e todo caminho deu no mar

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"lâmpada para os meus pés é a tua palavra"

domingo, 10 de novembro de 2013

Cazuza no museu III



Para a professora Lucia Helena e as turmas
do curso Letras/Parfor da UFRRJ


Cazuza mostra a sua cara no Museu da Língua Portuguesa em São Paulo. Cazuza - misto do Brasil urbano que toca na favela, no sertão e na periferia da metrópole. Ouvido de todas as raças e de todos os tons, ele canta vários credos ecumênicos e gêneros sexuais.  Mistura de ritmos com poesia, ele tem a manha do poeta rápido, rasteiro.

Cazuza é letra pop. Escrita cultural que a academia acolhe como produto da era da redemocratização, nos anos oitenta, quando ele cantava “a burguesia fede” e, contradizendo o seu próprio discurso demolidor, afirmava: “eu tenho esperança, eu fiz o que pude”.

Além dessa esperança, Cazuza traz o sonho ("quem tem um sonho não dança") e a religiosidade ("Peço a deus que me perdõe no camarim") dos autores românticos ("adoro um amor inventado"). Cercado de paradoxos, ele vive no limite proposto pela rapidez moderna de um tempo veloz e trepidante que não pára.

feito de letras e verbos
 
"Exagerado" assumido, o poeta sabe que “viver é gastar a vida” (Mário de Andrade). Como o jagunço Riobaldo, ele aprendeu, através da carne e do verbo, que "viver é muito perigoso"; e viu que "virar pelo avesso é uma experiência mortal" (Ana C). Amigo do escritor Caio F, o compositor também se alimentava de "pequenas epifanias", "morangos mofados", o escambau...

Cazuza conjuga os verbos do seu tempo. Ele vive, gasta, vira, dá e pede. Pede até piedade. Pede muito: pede “uma” ideologia para viver, pede para o Brasil, corrupto e autoritário, mostrar a sua cara e respeitar as leis; e pede também, ao contrário do compositor social, que quando estiver cantando ninguém cante nem se aproxime muito dele.

Cheio de sarros e “segredos”, esse canto - às vezes ao pé do ouvido - põe no liquidificador cultural a bossa nova, o rock in rol, a tropicália, Cartola e o samba canção. Cazuza junta a esses ritmos a poesia beat americana, a poética marginal brasileira, a luz e a farpa de Clarice Lispector, e muito pó, muita pedra das minas do poeta Carlos Drummond.

Coração "batendo travado na escuridão do quarto”, ele é o primeiro espanto numa geração que, ao ver a cara da morte, assume ser “cobaia de Deus”, e numa MPB que canta “dois homens apaixonados”.

Político, poético, porralouca e religioso, ele é um desses que "viram messias e andam no mar”. Por isso, ao contrário do que sugeriu a revista Veja, nos anos 90, sua obra fica. Fica e eu creio que ele ainda será trilha de outras gerações.


 

12 comentários:

Maria Fernanda Garbero disse...

Linda leitura de Cazuza e desse momento tão amplo, tão denso, tão nosso: mundanamente pulsante.

Nonato Gurgel disse...

Nanda querida, amei encontrar vc por aqui neste momento "pulsante".
Lembrei de vc quando vi a mostra
ontem, porque Cazuza amava Água Viva, de Clarice L, livro que alguns alunos leram no seu curso.

Vem mais Caju.


bjs

Anônimo disse...

"vejo o cristo da janela", isso sempre será o nosso 'Caju'. 'viva a água', com toda a (im)possível clar(idade), querido Nonato, porque C.L. disse um dia que "um homem fino de um pé só tem um grande olho transparente no meio da testa" e, ainda, "quer tomar chá? E não espera resposta."
beijinhos moventes...rs V@l^*^

Nonato Gurgel disse...

"vejo o cristo da janela"

valeu, Val, vou usar este verso do Caju no próximo post

bj

Anônimo disse...

Nonato, vai ser um "trem...". ;)

bj e valeu!

V@l

Mariana Figueiredo disse...

"quem tem um sonho não dança"
lindo texto, Nonato.

bjs.

Nonato Gurgel disse...

Mari ana, tantos sonhos num só nome. bj

Débora disse...

Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.Clarice Lispector.
Lindo texto professor,me rendi após conhecer alguns pensamentos de Cazuza. Valeu a pena. Bjs

Ana Maria - parfor disse...

Olá professor, gostei muito da colocação sobre a a mostra do Cazuza no Museu.Gostei de saber que ele usou o livro da Clarice para suas composições. Valeu!!

Nonato Gurgel disse...

Débora e Ana, é bom saber que voces curtem a porção Lispector do Cazuza.

voltem, valeu

Carminha disse...

Meu amigo Nonato senti imenso prazer ao ler o seu texto. A obra de Cazuza ficará pois ela extrapola gerações e classes sociais. Um abração meu amigo.

Nonato Gurgel disse...

Querida Carminha, saudades de vc

Fico feliz ao ver que o som de Cazuza continua ecoando em vc. Feliz Natal

bj