e todo caminho deu no mar

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"lâmpada para os meus pés é a tua palavra"

domingo, 15 de novembro de 2009

Ternura Explicada



Para Claudia Fabiana, amiga querida que fez a foto da Ana Kutner com o Paulo José

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A peça Um Navio no Espaço ou Ana Cristina Cesar inicia pelo “Epílogo” do livro mais famoso da poeta: A teus pés. Começa com a mala, as luvas e os cartões postais que a narradora passa. Essa cena inicial é um belo achado. Imagem repleta de alegria e tesão que, de cara, fisga a platéia. Ana Kutner passa literalmente os cartões - e as luvas - à platéia. Quem estava nas três primeiras filas conferiu. O meu cartão é uma ilustração do Giorgio Berto que, sintomaticamente, fala de martírio. Vou guardar este cartão meio desbotado (e sincrônico) nos meus arquivos mais secretos.

Paulo José faz... Paulo José. Ele é o diretor dos Casos Verdades que a TV Globo apresentava nos anos 80. Como analista de textos da TV, Ana C analisava, recém chegada de Essex, os tais textos. “Espinafrava”, segundo o ator, estes programas televisivos. Somente quando leu A teus pés, o ator entendeu melhor essas análises. Agora ele narra, canta, escreve, indaga... Fala como ator, autor, leitor... No seu discurso ecoa as vozes do pai e interlocutor da Ana C. Sua atuação - didática, afetiva - auxilia em muito na compreensão dos roteiros da vida e da obra da poeta que dizia não conseguir explicar a própria ternura, e afirmava não saber que "virar pelo avesso é uma experiência mortal".

A peça mantém intertexto com os autores modernos e amados por Ana. Lá estão Baudelaire, Mário de Andrade, Fernando Pessoa, Jorge de Lima... Presentes estão também as vozes da geração da Contracultura, como Torquatro Neto e Caio Fernando Abreu. Caio F, segundo Heloísa Buarque de Hollanda, é o masculino de Ana C. Por isso os trechos de Morangos Mofados dialogam, de forma certeira, com os escritos de Ana C, sejam eles cartas, diários, ensaios ou poemas... Até os Cadernos Terapêuticos da poeta surgem na reta final como um dos principais “personagens” da peça.

Os cenários (misto de navio-trapézio-cadeira-balanço...) merecem mencão especial. Os vídeos, os livros, a luz e a trilha sonora acentuam, de forma leve e exata, o ritmo dos diálogos e dos atores em cena. Nada é gratuito. O grito final do Paulo, na hora do salto da poeta, ecoa após o próprio salto. Assim como o texto da poeta, esse grito perdura. Como os poemas e as micro narrativas de Ana, a peça pede biz. Feito bliss e sua perene procura. Ternura, enfim, explicada.

3 comentários:

Claudia Fabiana disse...

Não podia ter explicado melhor a peça, Nonato.. E vc me deu de presente um bliss.. "pro dia nascer feliz".. bj

valeria-cardoso disse...

Esse quatrilho deu o que falar e o que produzir. Dá-lhe A.C.
Pode crer, Nona, a Claudinha mirou certo na foto e qdo disse que vc a presenteou com um bliss de Ana no canto de Caju, fiquei a navegar no seu Blue(s) ensaístico e teatral, embargado pela voz da nossa Billie...Bjoc@s e sôdade ;)

Nonato Gurgel disse...

Garotas, quero voces duas na minha arca no dia do dilúvio. bjs