e todo caminho deu no mar

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"lâmpada para os meus pés é a tua palavra"

quinta-feira, 30 de maio de 2013



3 – Dizendo que o pai se sentia mais próximo dos escritores, pintores ou arquitetos, o filho Pierre Alfiéri, diz que Derrida “tinha consciência de praticar cada vez mais a filosofia como artista” (p. 494). Qual é a leitura que você faz dessa afirmação?

 

A relação de Derrida com a filosofia foi sempre muito complexa. Apesar de ter feito sua carreira como filósofo, ele próprio talvez se definisse mais como pensador. Lembro o dia em que, num de nossos primeiros encontros como seu orientando, eu lhe disse que sempre me interessaram os filósofos que, como Nietzsche, Rousseau e Sartre, se interessaram profundamente pela literatura. Era óbvio que estava me referindo a ele próprio também, ao que me respondeu: Você está falando de mim como se fosse filósofo...  A desconstrução (ou as desconstruções, como preferia dizer) é sem dúvida a desconstrução da metafísica ocidental e da tradição filosófica.

 

Embora fosse dotado de grande erudição filosófica, sobretudo no campo da fenomenologia, interessava-lhe mais o pensamento do que a história da filosofia por si mesma. E o pensamento é um acontecimento que pode se dar em qualquer área, tendo, contudo, suas especificidades de acordo com o discurso em que se produz. Diria que o pensamento é o que acontece no intervalo entre os discursos: não pertence nem à filosofia, nem à literatura, nem às ciências, nem à arte apenas. Não sei se Derrida se consideraria um artista, pois decerto proporia também uma desconstrução do conceito romântico de arte e de sua produção. Mas creio que concordaria com Pierre Alfiéri – cujo sobrenome real é também Derrida, Alfiéri sendo um empréstimo da avó materna para configurar sua persona de escritor – que a arte, muitas vezes, mas nem sempre, está mais apta a acolher o pensamento do que o discurso filosófico tradicional. Todavia, isso não significa desqualificar a filosofia, mas sim apenas questionar o privilégio da atividade pensante que ela quase sempre reivindicou, desde pelo menos Sócrates e Platão.

 

4 – O último capítulo da biografia deixa clara a consciência que Derrida tinha, no texto e na vida, das relações entre o corpo e a escrita. “Um corpo implicado no ato de ensinar...” Em quais textos de Derrida o leitor pode encontrar essas relações entre corpo e escritura, corpo e pedagogia, enfim, corpo e cultura?

 

Respondendo de forma objetiva: sobretudo em Le Toucher, Jean-Luc Nancy (“Tocá-lo ou o Tato, Jean-Luc Nancy”. Ed. Galilée, 2001), inédito em português. Trata-se de um belíssimo livro, em que Derrida aborda a questão do corpo, indo muito além da perspectiva fenomenológica de Maurice Merleau-Ponty, por exemplo. O ponto de partida são os textos de seu fiel amigo, o grande filósofo Jean-Luc Nancy, ainda muito pouco lido e traduzido no Brasil.
 
 
 

2 comentários:

Mariana Figueiredo disse...

Caramba, eu tava lendo um texto sobre desconstrução nesse instante. rs Tô muito interessada nisso.

Obrigada por postar essa lindeza!

Beijos e saudades!!!!

Nonato Gurgel disse...

Mariana, é bom saber de vc interessada neste tema - rentável, atual - da desconstrução.

bj