e todo caminho deu no mar

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"lâmpada para os meus pés é a tua palavra"

domingo, 10 de julho de 2011

os escritores e a gramática - I



 ... o que a gente tem de fazer é isso: ter a coragem de falar brasileiro sem si amolar com a gramática de Lisboa. Dar cada um a sua solução pessoal de falar brasileiro pra que depois um dia os gramáticos venham a estabelecer a gramática do Rio de Janeiro. Está certo. Vejam bem: falei “sem se amolar com a gramática de Lisboa” e não “ se opondo à gramática de Lisboa”. Não se trata de reação contra Portugal. Trata-se duma independência natural, sem reivindicações, nem nacionalismos, sem antagonismos, simplesmente, inconscientemente.  Se trata de ‘ser’. O brasileiro tem direito de ser...

Mário de Andrade, “Gramatiquinha da fala brasileira”, 1928 





Enquanto não se reconhecer a especificidade do português brasileiro dentro do conjunto de línguas derivadas do português quinhentista transplantados para as colônias, enquanto não se reconhecer que o português brasileiro é uma língua em si, com gramática própria, diferente da do português europeu, teremos de conviver com essas situações no mínimo patéticas.


Marcos Bagno, “Polêmica ou ignorância?”, 2011

7 comentários:

DESAGUANDO disse...

Olá Nonato.
Adoro seu blog e estou repassando o selinho que recebi para vc. Só copiar e colar a imagem no seu blog...já coloquei o link do seu blog lá como meu indicado...bju grande.

http://desaguandovania.blogspot.com/2011/07/mais-um-carinho.html

Fernando Vieira Peixoto Filho disse...

O francês do Canadá não se chama “canadense”, e sim “francês”; o espanhol da Argentina não se chama “argentino”, e sim “espanhol”; o inglês da África do Sul não se chama “sul-africano”, e sim “inglês”. É preciso entender muito pouco de linguística para argumentar em defesa de uma suposta língua brasileira.

A nossa língua é a portuguesa – com variações lexicais, fonológicas e morfossintáticas, como qualquer língua viva; mas ainda assim “português”. Não há nada de ruim nessas variações, que se marcam bem mais na oralidade do que na escrita. Nem precisamos ir ao outro lado do Atlântico; aqui mesmo há diferenças bastante sensíveis entre os dialetos do Norte e do Sul. Mas isso não autoriza ninguém a dizer que no Norte do Brasil se fala uma língua e no Sul, outra.

Além do mais, não é possível fazer uma prova de língua estrangeira sobre o português europeu, por exemplo. Tenho alguns livros publicados em Portugal e não sinto qualquer dificuldade em compreendê-los; dificuldades que sinto quando tenho de ler em inglês ou francês.

Mário de Andrade não entendia coisa alguma de linguística: perdoa-se. Marcos Bagno entende alguma coisa de linguística, mas é demagogo e politiqueiro: isso não se perdoa.

Anônimo disse...

amei, nonato, ainda bem qua a gente é dessa cosmologia, oooops, literatura. o marcos bagno foi dar aulas para os professores de português na argentina, convidado pela funceb. beijo, camila

Nonato Gurgel disse...

Querida Vania, agradeço pelo selinho. Qual imagem devo copiar?
bjs

Nonato

Fernando Vieira Peixoto Filho disse...

Camila,

Com relação ao Bagno, ainda que por intermédio dos esquematismos políticos tão conhecidos em nosso país ele participe de comissões em Brasília e até receba este ou aquele convite, “quando a Indesejada das Gentes chegar, não sei se dura ou caroável”, certamente não “encontrará lavrado o campo, a casa limpa, a mesa posta, com cada coisa em seu lugar”.

Vocês, da “cosmologia literária”, talvez saibam precisamente do que estou falando.

Despeço-me sem beijos ou abraços – que “Jesus foi traído com um beijo” e “Davi teve um grande amigo”.

Nonato Gurgel disse...

Caro Fernando,

é sempre bom contar com as opiniões dos colegas e respeitá-las. É um luxo esse exercíco de aceitar a diferença, atentando para o lugar de onde cada um fala.

No mundo das letras acreditamos cada vez mais na possibilidade da audição de várias vozes, questionando a voz unica, cheia de certezas.

Abraços
Nonato

Nonato Gurgel disse...

Querida Camila,

desejo que essa cosmologia nos proporcione outras letras, outros cafés e, como diria o Otavio Paz, a aceitação da outra voz.

bjs
Nonato