e todo caminho deu no mar

e todo caminho deu no mar
"lâmpada para os meus pés é a tua palavra"

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Hoje tem alegria




















I

Junto às taças de cristais, os florais, à panela de pressão e à celebração do vinho chileno com uma pessoa querida, o livro Para sempre teu, Caio F foi um dos presentes mais belos que recebi neste meu niver. Confesso que quando olhei o catatau com cerca de 500 páginas e capa de tons rosa, não esperava tanto. Nunca havia lido a Paula Dip. Mas estou deveras agradecido a autora pela leitura das cartas, entrevistas e fotos com as quais ela nos brinda. E principalmente pela leveza do seu estilo; pela forma romanesca que ela construiu para inscrever o "meu príncipe" (era assim que Hilda Hilst chamava Caio F).
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II
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Para sempre teu, Caio F é a segunda biografia do escritor gaúcho que morreu há 13 anos. A primeira - Caio Fernando Abreu: inventário de um escritor irremediável - foi publicada por Jeanne Callegari em 2008. Isso é um dado muito importante para a literatura brasileira. Basta lembrar, por exemplo, que o poeta Manuel Bandeira, morto há mais de 40 anos, nunca foi biografado. Jorge de Lima é outro: romancista, pintor, político, médico, poeta (criou Invenção de Orféu - um dos livros mais importantes da poesia moderna), mas ninguém re-inventou os seus roteiros biográficos. E Cecília Meireles? Alguém conhece a biografia da nossa maior poeta do Modernismo? E Hilda Hilst, meu deus? Quando alguém irá escrever a biografia da maldita que engolia o corpo de deus e conversava com pedras e plantas na Casa do Sol?
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III
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É bom perceber que Caio F, Paulo Leminski e Ana C ("um Caio F de saias") - a trindade representativa das letras marginais nas últimas décadas do século XX - inscreveu-se com letras, afetos e sangue na cultura brasileira. Essa trindade possui vários vídeos, diversos textos encenados, estudos acadêmicos, biografias... A biografia de Paula Dip é hiper polifônica. Um livro cheio de vozes. Vozes do Caio, de quem conviveu com o Caio, de quem estuda a sua obra. O Caio F dela é de carne e osso. Pulsa pra caralho. Tem trilha de rock, pop, com timbres de canções da fossa. Suas páginas estão repletas daqueles contrates de luz e sombra, sal e fogo, que estão presentes nas páginas enxutas e cortantes do autor de Morangos Mofados.
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IV
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O livro de Paula Dip transita por vários países e idiomas (é impressionante a carreira internacional do autor); passeia por várias cidades. Lateja da forma perigosa e urgente como viveu o seu biografado: escrevendo sem parar, desdenhando credos, tomando daime, fumando todas, amando meninos e meninas, viajando e lavando louça numa Europa cujas vitrines expunham seus títulos mais cultuados... Mas cheio de fé. Cheio de paixão. "O escritor da paixão", como diz Lígia Fagundes Telles.
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V
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Repleto de depoimentos contundentes, este livro ilumina, através do seu personagem mor, o Brasil do século XX. Diz principalmente das nossas artes, já que a literatura de Caio dialoga com a música, o jornalismo, a tv, o teatro, o cinema...Parece que que acabei de ler um grande romance antigo. Um daqueles livros cheios de suspense, fúria, amor, ódio e muita trama romanesca. O romance de quem aprendeu com a própria vida a enfeitar a amargura, a carência, a dor, a falta de jeito num mundo feito contra si. Amei.
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A seguir, a canção que Adriana Calcanhoto - amiga e conterrânea de Caio - compôs para ele, e que Paula Dip transcreve:
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Hoje tem uma alegria em mim
Hoje eu acordei alegre
Nem nada mudou tanto assim
Mas qualquer coisa em mim
Urge, arde em febre
Hoje serei enfim
Quem voce quiser de mim, me leve
que hoje eu vou dizer: sim
ao que quer que me espere,
me espere

Um comentário:

Vania disse...

Ontem passeando por aqui vi que vc gostou do livro da Paula Dip...não resisti e comprei um hoje. Eu já estava namorando este livro, pois gosto muito do Caio e da forma que ele escrevia. Eu qdo leio algo do "principe" (rsrs) tenho a sensação que ele colocava uma lupa nos próprios sentimentos. Acho que vou gostar.

Vlw pela dica!