e todo caminho deu no mar

e todo caminho deu no mar
"lâmpada para os meus pés é a tua palavra"

domingo, 5 de junho de 2011

Largo III

Para Henrique Cairus (RJ) e Tetê Bezerra (RN)


I


Nordestinos e demais brasileiros, no Rio, adoram transitar pelo Largo do Machado. O Largo e suas adjacências – Catete, Glória, Lapa, Laranjeiras, Flamengo, o aterro, a baía da Guanabara... Alguns desses lugares eu conheci antes de chegar por aqui, através de canções populares ou das páginas dos romances do sertanejo José de Alencar e do carioca Machado de Assis.

Recordo uma passagem do romance “Esaú e Jacó”, onde o Bruxo do Cosme Velho diz: Viverei com o Catete, o Largo do Machado, a praia de Botafogo e a do Flamengo, não falo das pessoas que lá moram, mas das ruas, das casas, dos chafarizes e das lojas. ...Lá os meus pés andam por si. Há ali cousas petrificadas e pessoas imortais...

Narrativas e canções rendem o Largo e seu entorno. Um carioca me garante ser de olho no trânsito noturno do Aterro que um compositor cearense canta no corcovado quem abre os braços sou eu.

Nessa canção do Belchior, ouço o aboio melancólico dos vaqueiros nordestinos na hora do sol posto quando a treva se anuncia. Nessa letra, vejo o olhar luzidio do carioca noturno sem desejo de transcendência ou contemplação. Dentre outros motivos, pode ser por isso que o título da canção remete a duas coisas que caminham juntas: “Paralelas”.


II


Projeto do paisagista Burle Marx, o Largo soa como um espaço meio carioca, meio outro estado. Espaço onde gestos sertanejos e sotaques urbanos e cosmopolitas dialogam. Dialogam e convivem com a leveza das cores das mantas de Brejo do Cruz - PB e a mancha escura da pedinte da comunidade, em meio à beleza e violência de cada dia.


O Largo tem uma porção nordestina bem animada. Digo isso não só com base nos traços físicos dos porteiros e na oralidade dos garçons, nem por causa dos produtos da cultura popular, visíveis a céu aberto no entorno do Largo. Digo nordestino como jeito encontrado de ler o Rio por quem não nasceu no Rio.


Nordestino com um olhar aceso, às vezes desconfortável, perdido na cidade. Olhar que Clarice - criada no Nordeste - leu na feira nordestina de São Cristóvão. Ela leu, captou e colocou na retina de Macabéa nA Hora da Estrela. Segundo Caio F, aquela Macabéa é o Brasil.

7 comentários:

Henrique Cairus disse...

Querido Nonato, mestre das palavras, que lindo texto e baita homenagem! Nem sei o que dizer. Esse trecho do Machado (que linda lembança)foi impresso numa nota de 1000 cruzados: essa daqui: http://www.leiloes.net/l/themes/leiloes/img/b.gif
Muito muito obrigado por essa linda lembrança.
Henrique

Nonato Gurgel disse...

Querido HC, vc é um dos professores cariocas que me ensinaram a ler o Largo.

bjs
Nonato Gurgel

5 de junho de 2011 13:33

João Batista de Morais Neto disse...

Belo Texto, Nonato.

Noanto Gurgel disse...

Joao, querido, faltou dizer no texto que foi vc quem me presenteou o meu exemplar de Esau e Jacó, lembra?

Mantem contato
Nonato

carlão disse...

puxa, nonato, que coisa bonita vc escreveu, cara.

Noanto Gurgel disse...

Carlão, cara, vc é o avó do Vinícius? Deixa ele vir na copa
aqui pra casa?

Alexandra Moraes disse...

O aboio de Belchior sempre me encantou, Paralelos sertão e litoral se fundem nesse espaço que é um dos denominadores comuns do que é o Brasil: o Largo do Machado!Nossa, muito boa essa leitura!!!