preparando para isso. Agora é hora.

2 - Quais são os autores mais representativos do cordel no Brasil?

Da Geração Princesa, a pioneira, temos Leandro Gomes de Barros, Silvino Pirauá de Lima, João Martins de Athayde e Francisco das Chagas Batista. Da Geração Prometida, a intermediária, que ofereceu permanência ao cordel: José Camelo de Melo Resende, Delarme Monteiro, José Pacheco, Antonio Teodoro dos Santos e Manoel D'Almeida Filho. Da Geração Coroada: João Firmino Cabral, Bule-Bule, Manoel Monteiro, Antonio Américo de Medeiros e Azulão. A Geração Celebrante, esta que aí está segurando o bastão e fazendo fé na coroa, aprendeu com os mestres e está trilhando o bom caminho, mas ainda está sob observação.
 
3 - O que diferencia este seu novo livro da História do Cordel Brasileiro de 2011?

 No título do meu livro está escrita a palavra "Crítica". Isso é o diferencial: pela primeira vez fazemos a crítica de tudo que foi dito e anotado sobre o cordel e refutamos a maioria das informações, por exemplo: o cordel brasileiro não é o mesmo cordel de Portugal, há apenas uma ligação em sua forma física e em alguns temas, mas temos uma autonomia poética decisiva; o cordel não é o aspecto escrito da poesia oral dos cantadores repentistas. Dialoga, mas se afasta; o cordel não é uma poesia dita sertaneja: é um misto de ruralidade e urbanidade. Embora alguns autores venham do sertão, é no brejo e nas cidades onde ele se consolida; O cordel não é folclore: tem data e autoria; as xilogravuras que ilustram algumas capas de folhetos não são sinônimo de cordel. São um acidente de percurso. A maioria dos cordéis não são ilustrados com xilogravura. É um "mito" que engravidou vários "estudiosos".

 É isso, caboclo.

sábado, 7 de janeiro de 2012

o evangelho segundo César Aira I



O rosto tinha se imposto a tudo, ainda mais do que a palavra.

Um acontecimento na vida de um pintor viajante



...a vida rural tinge-se de um melancólico fatalismo oriental.

Pequeno Manual de Procedimentos



... divide e reinarás...

“Mil gotas” in A literatura latino-americana do século XXI

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Leitura das férias I



Dentre várias outras coisas, o bom das férias é a liberdade para ler. Ler o que quiser. Ler sem a preocupação com os planos de aulas nem com as ementas dos cursos que roteirizam a vida do professor.



Nunca tinha ouvido falar de Buell Quain – o etnólogo americano que tinha fascínio por ilhas e viagens. Gostava de escrever cartas e adormecer embalado por histórias. Cientista suicida que bebia e fumava, fazendo do próprio corpo um laboratório. Um homem silencioso que carregava segredos e “arrastava alguém no seu rastro”.



Lendo “Nove noites”, o premiado romance do Bernardo Carvalho, descobri este viajante que viveu entre os índios krahô. Ele morou numa pensão da Lapa, no Rio, e suicidou-se aos 27 anos em Carolina – uma cidadezinha morta no interior de Goiás. Cheia de mistérios, sua morte envolve problemas com afeto, dinheiro e família. Não necessariamente nesta ordem.



Criado em torno de cartas, entrevistas, fotos e relatos, este belo romance é baseado em fatos reais, mas inscreve uma forma contemporânea repleta de “memória e imaginação”.  O autor tematiza tempos modernos: o Brasil na era Vargas; os costumes e o desmatamento da selva; os roteiros de Rondon e dos irmãos Villa Boas;  o encontro de Buell Quain com Lévi-Strauss, em Cuiabá; e até a queda das torres americanas no 11 de setembro...



Sem nenhum desejo de ser governado pelos mortos, o narrador de “Nove noites” ouve os vivos que é uma beleza. Com a fome de quem atravessa o sertão e necessita de um rosto real, ele sabe que “a realidade é o que se compartilha”.

sábado, 11 de junho de 2011

Largo I


Dizendo de nordestinos e demais brasileiros como transeuntes que gostam de andar pelo Largo do Machado, no Rio, comecei esta viagem no domingo. Para atestar a geografia afetiva e cultural do Largo e seu entorno, citei alguns dos seus moradores mais ilustres desde os tempos do Império: José de Alencar, Machado de Assis, Graciliano Ramos, João Cabral, Moacir C. Lopes... Largo de Letras.


No Largo fica a Escola Estadual Amaro Cavalcante, senador potiguar que nasceu em Jardim do Piranhas – RN, onde morei durante anos. Nesta escola, a poeta Ana Cristina Cesar (objeto de minha dissertação de mestrado) estagiou como professora. Essa sintonia espacial se repete, a cada pleito, quando trabalho nesta escola como presidente de uma seção eleitoral. Com ou sem roteiro, ando a esmo pelo Largo que é uma beleza. Músculos e retinas estocados, gosto de mexer, sem prazos, nos tomos dos sebos e das estantes da livraria Empório das Letras. Lá, Denise e Sonia narram as melhores histórias, dão dicas e risadas. Largo ri.


Há no Largo bens gastronômicos aos quais recorremos como viciados.  A esfihra do Árabe com café quente, no balcão ou nas mesinhas, é pedida minha e de uma exímia leitora do sertão: Alexandra Moraes. Carioca florescida sertaneja na Casa da Leitura, nas Laranjeiras, ela sabe que o Largo – parodiando o sertão de Rosa e os habitantes da Barra –, é lugar onde os cercos não carecem de fechos. Largo não pede muro.


Redes e mantas coloridas da Paraíba, tapiocas de goma do Ceará, açaí e castanhas do Pará... O Largo dá saudades do Brasil. Mas quem tem saudades do Brasil na Barra? “A Barra é como se a gente estivesse num lugar que não é o Brasil” – diz orgulhosa, na tv, uma moça na Avenida das Américas. No Largo do Machado é diferente. Lá, com todos os timbres cariocas e sotaques estrangeiros, é como se a gente estivesse no Brasil. Largo é o Brasil.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Largo II


Para Numa Ciro e Leonardo Gandolfi

I


Continuo lendo a geografia afetiva do Largo. O Largo do Machado e seu entorno. Ratifica o trânsito e a predileção dos nordestinos pelo Largo e suas adjacências, a presença de vários artistas, escritores, professores, pesquisadores e produtores culturais que residem nesta região. Tem sido assim desde os tempos do Império até hoje, não é Jussara Santos?

Decepcionado com a tristeza da Europa, o escritor e deputado José de Alencar – conhecido como o patriarca do romance nacional – morou na rua Pinheiro Machado, nas Laranjeiras; hoje, o autor cearense senta petrificado num belo cruzamento do Flamengo, bairro onde viveu o poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto.


Quem também transitou pelo Largo e suas adjacências foi Graciliano Ramos. Ao sair da prisão da Ilha Grande, em 1937, o escritor e ex-prefeito alagoano encarou uma pensão no Catete. Ficava na rua Correa Dutra. Hoje essa rua vive repleta de motoboys nascidos na Tavares Bastos e em Campina Grande na Paraíba. Uma rua tipicamente carioca com alta taxa da oralidade nordestina.
  
II


Nascidos no Nordeste, alguns escritores contemporâneos continuam transitando no Largo e seu entorno. Ao lado do Largo, o ensaísta e professor Eduardo Portella continua ministrando o seu curso de pós-graduação no Colégio Brasil. O poeta e professor paraibano Aderaldo Luciano aparece nas aulas do mestre baiano, de quando em vez. Conterrâneos, os poetas Eli Celso da Silveira (Rua do Coração Perdido) e Nei Leandro (Dunas Vermelhas), conhecem muito bem o pedaço. A professora e poeta baiana Helena Parente Cunha, também. O cantor e compositor Jackson do Pandeiro conheceu muito bem a Glória.

Próximo ao Largo, brota a prosa marítima e sertaneja do escritor cearense Moacir C. Lopes. Autor de mais de 20 romances, entre eles “A Ostra e O Vento”, o ex-marinheiro viveu durante décadas na rua das Laranjeiras, onde autografou para mim, em 2007, “A ressurreição de Antonio Conselheiro e a de seus 12 apóstolos”. Como o título anuncia, neste seu ultimo romance Moacir relê Euclides da Cunha e os seus mitos mais produtivos: os sertões, Canudos e o Conselheiro.


O beato Antonio Conselheiro nasceu em Quixeramobim, no Ceará, onde nasceu também o professor Ary Pimentel. Pesquisador da UFRJ, ele transita pelo Largo, e estuda a literatura dos excluídos e da margem, num diálogo profícuo com as narrativas contemporâneas produzidas na América Latina.

domingo, 5 de junho de 2011

Largo III

Para Henrique Cairus (RJ) e Tetê Bezerra (RN)


I


Nordestinos e demais brasileiros, no Rio, adoram transitar pelo Largo do Machado. O Largo e suas adjacências – Catete, Glória, Lapa, Laranjeiras, Flamengo, o aterro, a baía da Guanabara... Alguns desses lugares eu conheci antes de chegar por aqui, através de canções populares ou das páginas dos romances do sertanejo José de Alencar e do carioca Machado de Assis.

Recordo uma passagem do romance “Esaú e Jacó”, onde o Bruxo do Cosme Velho diz: Viverei com o Catete, o Largo do Machado, a praia de Botafogo e a do Flamengo, não falo das pessoas que lá moram, mas das ruas, das casas, dos chafarizes e das lojas. ...Lá os meus pés andam por si. Há ali cousas petrificadas e pessoas imortais...

Narrativas e canções rendem o Largo e seu entorno. Um carioca me garante ser de olho no trânsito noturno do Aterro que um compositor cearense canta no corcovado quem abre os braços sou eu.

Nessa canção do Belchior, ouço o aboio melancólico dos vaqueiros nordestinos na hora do sol posto quando a treva se anuncia. Nessa letra, vejo o olhar luzidio do carioca noturno sem desejo de transcendência ou contemplação. Dentre outros motivos, pode ser por isso que o título da canção remete a duas coisas que caminham juntas: “Paralelas”.


II


Projeto do paisagista Burle Marx, o Largo soa como um espaço meio carioca, meio outro estado. Espaço onde gestos sertanejos e sotaques urbanos e cosmopolitas dialogam. Dialogam e convivem com a leveza das cores das mantas de Brejo do Cruz - PB e a mancha escura da pedinte da comunidade, em meio à beleza e violência de cada dia.


O Largo tem uma porção nordestina bem animada. Digo isso não só com base nos traços físicos dos porteiros e na oralidade dos garçons, nem por causa dos produtos da cultura popular, visíveis a céu aberto no entorno do Largo. Digo nordestino como jeito encontrado de ler o Rio por quem não nasceu no Rio.


Nordestino com um olhar aceso, às vezes desconfortável, perdido na cidade. Olhar que Clarice - criada no Nordeste - leu na feira nordestina de São Cristóvão. Ela leu, captou e colocou na retina de Macabéa nA Hora da Estrela. Segundo Caio F, aquela Macabéa é o Brasil.

sábado, 14 de maio de 2011

Canudos na Glória

Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?
- O que eu vejo é o beco.

Manuel Bandeira,"Poema do Beco"


Como outras paisagens cariocas, a Glória é um espaço relevante na obra do escritor pernambucano Manuel Bandeira. Na crônica “A festa de N. S. da Glória do Oiteiro",  publicada do livro "Crônicas da Província do Brasil" (livro editado em 1937 e 2006), Bandeira registra, mais uma vez, a sua relação memorial e afetiva com este bairro do Rio. Neste texto, o autor inscreve figurações do sertanejo no bairro onde morou os escritores Mário de Andrade e Pedro Nava, através de alumbradas lembranças, como esta:  

"Lembro-me bem do largo da Glória e da praia da Lapa da minha meninice: um desenho de Debret. Desapareceu o casarão do mercado que servia de caserna e despertou o interesse público quando abrigou por algum tempo as jagunças e os jaguncinhos trazidos de Canudos .”

domingo, 1 de maio de 2011

Livro que traumatiza e vinga

Acaba de ser publicado um pequeno ensaio de minha autoria: "Os sertões e alguma coisa do temperamento nacional”. O referido texto encontra-se na revista e-scrita do Curso de Letras da UNIABEU, Nilópolis, v. 2, Número 4, Jan.- Abr. 2011.


Resumo: Leitura de "Os Sertões", de Euclides da Cunha, atentando para as práticas culturais produzidas no espaço e no corpo do sertanejo, cujos reflexos podem ser lidos no imaginário e no “temperamento nacional”.


Palavras-chave: "Os Sertões"; Euclides da Cunha; Antonio Conselheiro; Imaginário; Corpo; Espaço.


Para ler o texto completo, acesse o PDF no link abaixo:
http://www.uniabeu.edu.br/publica/index.php/RE/article/view/105




quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Casa da Leitura em Laranjeiras

"Ao coração de uma casa, chega-se de olhos fechados. ... Esperava por ele uma boa roça de pasto, uma rede, um lençol alvo e uma conversa marcada por intervalos de silêncios."
.
Este trecho é parte do conto "A espera da volante", do livro Faca, de Ronaldo Correia de Brito. O conto será lido por mim, nesta quinta-feira, na Casa da Leitura. A referida leitura faz parte do evento V Arte de Laranejrias e Cosme Velho.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Sertão I


Tem uma crônica da escritora Rachel de Queiroz na qual ela diz, atribuindo a Santo Agostinho a assertiva, que os problemas são os cachorros de Deus. Ao descobrir essa crônica, minha querida aluna Favo de Mel escreveu-me inconformada. Segundo ela, essa cachorrada foi dita por Nietzsche, não por Agostinho.
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Para Favinho - é assim que a chamo desde o Internato - tem muita gente divina soltando os cachorros. Por isso, para ela, o mundo é mesmo uma grande cachorrada. Uma sinfonia de latidos. Um canil de cheiros. Milhões de rabinhos abanando.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Sertão de Serra Talhada II


...segue feliz nas travessias longas, pelos desvios das veredas...
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Euclides da Cunha, Os Sertões

domingo, 1 de agosto de 2010

Sertão de Serra Talhada III


Paragens de Lampião.
O curso violento das balas e a luz brotada da mais escura treva.
"... atravessando um esboço de deserto...." Floração da prosa com "a índole aventureira dos avós, antigos fazedores de desertos." (Euclides da Cunha).

quinta-feira, 29 de julho de 2010

eu venho lá do Sertão







 
 
 
 
 
 
 
 
Basta um brilho fugaz na noite e um homem se quebra como se fosse de vidro
 
Ricardo Piglia, Alvo Noturno
 
 

Floração da prosa no Sertão

Leio a Caderneta de Campo de Euclides da Cunha, editada pela Biblioteca Nacional. Este caderno é o nascedouro de Os sertões - livro publicado em 1902 e que as faculdades de Letras estão começando a ler. Segundo mestre Antonio Candido, o livro assinala "o fim do imperialismo literário".
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Autor que arengava com o Império, órfão de pai e homem aflito, Euclides e sua linguagem são extremamente contemporâneos. Em sua breve existência de 43 anos, o engenheiro fluminense de formação positivista habitou matas e margens. Cultivou desertos. Vivificou a diferença humana expressa na paisagem, no corpo, na fala do sertanejo.
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Leio também um dos Cadernos de Literatura do IMS dedicado a Euclides, com fotos de Canudos e ensaio de Walnice Nogueira, de quem leio No Calor da Hora. Todas essas leituras convergem para o curso Floração da prosa no Sertão que estou ministrando na Casa da Leitura, em Laranjeiras, até 14 de Setembro. O curso ratifica a tese de Willi Bolle que lê Grande Sertão: veredas como uma releitura de Os sertões, o livro vingador.
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Na próxima terça a aula terá Os Sertões como tema, com fotos especiais de Serra Talhada no sertão pernambucano. Paragens de Lampião. Estou aprendendo muito neste curso. Os inscritos criaram um clima dialógico, afetivo, tornanado as formas de participação bastantes produtivas. Ainda restam algumas vagas para quem desejar certificado. Todos convidados.