
Eu ouvi "Paixão de um homem", de Waldic Soriano, na rádio de Caicó, tarde de férias na Vazinha do tio Dezinho. Ouvi também algum bolero seu cantarolado na voz do meu pai, em Caraúbas. Vi a capa de um vinil do Waldick no balcão do Bar dos Paredões, em Mossoró. Lá o cheiro forte de homens, mulheres, piúbas e cervejas era ritmado por bregas tipo Evaldo Braga e Lindomar Castilho.
Ouvi Waldic (a Marron e tantos outros) com Tetê Bezerra pelos bares da Ribeira e Zona Norte, em Natal, onde "A carta" e "Eu não sou cachorro não" faziam parte da trilha. Ali a vida pulsava forte, na veia, e Dr Chiquinho – alegando que o mundo não era logo ali – pedia para eu segurar o coração. Ele tinha razão: o sertão é o mundo, viver é muito perigoso, como diz mestre Rosa, sertão é onde os pastos carecem de fecho. Mire e veja.
Tudo isso eu lembrei vendo Waldick Soriano: sempre no seu coração – o documentário de Patrícia Pillar, visto pelo homenageado pouco tempo antes de morrer em 2008. Nos depoimentos, o cantor baiano como alma de poeta romântico (é como poeta que ele se reconhece), revela como compôs a persona pública que o celebrizou. Ele criou um personagem ambíguo, contraditório, de charme único. Um homem extremamente viril (viveu com 14 mulheres - ta bom? - dignas de Almodóvar), que retirou dos heróis do cinema os gestos elegantes e a nobreza corporal que molduram o timbre singular da sua voz. Valeu, Patrícia, por estas memórias do Waldick.