e todo caminho deu no mar

e todo caminho deu no mar
"lâmpada para os meus pés é a tua palavra"

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

2010

May the Force be with you


tudo é uma questão de manter
a MENTE quieta/ a ESPINHA ereta /e o CORAÇÃO tranquilo

Walter Franco

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Escolhas no JB


Clique em cima para ampliar a leitura

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

A mais nova imortal da ABL




A professora e ensaísta Cleonice Berardinelli tem 93 anos e continua dando aulas. Especialista em literatura portuguesa, mais especificamente em Luis de Camões e Fernando Pessoa, ela é professora emérita da UFRJ e da PUC.

Exímia leitora de Eça de Queiroz e José Saramago, dentre outros autores lusos, a autora escreve no link abaixo sobre Pretos, Índios e Judeus nos Sermões de Vieira.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Chico Alvim, Elefante


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Foto de Leonardo S.
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Torre

Nuvem e sino
Ouro na treva
da hora adversa

A luz perdoa

Na alma a coroa
de espinhos
da dor mais profunda
desfaz-se na tarde

A torre refaz
o azul, a aragem

sábado, 12 de dezembro de 2009

Niver de BH












A cidade de Belo Horizonte completa hoje 110 anos. Belô é a terceira capital dos mineiros (depois das queridas cidades de Mariana e Ouros Preto), e um dos seleiros do Modernismo Brasileiro (remember alguns dos seus habitantes: Carlos Drummond, Guimarães Rosa, Emílio Moura, Abgar Renault, Fernando Sabino, João Alphonsus, Pedro Nava, Aníbal Machado, Ascânio Lopes, Alberto Campos, Milton Campos, Mário Casasanta, Juscelino Kubitschek...)

A identidade de Beagá é narrada de forma poética e comovente na premiada novela Outono Atordoado (Entre a raiz lusitana e a antena mineira )do escritor e professor mineiro Edgard Pereira:

Se comparada às milenares cidades européias e asiáticas, Belo Horizonte ainda nem entrou na adolescência.

... Os notáveis que a planejaram não se deram conta da sua localização na encosta de uma (quase extinta) Serra do Curral... Talvez venha daí a sua vocação para o imprevisto, para as coisas diferentes... Talvez venha daí – dessa inclinação geográfica – a propensão dos seus habitantes para a queda. Ela foi construída em risco, em perigo.

... Na encosta de serra mutilada, a Cidade guardou a sina das quedas, a inclinação natural para o lado esquerdo, as revoluções oblíquas (políticas e culturais).

Borgeanas









G
L
Ó
R
I
A

Rio

do tempo em que o Pedro Nava vivia aqui


1- O dever de todas as coisas é ser uma felicidade; se não são uma felicidade são inúteis ou prejudiciais.


2- O diálogo tem que ser uma pesquisa e pouco importa que a verdade saia da boca de um ou da boca de outro.


3- Os astros e os homens voltam ciclicamente.


4- Não sem grave assombro compreendeu. Naquela noite, dos seus olhos mortais, a que descia agora, esperavam-no também o amor e o risco. Ares e Afrodite, porque já adivinhava (porque já o cercava) um rumor de glória e de hexâmetros...


5- ...porque o que é bom já não é de ninguém, nem sequer do outro, mas sim da linguagem ou da tradição.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Sobre a Vírgula









Primeira sede da ABI





Muito legal a campanha dos 100 anos da ABI
(Associação Brasileira de Imprensa)


Vírgula pode ser uma pausa... ou não.

Não, espere.
Não espere.


Ela pode sumir com seu dinheiro.

23,4.
2,34.


Pode criar heróis.

Isso só, ele resolve.
Isso só ele resolve.


Ela pode ser a solução.

Vamos perder, nada foi resolvido.
Vamos perder nada, foi resolvido.


A vírgula muda uma opinião.

Não queremos saber.
Não, queremos saber.


A vírgula pode condenar ou salvar.

Não tenha clemência!
Não, tenha clemência!


Uma vírgula muda tudo. ABI: 100 anos lutando para que ninguém mude uma vírgula da sua informação.


Detalhes Adicionais


SE O HOMEM SOUBESSE O VALOR QUE TEM A MULHER ANDARIA DE QUATRO À SUA PROCURA.

Se você for mulher, certamente colocou a vírgula depois de MULHER !!!!!!!
Se você for homem, colocou a vírgula depois de TEM ...
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p.s. Enviado por e-mail pelos professores da UFRRJ Fernando Vieira e Sara Araújo

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Frases de 2009















Ano ímpar: 2009,

Política, esporte, música, religião, literatura, teoria literária e medicina. Esses foram os universos nos quais colhi frases representativas de 2009. É claro que essa colheita é bastante arbitrária; reflete apenas algumas das minhas imagnes, leituras e escritas deste ano.

Existem múltiplas e infindas frases e formas que definem um ano. Copiei, aí no título, a forma do Benjamim Moser, biógrafo americano de Clarice Lispector, cujo título do volume é Clarice, (2009). Antes de dizer, na Praia Vermelha, que a liberdade de Clarice foi uma conquista muito sangrenta, Moser pisou na bola: afirmou que CL era “mais mística do que escritora”. Mas ele acerta na vírgula do título que tem como ponto de partida a própria autora. É exatamente com uma vírgula que ela inicia o seu romance Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres (1974).

Quem também não obedece as normas de pontuação e o rigor sistemático e fascista da gramática é o escritor José Saramago, Prêmio Nobel de Literatura de 1998. Após detonar as “insolências reacionárias” da Igreja Católica e chamar de cínica Vossa Santidade, o autor de Caim (2009) dialoga com o próprio Criador, assim, nestes termos: “E tu quem és para pores à prova o que tu mesmo criaste, Sou o dono soberano de todas as coisas, E de todos os seres, dirás, mas não de mim nem da minha liberdade, Liberdade para matar, Como tu foste livre para deixar que eu matasse a abel quando estava na tua mão evitá-lo,...”


Quem não evita lembranças políticas é o jornalista Leandro Fortes. Ele tem na memória imagens tenebrosas do FHC. Algumas delas são narradas no seu blog Brasília, eu vi, no longo texto "Adeus, FHC", com epigrafe de Guilherme Arantes: “Adeus também foi feito pra se dizer”. Uma dessas imagens mais fortes é a do FHC inaugurando “uma bica (isso mesmo, uma bica!) de água em Canudos, na Bahia, ao lado de ACM, por quem tinha os braços levantados para o alto, a saudar a miséria, literalmente, pelas mãos daquele que se sagrou como mestre em perpetuá-la.”

Mestre mesmo, mestre de verdade é o Antonio Candido aos 91 do segundo tempo (em idade, ele só perde para a professora Cleonice Berardinelli, 93, ainda dando aulas). A lucidez do mineiro continua iluminando gerações, embora eu não concorde com ele quando afirma que o seu livro Formação da Literatura Brasileira não esteja a altura de textos como Casa-Grande & Senzala e Raízes do Brasil. Concordo mais com Carlito Azevedo que assume haver sido bobo ao acreditar “no poema como essência.” Agora o poeta crê em outras. Da poesia de 2009 ficaram os poemas li(n)dos por Maria Bathânia no recital da PUC e os sambas vitalizados que ela canta no Cd Encanteria.

Num mundo sem remédios para a cura do Mal de Alzheimer – essa é a reclamação do médico e escritor Dráuzio Varella – resta ouvir as assertivas do Obama: “Esse é o cara! Eu adoro esse cara!" Bom mesmo é saber que o cara mora aqui, e que 2009 foi o ano no qual ele ajudou o Rio a sediar as Olimpíadas de 2016. Que vamos! Saudades do Futuro. O meu começou com a visão de sabres de luz e a leitura das Passagens do Walter Benjamin. Por isso nunca vou esquecer 2009,

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Frases do Ano I












Caetés (PE), 27 /10/45



01 - A crise foi causada por comportamentos irracionais de gente branca de olhos azuis, que antes pareciam saber de tudo, e, agora, demonstram não saber de nada.
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Março


02 - Eu acho que falta nestes país mais dirigentes que chorem.

03 - Se Jesus Cristo viesse para cá, e Judas tivesse a votação num partido qualquer, Jesus teria de chamar Judas para fazer coalizão.

Outubro


04 - Se a gente tiver medo de ensinar o combate ao racismo e educação sexual nas escolas, vai ficar mais difícil depois.

05 - De 1909 a 2002 foram construídas 96 unidades. Mas até 2010 serão 214 novas escolas técnicas.

06 -Eu acho que oito anos é de bom tamanho para um democrata.

Novembro

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Frases do Ano II








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"Esse é o cara! Eu adoro esse cara!"

Barack Obama, Presidente dos Estados Unidos, Prêmio Nobel da Paz 2009 e autor de A Origem dos Meus Sonhos, sobre Luiz Inácio Lula da Silva, no encontro dos líderes do G-20, em Londres, Abril de 2009

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Frases do Ano III



O mundo ama o Rio.

O Rio é a esperança da África um dia sediar as Olimpíadas.



Carlos Arthur Nuzman, Presidente do COB, TV Brasil, 2009

domingo, 29 de novembro de 2009

Frases do Ano IV




... Este novo Frankestein espetacular, que realizou em sua metamorfose milionária e sinistra o estatuto autoritário da técnica, do dinheiro e da mercadoria sobre o corpo humano e sobre as relações do sentido das coisas, acabou por virar, e revelar, o pesadelo americano...


Tales Ab’sáber, “Ruínas do pop”, Folha de São Paulo, Julho de 2009

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Frases do Ano V



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"E tu quem és para pores à prova o que tu mesmo criaste..."
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Às insolências reacionárias da Igreja Católica há que responder com a insolência da inteligência viva, no bom sentido, da palavra responsável. Não podemos permitir que a verdade seja ofendida todos os dias pelos presumíveis representantes de Deus na terra, a quem na realidade só interessa o poder.

José Saramago, Agência Lusa, Outubro, 2009.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Frases do Ano VI









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Ela era mais mística do que escritora.


A beleza dela incomodava as pessoas.


Sua liberdade foi uma conquista muito sangrenta.



Benjamim Moser, biógrafo americano de Clarice Lispector
UFRJ, Praia Vermelha, 24 Nov, 2009

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Frases do Ano VII





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Fernando Henrique Cardoso foi um presidente da República limítrofe, transformado, quase sem luta, em uma marionete das elites mais violentas e atrasadas do país. ...Em 1994, rodei uns bons rincões do Brasil atrás do candidato Fernando Henrique, como repórter do Jornal do Brasil. Lembro de ver FHC inaugurando uma bica (isso mesmo, uma bica!) de água em Canudos, na Bahia, ao lado de ACM, por quem tinha os braços levantados para o alto, a saudar a miséria, literalmente, pelas mãos daquele que se sagrou como mestre em perpetuá-la. Numa tarde sufocante, durante uma visita ao sertão pernambucano, ouvi FHC contar a uma platéia de camponeses, que, por causa da ditadura militar, havia sido expulso da USP e, assim, perdido a cátedra. Falou isso para um grupo de agricultores pobres, ignorantes e estupefatos, empurrados pelas lideranças pefelistas locais... Uns riram, outros se entreolharam, eu gargalhei: “perder a cátedra”, naquele momento, diante daquela gente simples, soou como uma espécie de abuso sexual recorrente nas cadeias brasileiras. Mas FHC não falava para aquela gente, mas para quem se supunha dono dela.


Leandro Fortes, "Adeus, FHC", Blog Brasília, eu vi, 2009

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Frases do Ano VIII










... mais recentemente, a FLB vem sendo elevada a alturas que não merece. De fato, alguns o situam ao lado de Casa-Grande & Senzala e Raízes do Brasil como interpretação do Brasil, o que é constrangedor pelo exagero e equivocado como juízo. Não apenas a sua escala é incomparavelmente mais modesta, mas as interpretações pressupõem a abordagem da realidade social diretamente registrada na documentação, sendo por isso efetuada por historiadores, sociólogos, economistas. Ora, a literatura é uma transfiguração da realidade, de maneira que não pode servir de base para as interpretações.
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Antonio Candido, Zero Hora, 2009
(50 anos da publicação da FLB)

domingo, 22 de novembro de 2009

Frases do Ano IX



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...já fui um bobo que acreditava no poema como essência. Hoje o arrasto o máximo possível para junto da prosa, onde pelo menos não vejo a linguagem andar com aquele narizinho empinado de quem trava relações privilegiadas com o oculto e o mistério. Como é ridículo agir assim no chiqueiro cotidiano, espremidos entre o favelizado comércio criminal e o fascismo assassino dos choques de ordem. E olha que eu vim de uma ideologia estética que considerava a linguagem poética em oposição à linguagem cotidiana, que seria “automatizada” e “não-criativa”, mera moeda de troca. Hoje até os formalistas russos entenderiam que a linguagem poética é que está automatizada na sua caixinha de sonoridades, enquanto a linguagem cotidiana exerce a criatividade possível e impossível de quem enfrenta o contato furioso da existência.

Carlito Azevedo, Jornal do Brasil, 2009

sábado, 21 de novembro de 2009

Frases do Ano X



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"No mundo atual está se investindo cinco vezes mais em remédios para virilidade masculina e silicone para mulheres do que na cura do Mal de Alzheimer. Daqui a alguns anos teremos velhas de seios grandes e velhos de pau duro, mas eles não se lembrarão para que servem "


Dráuzio Varella, médico e escritor

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Oração Pela Libertação da África do Sul

Se o rei zulu já não pode andar nu
Salve a batina do Bispo Tutu

Ó Deus do céu da África do Sul
Do céu azul da África do Sul
Tornai vermelho todo sangue azul

Já que vermelho tem sido todo sangue derramado
Todo corpo, todo irmão, chicoteado, yê
Senhor da selva africana, irmã da selva americana
Nossa selva brasileira de Tupã
Senhor irmão de Tupã, fazei
Com que o chicote seja por fim pendurado
Revogai da intolerância a lei
Devolvei o chão a quem no chão foi criado

Ô Cristo Rei Branco de Oxalufã
Cristo Rei Branco de Oxalufã
Zelai por nossa negra flor pagã

Sabei que o papa já pediu perdão
Varrei do mapa toda escravidão

Gilberto Gil

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Dia Mundial da Filosofia




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Aristóteles - Filósofo grego, discípulo de Platão e precptor de Alexandre
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Comemorado na terceira quinta-feira do mês de novembro, o Dia Mundial da Filosofia foi instituído pela UNESCO - Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura.

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Toda ação principia mesmo é por uma palavra pensada.

Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas

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... pensamentos que vêm com pés de pomba dirigem o mundo...

Nietzsche, Ecce Homo

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O pensamento, por si mesmo, todavia, não move coisa alguma, mas somente o pensamento que se dirige a um fim e é prático; realmente, esta espécie de pensamento dirige também a atividade produtiva.

Aristóteles, Ética a Nicômaco

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Lendo no metrô

Foi quando a luz
voltou e vimos
o rosto da jovem
que se picava junto
à mureta do Aterro,
a camiseta salpicada,
a seringa suja.
“Nenhum poema
é mais difícil
do que sua época”,
você disse
em meu ouvido
sem que eu soubesse
se era a ela que se
referia ou se ao livro
que passava das mãos
para o bolso
da jaqueta.
Distinguimos
lá longe
a Ilha Rasa,
calçamos
os tênis
e seguimos
sem atropelo
sentido enseada.


Carlito Azevedo, Monodrama, 2009

domingo, 15 de novembro de 2009

Ternura Explicada



Para Claudia Fabiana, amiga querida que fez a foto da Ana Kutner com o Paulo José

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A peça Um Navio no Espaço ou Ana Cristina Cesar inicia pelo “Epílogo” do livro mais famoso da poeta: A teus pés. Começa com a mala, as luvas e os cartões postais que a narradora passa. Essa cena inicial é um belo achado. Imagem repleta de alegria e tesão que, de cara, fisga a platéia. Ana Kutner passa literalmente os cartões - e as luvas - à platéia. Quem estava nas três primeiras filas conferiu. O meu cartão é uma ilustração do Giorgio Berto que, sintomaticamente, fala de martírio. Vou guardar este cartão meio desbotado (e sincrônico) nos meus arquivos mais secretos.

Paulo José faz... Paulo José. Ele é o diretor dos Casos Verdades que a TV Globo apresentava nos anos 80. Como analista de textos da TV, Ana C analisava, recém chegada de Essex, os tais textos. “Espinafrava”, segundo o ator, estes programas televisivos. Somente quando leu A teus pés, o ator entendeu melhor essas análises. Agora ele narra, canta, escreve, indaga... Fala como ator, autor, leitor... No seu discurso ecoa as vozes do pai e interlocutor da Ana C. Sua atuação - didática, afetiva - auxilia em muito na compreensão dos roteiros da vida e da obra da poeta que dizia não conseguir explicar a própria ternura, e afirmava não saber que "virar pelo avesso é uma experiência mortal".

A peça mantém intertexto com os autores modernos e amados por Ana. Lá estão Baudelaire, Mário de Andrade, Fernando Pessoa, Jorge de Lima... Presentes estão também as vozes da geração da Contracultura, como Torquatro Neto e Caio Fernando Abreu. Caio F, segundo Heloísa Buarque de Hollanda, é o masculino de Ana C. Por isso os trechos de Morangos Mofados dialogam, de forma certeira, com os escritos de Ana C, sejam eles cartas, diários, ensaios ou poemas... Até os Cadernos Terapêuticos da poeta surgem na reta final como um dos principais “personagens” da peça.

Os cenários (misto de navio-trapézio-cadeira-balanço...) merecem mencão especial. Os vídeos, os livros, a luz e a trilha sonora acentuam, de forma leve e exata, o ritmo dos diálogos e dos atores em cena. Nada é gratuito. O grito final do Paulo, na hora do salto da poeta, ecoa após o próprio salto. Assim como o texto da poeta, esse grito perdura. Como os poemas e as micro narrativas de Ana, a peça pede biz. Feito bliss e sua perene procura. Ternura, enfim, explicada.

sábado, 14 de novembro de 2009

Lula e Ana C.



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Dizem que na pré-estréia do filme Lula, o filho do Brasil, em Brasília, até adversário saiu comovido. Na sessão que o diretor Fábio Barreto* promoveu na quinta-feira passada, aqui no Rio, não foi diferente. Muitos dos convidados saíram "com cara de choro", segundo o Joaquim da Coluna Gente Boa.

"É um filme de esclarecimento da alma humana. O que a gente pode fazer se o Lula é o maior estadista do século?", perguntou Jorge Mauther. O filme só entra em cartaz no primeiro dia de 2010. Prometo comentar aqui no mesmo dia.

Enquanto isso, espero a Primavera dos Livros, a árovre de Natal da Lagoa e a vinda da minha amiga TT Bezerra. Hoje vou ver a peça sobre a vida e obra da Ana C. Amanhã comento. Sem apagão, please, que ninguém é bobo...


* Para quem tem problema com o fato do Lula não ser formado, segue uma informação inútil feito o problema: o diretor do filme, assim como Machado de Assis, também não possui formação acadêmica.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Adriano Espínola

Indagado acerca de Malindrânia - o título do seu novo livro, o poeta e professor diz: "trata-se de uma cidade imaginária, impossível, utópica, onde o personagem (Dom Quixote) do conto homônimo tenta chegar."

Malindrânia











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Este é o título do novo livro do poeta imperador Adriano Espínola. Estudioso da obra de autores como Gregório de Mattos (As Artes de Enganar) e Sousândrade (Melhores Poemas de Sousândrade), o autor do premiado Praia Provisória finaliza a década prometendo outras páginas para o mundo das letras. Nesta sexta, na Travessa de Ipanema. Clique no flyer para ampliar a leitura.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

niver de Nat


















Hoje é o niver de Natália Simões. Além de estudar Literatura e Teatro, ela é a moça mais bonita da Glória. Por isso, transformo em post um trecho do seu comentário em torno do meu texto sobre o livro Saga Lusa, de Adriana Calcanhoto. Ouçam Natália:

Parece ser bem prazeroso, além de ter a questão da contemporaneidade e do pertencimento (quer queira ou não, a gente sempre vai tentar levar a leitura para as nossas experiências pessoais, fazendo-se reconhecer nos textos (reconhecimento este da pessoa em si ou de uma situação defrontada). Acho que o imaginar ou o pensar a literatura já está carregado dessas questões subjetivas. Eu discordo... quando dizem que a literatura é completamente independente do reconhecimento. Não sei, mas acho que vc cria em cima de uma criação. Este ato de criar não é puro, mas já está carregado de um conhecimento, de uma experiência pessoal. Quem nunca se imaginou na “pele” de algum personagem? No caso deste livro, essa pele parece estar mais “epidérmica” ao leitor moderno e “encriseado”. ... considerando esse texto da Adriana tão atual (não só por serem experiências contadas, o que dá um tom de "familiaridade", mas sim por tratar-se de coisas tão comuns ao ser humano, como o somatório de situações que podem levar o indivíduo a um surto); é possível inferir o prazer de tal leitura. Não sei se foi proposital o que vc escreveu, mas quando li a seguinte frase- "Diz muito da nossa condição doída, mas sem drama, encarando a Coisa"- , acabei não percebendo o acento da palavra doída e li como "doida". Achei fantástico, pq temos esse lado doido de encarar as coisas, e que, inclusive, é exigido pela sociedade. Quando percebi a tonicidade, achei mais legal ainda, porque remete ao sofrimento que a obrigação dessa "doidera" nos causa. É preciso ser doido sem dor (ou melhor, sem aparentá-la).

Leonardo Cohen – That’s an order!

l
Give me back my broken night
my mirrored room, my secret life
it's lonely here,
there's no one left to torture
Give me absolute control

over every living soul
And lie beside me, baby,
that's an order!

The Future,1992

domingo, 8 de novembro de 2009

Leonard Cohen – o ex-estranho


So come, my friends, be not afraid
We are so lightly here
It is in love that we are made
In love we disappear --
All the maps of blood and flesh
Are posted on the door

Boogie Street, 2001

sábado, 7 de novembro de 2009

Leonard Cohen -- as canções que você fez para mim


Ring the bells that still can ring
Forget your perfect offering
There is a crack in everything
That's how the light gets in

Anthem,1992

Graffitis



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Não fosse por você eu não notava essa cidade


O meu amor pelas misérias
me leva,
me trouxe,
roça o que interessa
e fez de mim alguém que eu sou hoje
...

Adriana Calcanhoto, 1992

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Lévi-Strauss (1908 - 2009)








No Brasil
na década
de 30
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"Uma civilização proliferante e sobreexcitada perturba para sempre o silêncio dos mares! Os perfumes dos trópicos e o frescor das criaturas estão viciados por uma fermentação de bafios suspeitos, que mortifica nossos desejos e fada-nos a colher lembranças semicorrompidas."
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Tristes Trópicos, 1955

Lévi-Strauss lê Montaigne


Trecho da entrevista de Lévi-Strauss – o fundador da antropologia moderna, para o Jornal Folha de São Paulo, em 1993.
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FOLHA - O SENHOR SEMPRE TOMOU O PARTIDO DA CIÊNCIA, MAS, NA RELEITURA DE MONTAIGNE QUE FAZ EM A HISTÓRIA DO LINCE MOSTRA TAMBÉM SUAS DISTÂNCIAS EM RELAÇÃO A UMA FÉ NO CONHECIMENTO. O SENHOR SE TORNOU MAIS CÉTICO EM RELAÇÃO À CIÊNCIA?

LÉVI-STRAUSS - A lição que tirei de Montaigne é que estamos condenados a viver e pensar simultaneamente em vários níveis e que esses níveis são incomensuráveis. Há saltos existenciais para passar de um a outro. O último nível é um ceticismo integral. Mas não se pode viver com ceticismo integral. Seria preciso se suicidar ou se refugiar nas montanhas. Somos obrigados a viver ao mesmo tempo em outros níveis em que esse ceticismo está moderado ou totalmente esquecido. Para fazer ciência, é preciso fazer como se o mundo exterior tivesse uma realidade e como se a razão humana fosse capaz de compreendê-lo. Mas é "como se".

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Identidade













... é próprio da nossa condição subjetiva - de nossa precária condição - fixarmo-nos num determinado modo de funcionamento, insistirmos num determinado modelo econômico, aferrarmo-nos a uma certa posição na existência. Fixação, insistência e apego que, apesar de serem construídos, apesar de serem ficções, nos fixam, nos constrangem. Fixam em nós um modo de ser tão monótono, tão repetitivo, que acabam por engendrar em nós uma identidade, um nome, um destino.
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A Psicose, Neusa Santos Souza

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

"A morte... meu personagem predileto"


1983 a.c.

ceifo poesia
no teu pasto

cometo crime
com requinte
no teu pique

redomo feras
da paixão vi-
lã via verbo

tecemos fios
dos Escritos...
e Inéditos...

pela morte
eles safam-se
no teu gesto

saídas apuram
A teus pés

sábado, 31 de outubro de 2009

Sincronia Estelar












Minha querida amiga Adi envia o seguinte convite de niver repleto de sincronia. Coisa de quem sabe haver "uma lei invisível no ar". Gesto de quem ratifica roteiros de olho na seguinte lição Jungiana: o futuro se prepara bem antes no inconsciente. Por isso alguns videntes podem ler a matemática divina do tempo. A sintaxe de projetos e afetos por vir. O convite:
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Amigos,
Próximo dia 2 de novembro é o dia dos mortos, mas eu vou comemorar um ano mais que me acrescenta. Chego à minha primeira revolução solar pois são 33 os anos do ciclo do sol. E, pesquisando, soube que o número não desmerece atenção porque
33 são os cantos de Dante,
33 os deuses atmosféricos do livro do Zen,
33 os graus da maçonaria,
33 as divindades invocadas nos cantos do Rig-Veda,
33 os Arhats da hierarquia budista
33 anos governou Davi e por
33 anos esteve de pé o templo do Salomão. Por fim,
33 eram os anos que Jesus e Krishna tinham quando morreram e, o mais importante,
33 foram os filmes onde Elvis Presley apareceu (não sei se atuou).

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Lendo no metrô I




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A leitura nietzcheana de Flavio Boaventura sobre a poesia de Waly Salomão abre com o seguinte poema:

Amante da Algazarra

Não sou eu quem dá coices ferradurados no ar.
É esta estranha criatura que fez de mim seu encosto.
É ela !!!
Todo mundo sabe, sou uma lisa flor de pessoa,
Sem espinho de roseira nem áspera lixa de folha de figueira.

Esta amante da balbúrdia cavalga encostada ao meu sóbrio ombro
Vixe!!!
Enquanto caminho a pé, pedestre - peregrino atônito até a morte.
Sem motivo nenhum de pranto ou angústia rouca ou desalento:
Não sou eu quem dá coices ferradurados no ar.
É esta estranha criatura que fez de mim seu encosto
E se apossou do estojo de minha figura e dela expeliu o estofo.

Quem corre desabrida
Sem ceder a concha do ouvido
A ninguém que dela discorde
É esta
Selvagem sombra acavalada que faz versos como quem morde.


Waly Salomão, Tarifa de Embarque

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Lendo no metrô II



















"Na marcha-rancho de Sérgio Sampaio, por outro lado, não há redenção: tanto a melodia principal quanto a do estribilho são em modo menor; e se as estrofes falam em derrota, o estribilho limita-se a afirmar que o desejo do eu lírico é no sentido de romper com a derrota, não que o rompimento seja possível."
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Paulo Henriques Brito. Eu quero é botar meu bloco na rua, de Sérgio Sampaio. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2009. (Col. Língua Cantada).

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Lendo no metrô III











Hoje, se me pergunto por que amo a literatura, a resposta que me vem espontaneamente à cabeça é: porque ela me ajuda a viver. Não é mais o caso de pedir a ela, como ocorria na adolescência, que me preservasse das feridas que eu poderia sofrer nos encontros com pessoas reais; em lugar de excluir as experiências vividas, ela me faz descobrir mundos que se colocam em continuidade com essas experiências e me permite melhor compreendê-las...
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Tzvetan Todorov. A Literatura em Perigo. Rio de Janeiro: Difel, 2009.

domingo, 18 de outubro de 2009

Lendo no metrô IV












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"... o único grande caso de amor que Caio teve foi com a escrita: seu êxtase era entrar em sintonia com sua voz interna e, através dela, com a alma humana."
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Paula Dip, Para Sempre Teu, Caio F. Rio de Janeiro: Record, 2009

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Lendo no metrô V


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Kafka: "A partir de certo ponto, não há volta. Esse é o ponto que se deve atingir".
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Susan Sontag, Diários. São Paulo: Cia. das Letras, 2009.

domingo, 11 de outubro de 2009

Maldição move, bênção relaxa?

Um dos temas principais do filme é fazer com que os organismos percebam que devem viver juntos para o benefício mútuo. Não apenas os humanos... tudo na galáxia é parte de algo muito maior. É uma questão de aquietar a mente para ouvir a si mesmo.
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Os mitos o ajudam a ter a sua própria saga de herói, a encontrar a sua individualidade e o seu lugar no mundo.
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Você não precisa entrar numa luta de sabres de luz ou viajar em espaçonaves para se tornar um herói. São pequenas coisas que acontecem todos os dias na sua vida... ... você pode ajudar alguém, ter compaixão, tratar as pessoas com dignidade...
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(George Lucas fala p/ Bill Moyers sobre Guerra nas Estrelas in O Poder do Mito)

sábado, 10 de outubro de 2009

Sabre da Paz


1 - Filho de economista com antropóloga, ele estudou Direito e Ciências Sociais em Harvard e Columbia. Trabalhou como professor.

2 - Viveu na Indonésia e no Havaí. Viu, pegou e tirou ondas. Ouvido treinado por Males Davis e U2, assume que tragou.

3 - Tem sorriso firme e humor suficiente para comparar-se ao vira latas que, no ano passado, procurava para a filha.

4 - Em português, o seu nome - AMA - conjuga o verbo amar no presente do indicativo e no imperativo.

5 - Aos 48 anos, é o primeiro presidente americano em exercício a ganhar um Nobel da Paz. Promete.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Nobel de Literatura 2009


Torci pelo escritor israelita Amóz Oz. Mas a Academia Sueca, em Estocolmo, decidiu doar o prêmio de US$ 1,4 milhão para a escritora romena Herta Müller, que nunca li. Radicada na Alemanha, ela é autora de "O compromisso" (Ed. Globo, 2004). Segundo a justificativa da Academia, "a concentração de sua poesia e a franqueza de sua prosa, retrata a paisagem dos despossuídos". Pergunta da minha tia de Caicó: a franqueza, na literatura, passa a ser critério de valor?

terça-feira, 6 de outubro de 2009

As Cidades Visíveis I

A cidade de Veneza representa o mito do espaço que inspira a criação. Desperta os afetos. Cidade que intensifica desejos e paixões. Produz sonhos. A partir de Veneza, o escritor Italo Calvino erigiu 52 cidades em seu livro As Cidades Invisíveis. Todas essa cidades possuem nomes femininos: Armila, Isaura, Olinda, Tamara...

Nesse livro, o viajante veneziano Marco Pólo descreve - para o rei Kublai Khan - essas cidades. As cidades do seu império. Elas são projetadas primeiro no plano onírico. São espaços sonhados. Khan sonha as cidades e manda Marco Polo conferir. Elas são agrupadas por temas como: memória, desejo, símbolos, trocas, nomes, mortos, céu...
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A leitura dessas cidades deixa várias lições. Sugere questões como estas: o que é que uma cidade faz com os sonhos e desejos de quem a atravessa? Quais tipos de memórias a cidade propõe para os seus habitantes? Quais formas e gestos a cidade nos leva a fabricar (no corpo e na mente)?
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Ferreira Gullar diz ser a cidade São Luiz, onde nasceu, a sua doença. Para Clarice Lispector, a primeira verdade está na terra e no corpo de cada um. A cidade número 1 é, portanto, a verdade e a doença de cada um. Cada um tem a verdade e a doença de onde nasceu. Seja Caraúbas ou Natal, Juiz de Fora ou São Paulo (que aparecem no vídeo), Atlântida ou Pasárgada...

sábado, 3 de outubro de 2009

As Cidades Visíveis II

Vídeo do cineasta Fernando Meireles ("Cidade de Deus" e "Ensaio sobre a Cegueira")

Aqui/ amanhece como em qualquer parte do mundo/ mas vibra o sentimento/ de que as coisas se amaram durante a noite. (Drummond, "Retrato de uma cidade")

"Eu acho que falta nestes país mais dirigentes que chorem"

(Lula, sobre o seu choro após o anúncio do Rio 2016)

terça-feira, 29 de setembro de 2009

As Cidades Visíveis III

Nas sacadas dos sobrados/Da velha São Salvador/Há lembranças de donzelas,/Do tempo do Imperador./Tudo, tudo na Bahia/Faz a gente querer bem/A Bahia tem um jeito,/Que nenhuma terra tem!

(Dorival Caymmi, "Você já foi a Bahia?")

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

As Cidades Visíveis IV

Ouro Preto nos olha. Mas a cidade não se entrega ao primeiro olhar de quem a vê. Seus mais de trezentos anos emprestam-lhe a segurança de quem sabe ser o tempo pai da forma. Suas torres, fachadas, treliças, janelas e vãos (fechados ou luzidios) espreitam-nos, possibilitando um diálogo óptico através do qual mais somos vistos do que vemos. Em Ouro, a luz é sem data, diz Cecília Meireles. Uma luminosidade suave (nunca indecisa) namora a pele secular das paredes – lição que nos ensina serem a leveza e a superfície os princípios vitais da existência, da criação.

"Ouro Preto chama Paris"

(Milton Nascimento e Wilson Lopes, "Coisas de Minas")

domingo, 27 de setembro de 2009

As Cidades Visíveis V

Paris é um grande salão de biblioteca atravessado pelo Sena.

(Walter Benjamin, Rua de Mão Única)

Paris... é uma cidade que se consulta como uma encliclopédia...

(Ítalo Calvino, Um Eremita em Paris)

Ninguém deveria morrer sem ver a luz de Paris

(Maria Bethânia)

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

As Quatro Estações

Em alguns lugares de MG, como Ouro Preto, podemos viver num único dia as 4 estações. Com certas pessoas não é diferente: todas as estações podem ser vividas num curto espaço de tempo. Mesmo que, no inverno, o corpochova e a almacolha. Mesmo que, no verão, o corpo-árvore e a alma-nave. ...o corpo adube e a alma (a)flore na primavera. E, no outono, o corpo urre e a alma grite. Mesmo que. Mesmo.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Primavera

Um amigo poeta e professor recorta trechos do meu texto "Caio 68", publicado na Revista Terceira Margem 19, UFRJ. Diz ele por e-mail:
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Selecionei esses trechos de seu artigo, muito bom!, sobre Caio 68, que me tocaram direta ou indiretamente:


* Trata-se de um imaginário que elege o desejo como algo produtivo e que contém elementos técnicos e maquínicos...

* O século XX, dando mais ênfase à visibilidade e, portanto, bem mais cinematográfico do que literário...

* Como Clarice, ele filia-se a uma linhagem literária onde a repercussão dos fatos e as possibilidades epifânicas da linguagem dizem geralmente muito mais que os próprios fatos da narrativa.

* ...os põe em contato com o lado romântico e desejante de cada um em plena modernidade irônica.

* Quem também escancara a marca desse discurso da perda e do desencanto oriundos em grande parte da quebra das utopias e do fim dos projetos grupais...

* Seus personagens decidem plantar morangos em pleno edifício metropolitano. São gestos e coisas de quem, como leitor de Clarice Lispector, acredita em “pequenas epifanias”. A partir dessa crença cria-se outra visibilidade. Outras categorias de visão. Outras formas de traçar roteiros.

* ... engendrando esta narrativa do olhar invisível. São eles: a melancolia lusa, a sensualidade afro-tropical e algumas gramas da dramaticidade espanhola, seus “vendavais de ciúmes e impulsos homicidas”...

* Eles sabem que para colher o sim dos morangos, é preciso remover o mofo do olho, o fungo do corpo e ter fé no musgo da paisagem, como leciona a narrativa do olhar invisível.

sábado, 19 de setembro de 2009

De máquinas e sonhos

“No filme Matrix... o nome do líder da resistência contra as forças maquinizantes que criam uma ilusão do real é, parodoxalmente, Morfeus, nome do deus grego do sonho. “Bem-vindo ao deserto do real” é a saudação de Morfeus a Neo (Novo), o herói cuja missão será salvar os homens da dominação maquínica.

... poderíamos ver nestes nomes uma sugestão de que o novo se instauraria através do sonho ou que este é uma forma de resistência ao processo de consciência-máquina, a racionalidade, que cria a ilusão do real. Se Morfeus é o mestre de Neo, isso pode sugerir que os desejos deste têm no sonho uma possibilidade de realização.

Ana Santana Souza, A Nação Guesa de Sousândrade

Pílulas de Matrix



Morfeu para Neo:

Se tomar a pílula azul, a história acaba, e você acordará na sua cama acreditando no que quiser acreditar. Se tomar a pílula vermelha ficará no País das Maravilhas e eu te mostrarei até onde vai a toca do coelho. Lembre-se: tudo o que ofereço é a verdade...

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Mel, Waly Salomão

Ó abelha rainha

Faz de mim um instrumento

De teu prazer, sim, e de tua glória

Pois se é noite de completa escuridão

Provo do favo de teu mel

Cavo a direta claridade do céu

E agarro o sol com a mão...

terça-feira, 15 de setembro de 2009

O cheiro continua



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Para Regina Pinheiro, musa de Geraldo Spinelli e amiga querida
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O post sobre cheiro rendeu e-mails, scraps no orkut e comentários aqui no blog. Amâncio Bolaño disse que o cheiro gera pensamentos que geram sentimentos. Com base nisso este chileno garante que escolheu a sua esposa. Da Espanha, minha querida ex-aluna Favo de Mel assume pertencer a uma seita que cultua diariamente o Deus Cheiro. Ela diz que não vive sem.
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O comentário do filósofo Geraldo Spinelli registra a emoção despertada pelo comentário de Vânia, e lembra o cheiro de Jundiaí - um dos cheiros mencionados no orkut pelo poeta Aluísio Barros. "O orvalho da noite/ brinca na luz do luar" - Assim o poeta potiguar inicia a sua lembrança aromática de Jundiaí, lembrando das frutas e dos doces de Dona Nozinha. Deus conserve por perto os bons cheiros. A seguir, o comentário do filósofo.


"Imagine o que um cão não sabe através dos olores/odores ? e mais amigo Nonato, o cheiro do sexo é muito marcante, seja das secreções que jorram, seja do corpo de quem está conosco. Acho mesmo que o homem se apaixona não porque a mulher é feia ou bonita, ou por qualquer outra característica, o homem se apaixona pelo cheiro da mulher. Neruda, no Confesso que viví logo no inicio, fala do cheiro da chuva. Essa coisa de cheiro é tão forte que ao ler o comentário de Vania fiquei emocionado. Lembra-se do cheiro de Jundiaí ? Um abraço de Geraldo Spinelli Júnior"

sábado, 12 de setembro de 2009

Cheiro














Para Telma que adora cheiro

Acho que devo a Jung a primeira notícia que tive acerca do cheiro. Digo: do poder do cheiro. Com o autor de Memórias, Sonhos e Reflexões (Autobiografia escrita com Aniela Jaffé) aprendi ser o olfato o sentido que mais remete à memória. Desde então, comecei a ler o mundo também pelas narinas. Ligado desde cedo ao universo literário, senti ratificado em vários autores essa força poderosa dos olores.

Literatura é cheia de cheiros. Talvez seja Proust o padroeiro do olfato. Ele ensina que a nossa memória encontra-se fora de nós: no cheiro do quarto abafado, no olor exalado ao cair da chuva, na fruta descascada, e por aí vai. Na literatura brasileira, Roberto Drummond é um dos autores que mais possuem obsessão pelo olfato. A ponto de escrever O Cheiro de Deus. Em matéria de aroma, Roberto só perde para outro mineiro também Drummond: "Tem gente que tem cheiro/ de colo de Deus,/ de banho de mar/ quando a água é quente e o céu é azul."

Grifei de vermelho no Lavoura Arcaica, do Raduan Nassar, ao ler o “cheiro avinagrado” do cesto de roupas da família de Pedro. Cheiro que lembra os olores de fumo e alho exalados pelo corpo de um personagem de Sábado, o belo romance inglês de Ian McEwan. Tem mais cheiro a seguir...

Cheiro II



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E o lance do aroma entre Maria e Jesus? Este é narrado por Paulo Leminski ao biografar o filho de José. Segundo o poeta, Maria derramou uma substância aromática nos pés de Jesus, e enxugou-o com seus cabelos. Citando o evangelista João, Leminski diz que “a casa encheu-se do cheiro do nardo.” A esse "literal derramamento de Maria sobre Jesus", Leminski chama de "estranha metáfora de uma ejaculação às avessas..."

Cheiro de corpos, livros, roupas... Cheiro de alimentos. A vida reside nas narinas. Como esquecer o cheiro anunciado na consistência do chocooky? Covardia. Assim, na madrugada, dá saudade desse cheiro com sabor de chocolate.

Minha tia de Caicó diz haver uma estreita relação entre cheiro e identidade. Segundo ela, “o cheiro não nega a essência.” É o que demonstra uma personagem de Victor Ruis: "Pelo cheiro passei a entender o mundo in-visível ao meu redor."

sábado, 5 de setembro de 2009

volta, Belchior






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I

Foi o poeta Leonardo no entanto Gandolfi d’água quem primeiro avisou: “Belchior sumiu”. Achei que era pegadinha e perguntei como. “Sumiu”, respondeu o poeta. Depois li nO Globo e soube que saiu no Fantástico. Era verdade: ninguém sabia onde estava o cantor cearense que abandonou a medicina e optou pela música. O cavaleiro andante dos sertões do Nordeste, o trovador eletrônico do Brasil, o Dom rapaz latino-americano...

Esse sumiço, para os fãs e para alguns que atuam nas áreas ligadas às artes e culturas, chega sempre de forma dúbia. Sumir, para muitos que criam, tem a ver com o mito do artista genial. Aquele que é fernandopessoamente ("Suave é viver só") inadaptado. O ser que se retira de cena por não suportar o convívio com a raça humana. Exemplar mor dessa condição na era moderna é o escritor norte-americano J. D. Salinger. Sua obra mais conhecida é o romance The Catcher in the Rye ("O Apanhador no Campo de Centeio" no Brasil e "À Espera no Centeio" em Portugal), livro publicado em 1951. Desde 1965 ele não publicou mais uma linha. Continua “desaparecido”. E vendendo. Greta Garbo é outro mito que curtia exilar-se.

II

Há no Brasil um caso semelhante, guardadas as devidas ressalvas. O escritor Raduan Nassar retirou-se da cena literária. Optou pela criação de galinha no interior de São Paulo. Isso após escrever um livro genial: Lavoura Arcaica – considerado um dos três melhores romances da década de 1970 (qual seriam os outros dois livros, hein Leonardo?, hein Gardel? hein Ector?). Hilda Hilst é outra que viveu "sumida" na Casa do Sol, até morrer em 2000. Dizia que tinha uma maldição. Reclamava do descaso da crítica com a sua vasta produção. Caio Fernado Abreu, que viveu uma época na Casa do Sol, criou uma personagem que sintetiza esta noção do sumiço na literatura contemporânea: a cantora de Onde andará Dulce Veiga.

III

Sumido, Belchior fez-me lembrar da adolescência no internato, onde comecei a escutar suas canções. Sempre recheadas de referências literárias (Poe, Baudelaire, Álvares de Azevedo, Gonçalves Dias, Joyce, João Cabral...), suas letras marcaram a minha geração. Além dos 16 discos solos, ele gravou 2 cds musicando poemas do Drummond. Após assistir a um dos seus shows, disse, no camarim, que ele havia chegado aos anos 90 (numa alusão a alguns companheiros de sua geração que permaneceram nos anos 70). Ele respondeu-me: "agora eu quero chegar aos 90 anos". Então, Belchior: volta. 63 é cedo para sumir. "Volta. Vem viver outra vez..."

ANTOLOGIA


No corcovado quem abre os braços sou eu
Copacabana esta semana o mar sou eu
Como é perversa a juventude do meu coração
Que só entende o que é cruel e o que é paixão

Paralelas


John, eu não esqueço (oh no, oh no)
A felicidade é uma arma quente, quente, quente

Comentário a Respeito de John


anjo, herói, prometeu, poeta e dançarino
a glória feminina existe e não se fez em vão
e se destina a vir ao gozo a mais do que imagina
o louco que pensou a vida sem paixão

De Primeira Grandeza


Estava mais angustiado que um goleiro na hora do gol
Quando você entrou em mim como um Sol no quintal

Divina Comédia Humana


E eu quero é que esse canto torto,
Feito faca, corte a carne de vocês.

A Palo Seco

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Ando pós-modernamente apaixonado pela nova geladeira.
Primeira escrava branca que comprei, veio e fez a revolução.
Esse eterno feminino do conforto industrial injetou-se em minha veia,
dei bandeira!
e ao por fé nessa deusa gorda da tecnologia gelei de pura emoção!

Balada de Madame Frigidaire


Sim, já é outra viagem e o meu coração selvagem
Tem essa pressa de viver
Meu bem, mas quando a vida nos violentar
Pediremos ao bom Deus que nos ajude
Falaremos para a vida:
"Vida, pisa devagar meu coração cuidado é frágil;
Meu coração é como vidro, como um beijo de novela"

Coração Selvagem


Meu pai não aprova o que eu faço.
Tampouco eu aprovo o filho que ele fez.
Sem sangue nas veias, com nervos de aço,
Rejeito o abraço que me dá por mês.

Lira dos Vinte Anos


Eu tenho medo de abrir a porta
Que dá pro sertão da minha solidão
Apertar o botão: cidade morta
Placa torta indicando a contramão
Faca de ponta e meu punhal que corta
E o fantasma escondido no porão

Pequeno Mapa do Tempo


Como Poe, poeta louco americano,
Eu pergunto ao passarinho:
"Blackbird, o que se faz?"
Raven never raven never raven
Blackbird me responde
Tudo já ficou atras
Raven never raven never raven
Assum-preto me responde
O passado nunca mais

Velha Roupa Colorida



Pois o que pesa no norte, pela lei da gravidade,
disso Newton já sabia! Cai no sul grande cidade
São Paulo violento, Corre o rio que me engana...
Copacabana, zona norte
e os cabares da Lapa onde eu morei

Fotografia 3 x 4


Minha voz quer ser um dedo
na tua chaga sagrada.
Uma frase feita de espinho,
espora em teus membros cansados:
sensual como o espírito

ou como o verbo encarnado

Sensual

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

O Cânone do Conselheiro














"Conselheiro vinha de muitas caminhadas, desde o nascimento em Quixeramobim... leitor assíduo das histórias de cavaleiros andantes, de Carlos Magno e os Doze Pares de França, da Demanda do Santo Graal, dos Cavaleiros da Távola Redonda, das lendas da Bela Infanta, dos amores de Dom Carlos de Montealbar, da Filha do Rei de Espanha, que lia em folhetins e almanaques...
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Conselheiro era lido de muitos livros, revistas e almanaques... Estudara os conceitos de Santo Agostinho... Preferia a Suma Teológica de São Tomás de Aquino... "
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Ele conhecia os livros bíblicos, do Gênesis ao Deuteronômio... rezava com os folhetos das Horas Marianas e da Missão Abreviada...
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Trechos do décimo romance de Moacir C. Lopes, autor de A Ostra e o Vento. Publicado em 2007, 110 anos após a tragédia de Canudos, este vigésimo primeiro livro do autor - cearense que nem o Conselheiro - antecipa as comemorações dos 100 anos da morte de Euclides da Cunha (15/08/1909).

domingo, 30 de agosto de 2009

Maré alta



"Três" é um dos mais belos momentos do show que encerrou ontem, no Jardim Botânico, Rio, a temporada de Maré (2008), de Adriana Calcanhoto. Munida de um sugestivo búzio colado ao ouvido, a cantora adentrou o cenário de tons azuis com motivos marítimos, e já na primeira canção ("Maré", parceria com Moreno Veloso) irrigou com poesia a platéia que lotou o teatro Tom Jobim.

Acompanhada de uma banda afi(n)ada de tons contemporâneos, ela apresentou um repertório poético de temática predominantemente afetiva e aquática. Além de suas belas letras, Calcanhoto entoou parcerias com Waly Salomão ("Teu nome mais secreto" - a última canção da dupla), Antonio Cicero, Arnaldo Antunes, Augusto de Campos, Torquatro Neto e, dentre outros, a poeta lusa Fiama Hasse Pais Brandão.

Seguindo a trilogia iniciada com Maritmo (1998), este show celebra a estética das águas que possui em Caymmi a sua fluição; e inscreve AC como a melhor tradução dessa estética marinha na cultura contemporânea. O seu canto - límpido, preciso - recria do mar os perigos que a calmaria anuncia, e arrebenta nos ritmos e arranjos que parecem refazer as tempestades do imaginário e do corpo.

Ao banhar-se no mar de Adriana, o ouvinte sai de alma lavada. Principalmente quando ela canta nossas fomes contemporâneas: "a fome dos meninos", a fome dos que ferem, dos que partem; a fome de quem, no escuro, navega em curvas que enganam os sentidos. Lava-se também a alma quando a cantora dá o tom certeiro da paixão para a platéia "rezar" Tom e Vinícius: "Mas cada volta tua há de apagar/ O que esta tua ausência me causou"...

Depois das rajadas sonoras e poéticas de Maritmo e Maré, resta-nos esperar a próxima "jangada" da artista. Aguar-dar o mergulho no "triângulo das águas" ao qual suas futuras ondas e sagas nos levarão. Isso porque, desde Enguiço (1990), o seu mar está pra peixe - o símbolo da fecundidade e da vida. Água e peixe são também associados à restauração cíclica; o que nos remete à travessia - fecunda, agitada - que AC vem fazendo pelos mares revoltos da nossa cultura.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Tarde








Cheguei. Tarde, talvez, mas não tarde demais.
Trazendo aquela tralha toda, parecida
com tudo aquilo que você tem, aliás.
Como era de se esperar. O forte da vida

não é a originalidade. Eu não me iludo.
Abre essa porta. Frente ou fundos, tanto faz.
Abre depressa, antes que desabe tudo.

Paulo Henriques Britto

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Ao fim

Ao fim são muito poucas as palavras
que nos doem a sério e muito poucas
as que conseguem alegrar a alma.
São também muito poucas as pessoas
que tocam nosso coração e menos
ainda as que o tocam muito tempo.
E ao fim são pouquíssimas as coisas
que em nossa vida a sério nos importam:
poder amar alguém, sermos amados
e não morrer depois dos nossos filhos.


Amalia Bautista,
traduzida por Joaquim Manuel Magalhães

domingo, 23 de agosto de 2009

"Eu aposto na vida, mesmo errada"

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Este verso é do poeta português Alexandre O'Neill. Ele serve de título para o texto que o poeta Leonardo Gandolfi (no entanto d'água) apresenta esta semana na UFF.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

uma Poética do Espaço Brasileiro







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"Aspectos da Amazonia", 1901 - 1902
Foto da exposição da Biblioteca Nacional
100 anos da morte de Euclides da Cunha

sábado, 15 de agosto de 2009

Rio - Minas


"Um tempo que refaz o que desfez
e recolhe todo sentimento"
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Chico Buarque de Hollanda, "Todo Sentimento"

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Retrato Sonoro e Afetivo de Canudos












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Vista de Canudos da encosta do Morro da Favela, em exposição aberta em 13/08/2009 na Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, em homenagem aos 100 anos da morte de Euclides da Cunha (15/08/1909).














Ladainha de Canudos
(Gereba/João Bá)

Usaram as águas do rio
Que nem arma do medonho
Pra destruir a morada
Terra Santa
Do beato Santo Antonio
Penitentes e contritos
Na sagrada procissão
Pra bandeira de Canudos
Nunciar ressureição
Usaram as águas do rio











Rio, Abril de 2009

bom dia, Gereba (Monte Santo, 14/08)

bom dia, Bibi (Serrinha, 18/06)