e todo caminho deu no mar

e todo caminho deu no mar
"lâmpada para os meus pés é a tua palavra"

sábado, 6 de abril de 2013

Cacá Diegues hoje nO Globo



"... A culpa não é só do partido de Feliciano, o PSC, que o indicou; os outros também preferiram o conforto próprio, em detrimento da segurança social da população. Quando isso aconteceu, onde estavam o PT e seus “progressistas”? Por onde andavam os “democratas” do PSDB? Que faziam os “socialistas” do PSB? E os “liberais’ do DEM? O único congressista que vi se manifestar desde a primeira hora, com coragem e firmeza, sem se preocupar com as conveniências regimentais da Casa, foi o deputado Jean Willys.

Suspeito que Marco Feliciano não seja um homem feliz. Ele deve viver atormentado pelos fantasmas do porre de Noé, do pecado de Cam, da maldição divina sobre a África e os negros. Feliciano não pode gastar relaxado o dízimo de seus fiéis, enquanto houver no mundo aborto, homossexuais, casamento gay e gente que não pensa como ele. “Infeliciano” não deve dormir em paz. ..."


Leia mais sobre esse assunto em
http://oglobo.globo.com/opiniao/a-infelicidade-de-feliciano-8039876#ixzz2PhZW2o00

sábado, 23 de março de 2013

ler o que lateja


 
Para Mariana, Débora, Marcia e Gilcineia, leitoras do Lobo
 
 
Publicado por Lobo Antunes, em 1979, e detentor de vários prêmios, o romance Os cus de Judas é uma narrativa feita dos estilhaços de vozes e restos de imagens da guerra de Angola. Como médico e escritor, Antunes viveu nesta guerra colonial portuguesa o medo e a perda, além da sua falta de justificativa. Por isso, em seu romance “os homens caem”, morrem feito peixes findando nos confins, nos cus de Judas.

 
O livro de Lobo Antunes é repleto de seres famintos e aflitos. Personagens cujas existências parecem pautadas no ritmo da “aflição de pedras que respiram”. As falas estilhaçadas e os nacos de imagens desta guerra africana alimentam uma linguagem fragmentada de diferentes tons. Dela, ecoa a dicção nobre - herdada da literatura do século XIX-, assim como uma boa taxa de oralidade contemporânea. Essa oralidade é bastante sedutora para o ouvido de quem lê expressões do tipo “percebe”, “sabe como é’, “escute”, “já reparou”... A sedução lingüística é motivada pela diferença, e tem o outro como parâmetro. Ela parece, a sedução, típica de um narrador que assume estar “a fim de se escutar a si próprio nos ouvidos dos outros”.
 
 
 
Neste romance-testemunho, o leitor é bastante convocado. Ele transita literalmente nos "cenários em ruínas" da guerra. Adentra suas derivas sem luz. O leitor transita pelos desvios e deslocamentos de uma narrativa atravessada – toda ela – por dois “ingredientes” explosivos: a poesia e a violência. Antunes escreve uma narrativa bélica de busca. Nela, o  amor e a guerra, o grotesco e o sublime, a memória e o testemunho ajudam a ler o que lateja na prosa do mundo.
 

domingo, 17 de março de 2013

sonho



Sabemos que o sonho está presente na obra de vários auores, mas creio que em nenhum outro ele perpassa quase toda uma escritura, como acontece no caso Borges – um escritor que dizia sonhar todas as noites. Ele assumia retirar dos sonhos alguns argumentos para os seus contos, e publicou em 1976 o Livro dos Sonhos. Pela ótica borgeana, os sonhos são textos atemporais lidos como um gênero antigo. Desde a Bíblia.


No conto “As Ruínas Circulares”, de Ficções, Borges elege dentre outros três temas: o sonho, o duplo e o eterno retorno. Desses temas, o sonho é, sem dúvida, o mais freqüente neste conto do gênero fantástico que é uma usina onírica. Há nele uma profusão de sonhos. Sonhos caóticos, amorosos, premeditados... Um homem sonha outro homem: “Era um Adão de sonho que as noites do mago tinham fabricado.”

Segundo Freud, o sonho dá acesso ao inconsciente. Para ele, a matéria prima de que se constroem os sonhos são os desejos inconscientes, embora os estímulos sensoriais também influam na tessitura dos sonhos. No conto de Borges, o homem sonhado desperta por fim: “Com alívio, com humilhação, com terror, compreendeu que ele também era uma aparência, que outro o estava sonhando
.”
 
 

quinta-feira, 14 de março de 2013

hoje é o dia da poesia



Limites ao léu


POESIA: “words set to music” (Dante via Pound), “uma via-
gem ao desconhecido” (Maiakóvski), “cernes e medulas”
(Ezra Pound), “a fala do infalável” (Goethe), “linguagem
voltada para a sua própria materialidade” (Jákobson),
“permanente hesitação entre som e sentido” (Paul Valéry),
“fundação do ser mediante a palavra” (Heidegger), “a reli-
gião original da humanidade” (Novalis), “as melhores pa-
lavras na melhor ordem” (Coleridge), “emoção relembrada
na tranquilidade” (Wordsworth), “ciência e paixão” (Alfred
 de Vigny), “se faz com palavras, não com idéias” (Mallar-
mé), “música que se faz com idéias” (Ricardo Reis/ Fern-
ando Pessoa), “um fingimento deveras” (Fernando Pessoa),
“criticism of life” (Mathew Arnold), “palavra-coisa” (Sartre),
“linguagem em estado de pureza selvagem” (Octavio Paz),
“poetry is to inspire” (Bob Dylan), “design de linguagem”
(Décio Pignatari), “lo imposible hecho posible” (Garcia Lorca),
 “aquilo que se perde na tradução” (Robert Frost),
“a liberdade da minha linguagem” (Paulo Leminski)...


Leminski, Paulo. "La vie en close" in Toda Poesia. São Paulo: Cia das Letras, 2013

sábado, 9 de março de 2013

fora, pastor



Exposto a diversos questionamentos éticos e sociais, o deputado conservador e pastor evangélico Marco Feliciano foi eleito para assumir a presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara.

Sou contra a eleição do referido pastor. Ele é denunciado por três crimes: homofobia, racismo e estelionato. Além dessas denúncias, os seus projetos defendem castração para estupradores, e resgatam o ensino de Moral e Cívica - matéria fora dos currículos educacionais desde os tempos da ditadura militar.
 
No vídeo abaixo, o pastor pede a senha do cartão de crédito dos "fiéis", e negocia os prazos divinos recebendo cheques, vejam:


 

domingo, 3 de março de 2013

Macalé no Circo


Para André Vinícius, Marcia Romano (RJ) e Rose Mary (RN)
 

Foi o poeta João da Rua quem melhor "interpretou"  Jards Macalé no Rio Grande do Norte. Lembro de um show em Natal, no final da década de 80, na Cidade da Criança, no qual Macau atualizava lindamente algumas canções antigas, com timbres que oscilavam entre o pop e a Bossa Nova. O autor de Temporada de Ingênios inscreveu o cantor na Tribuna do Norte, resgatando o seu legado tropicalista, num percurso à margem que continua desafiando "o coro dos contentes".

 

Os shows de Macalé em Natal eram tão belos que eu demorei a gostar das apresentações dele no Rio. Mais de uma década depois, assisto a um show dele, na Lapa, que ultrapassa o que vi no RN. Vigoroso e interativo, ele regeu o palco e a platéia. Demonstrou - com palavras e ritmos - como os gestos continuam produtivos quando em sintonia com o outro (a banda), o espaço (Circo Voador) e o tempo.

 

Macau celebra, aos 70, o deus tempo, tendo a margem como "navio". Viaja com vigor na "dor canalha" do Walter Franco. Canta com Adriana Calcanhoto. Ela ilumina com tons do novo milênio o Anjo Exterminado - sangrada letra de Waly Salomão que celebra a morbeza romântica e as "curtições otárias" dos amores que desaparecem,  mas sempre voltam. Elétrica e sombria, Thais Gundim canta com voz cheia de carne o Hotel das Estrelas (“Rio e também posso chorar”). Macau diz estar pronto para voar. Voou no Circo. Como Pessoa que só se reconhece como sinfonia, e de quem o poeta João da Rua é leitor.

 
 

sábado, 2 de março de 2013

assinatura das coisas

Todas as coisas estão aí/ para nos iluminar
 
Paulo Leminski, Toda Poesia

 
Clarice Lispector dizia que não enfeitava ao escrever. Apesar disso, ela criou, em Um sopro de vida, uma personagem chamada Ângela que vive “esperando chuva” e tem um cotidiano “muito enfeitado”. Se Macabéa não sabe enfeitar a realidade, Ângela sabe.


Ângela deseja escrever o “romance das coisas”. Ela humaniza as coisas. Jura que as coisas, assim como os santos e alguns antigos objetos artísticos, têm aura. As coisas mudam de lugar. Rezam mais perto só pra ler. Chovem coisas acesas  no dia a dia de quem cultiva coisas ligadas. Move a força das coisas cotidianas. Coisas aceitas. Firmes em seus lugares provisórios e à procura.

 
Nesta narrativa de coisas assinadas, uma estação se anuncia novinha em folhas. Folhas que o outono libera, enfeitando "o romance das coisas" cheias de intenções estéticas e afetivas.  Tarde entendi que as coisas - a porta aberta, a luz acesa, o ar ligado - precisam de você.

 

domingo, 24 de fevereiro de 2013

outro


 
Eu é um outro
 
Rimbaud
 
 
Aboio de bicho busca apoio em outro berro
 
Paulo Leminski, Catatau
 
 
Se o que doía no outro fosse tratado por mim a minha ferida se esquecia de si e eu me revigorava
 
 
João Gilberto Noll, Solidão continental


Com alívio, ... compreendeu que ele também era uma aparência, que outro o estava sonhando.

Jorge Luís Borges, Ficções
 
 
... entre todas as palavras pronunciadas no cotidiano não menos que a metade provém de outrem.
 
Bakhtin, Questões de Literatura e de Estética  
 
 
 


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Alexandra



Este post é uma colagem de alguns comentários escritos aqui no Língua do Pé, entre 2010 e 2013, pela atriz e querida aluna do Curso de Letras da UFRRJ, Alexandra Moraes (1972 - 2013).
 
 
Para  o meu amigo Acauã


I



"Largo não pede muros"
 
"Existe é homem humano. Travessia".
 
 
II


"Recomeçar, recomeçar sempre.
Recomeçar o já feito, o nunca terminado. E sempre só."
Aldo. Noite de Flores. Aira. p 158.
Adoro esse apóstolo. Adoro esse evangelho.

Recomeçar, sempre, todo o tempo é coisa de poeta,
coisa de muita coragem!


III

 
Sou viciada em house, nessa minha fase, digamos assim, hospitalar torço alucinadamente pra encontrar um desses no meu caminho!!! "você prefere um médico que segure sua mão enquanto você morre, ou um que não ligue pra você, mas salve sua vida?" eu prefiro ser salva!

É com a alma cheia de barcos e desconhecedora de fechos
 
Obrigada por dividir comigo os seus heróis, por me deixar segurar na pontinha dessa canoa que o salvou.

Dessa carioca sertaneja!

 

sábado, 2 de fevereiro de 2013

margens de Rosa



narrativa hídrica

o riachinho narra
no mesmo tom
uma historinha irrepetível
às mesmas margens

 

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

letras “com sabor de fruta mordida”


 

Para Marília Gonçalves,
leitora de Palmira Wanderley

 

... bongava pelas confeitarias algumas frutas...

Lima Barreto, Triste fim de Policarpo Quaresma

 

Sempre gostei de frutas. Com o passar do tempo, aumentei o consumo. O paladar e o olfato, maduros, voltam a bongar e saborear – repetidamente – as mesmas frutas da infância: manga, melancia, laranja... Principalmente a pinha. Conhecida como ata ou fruta de conde, saboreio, com freqüência, sua simbologia dual expressa na dureza do caroço negro e na delicadeza da carne branca.

 

Frutas avivam o paladar e a memória. Tornam o cotidiano menos amorfo e indolor. Comestíveis e ornamentais, elas aumentam o nosso apetite pela vida. Fazem pensar nas relações entre o corpo e os “cenários alimentares” (Ilza Matias). A escrita nasce nestes “cenários”. Brota do “galho” onde “a fruta/ toda pronta/ espera em tremores/ o marfim de um dente/ que a devolva inteira/ a condição de semente” (Diva Cunha).

 

A semente, seus cheiros e sabores abundam nos solos frutíferos. Formas e seivas da fruticultura rendem uma espécie de estética frutífera ligada ao universo agrário, onde se cultiva até “um pomar às avessas” (João Cabral). Os frutos – símbolo da abundância – simbolizam muito dos nossos desejos. Por isso, podem render uma saborosa escritura onde o que falta – como na “fruta mordida” – produz o sabor.

 

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Cidade dos Reis: conversa de rua nas veredas da ficção



Neste quarto livro de Carlos de Souza, uma das primeiras coisas que chamam a atenção do leitor é a delimitação do espaço narrativo. A noção de espaço urbano é recortada nas idéias de cultura e poder afirmadas no título. Logo nas primeiras páginas fica claro como esse espaço sugere – e às vezes determina – a ação da narrativa. Fica claro, como diz a voz que narra, ser a cidade o espaço da “alma potiguar em ação”.

 

Cidade dos Reis atravessa a “alma” de Jonas – o personagem que nasce no primeiro dia do século XX. O livro pode ser lido como uma biografia apaixonada de Natal na travessia do século XX. Jonas em natal. Ambos se atravessam – a cidade, o personagem. A narrativa é centrada nele e suas ações, embora a personagem principal esteja anunciada desde o título: um espaço que, segundo Cascudo, nunca precisou ser vila, povoado ou distrito: já nasceu cidade.

    

Antenado com a oralidade fragmentada do seu tempo, Cidade dos Reis é uma “conversa de beira de calçada” cheia de derivas. Uma conversa sortida de ficção, história e alguma memória sertaneja: “O sertão está dentro da cabeça de cada um”, lê-se no capítulo 11. Uma conversa de rua, uma sopa de letras feita de camarão e jerimum. Rango nutrido de alguma poesia, um vasto “silêncio oceânico” e a brutalidade produzida pela moral dominante ao longo de um século.

 

Cidade dos Reis é uma “conversa” repleta de re-começos. Conversa de quem aprendeu a repetir re-começo. Memórias de um narrador que conta e reconta que é uma beleza. Ficções fragmentadas sem o rigor da gravata que burocratiza a informação, matando a narrativa. Nenhuma que se compare com a narrativa centenária de Jonas, cujas crises e mutações perpassam os 20 capítulos deste romance que atravessa o século XX e seus espaços bélicos.

 

Transitando pelas tradições cultuais da nação potiguar, o livro registra nossos “primeiros bafios da modernidade” até o Plano Real do governo FH, quando o personagem Jonas estanca a sua travessia urbana. Neste trânsito, afirmam-se algumas das mais importantes metamorfoses políticas ocorridas na sociedade potiguar e na vida cotidiana de Natal, no decorrer do século, cujas três primeiras décadas são recortadas até mais ou menos o capitulo 10.

 

Essa modernidade alcança o seu apogeu no capítulo 13. Nele surgem lendas e narrativas da ocupação americana durante a segunda guerra, quando Natal absorve outros hábitos culturais e a população urbana incorpora aos seus ouvidos e paladares novos ritmos e sabores.  Outros gestos e palavras.  A cidade fabrica outro imaginário.

 

Essa modernidade natalense pode ser aferida logo no capítulo 4. Nele o leitor tem notícias da belle époque potiguar, ao ver registrados os primeiros lampiões de gás acetileno que iluminavam as ruas das Rocas, Ribeira e Cidade Alta.  O bonde elétrico e o telefone depois. Outras figurações modernas atravessam o romance, como o sonho de Manuel Dantas, e o registro de suas conferências, cujas visões oníricas perpassam o imaginário potiguar de quem produz arte e cultura desde as vanguardas do início do século XX.


os mártires de Cunhaú e a “aspereza das mantilhas”

 

Cidade dos Reis é um livro cujas narrativas transitam principalmente entre o referente histórico e os planos míticos e culturais. Repleto de registros orais, causos antigos, lendas urbanas e ditos populares, o romance apresenta procedimentos comparativos da maior relevância estética e cultural ao reler, por exemplo, a história de Natal frente às histórias de outras cidades, como Recife – outro espaço urbano que ganha relevo nas aventuras existenciais de Jonas. Nestas releituras, o autor realça as diferenças culturais entre o domínio holandês em PE e no RN, e o leitor percebe a diferença entre as águas que correm no Potengi e noutros rios. “A literatura era um rio de águas transparentes...”, lemos no último capítulo.

 

Mergulhado nestas “águas”, o autor recorta um cânone de inscrição potiguar, onde são audíveis as vozes de autores de diferentes contextos e estéticas como Nísia Floresta, Auta de Souza, Henrique Castriciano, Palmira Wanderley, Jorge Fernando, Lenine Pinto, Myriam Coeli, Luís Carlos Guimarães, Bosco Lopes, o próprio Carlos de Souza e Câmara Cascudo, dentre outros.

 

Natal Cascudo. A cidade lida, inscrita pelo seu autor. A biografia de Cascudo, os seus livros, sua recepção crítica. As relações do autor com o Integralismo e sua adesão ao Modernismo paulista. Esses núcleos temáticos perpassam o romance, na medida em que avançam as aventuras afetivas e “profissionais” de Jonas, o “comerciante” leitor de Zila e Cascudo.

 

O paralelo entre o personagem principal e a narrativa do profeta bíblico é um dos achados deste romance polifônico onde a literatura coexiste com a memória e o texto bíblico, e onde um outro cânone – o cânone da traição, na tradição literária ocidental – é recortado nas letras de Shakespeare, Machado, Eça e Flaubert. Além destes autores, o autor dialoga com Dostoievski – outro escritor realista a quem ele recorre, quando necessita refletir ou estetizar a maldade humana que reina na Cidade... repleta de informação e poesia.  Na travessia desta Cidade..., o leitor encontra tanto os mártires de Cunhaú, da guerra do Paraguai, da guerra de Canudos e da segunda guerra mundial, como depara com um recorte vocabular – poético e violento – que mensura, mesmo no universo religioso, a “aspereza das mantilhas”.

 

lendas, ventos, conversas

 

Nesta Cidade dos Reis os homens criam lendas. Produzem ventos. Na audição desses ventos e lendas ouço algumas das figurações mais consistentes da literatura potiguar contemporânea. Repleta de restos dos discursos do senso comum (precisava mesmo de tanto lugar comum?), essa “conversa” aviva algumas das paisagens mais afirmativas da história norteriograndense. Aviva e diz muito do Brasil, a partir das narrativas e lendas criadas nesta esquina americana, cujo povo ganhou a “alcunha de Papa-jerimum”.

 

Carlos de Souza anota os nomes da terra. Dá nome aos bois. Põe “a alma potiguar em ação”. Não sei se os seus personagens sabem o preço de suas escolhas, mas pelas curvas da história e veredas da ficção, sua linguagem ajuda o leitor a configurar uma identidade lingüística e espacial nesta esquina silenciosa do continente. Por isso esta prosa deve ser lida nas escolas do Rio Grande do Norte. Parodiando Jonas e seu final, a Cidade dos Reis “interessa ao resto do Brasil”.

 

sábado, 22 de dezembro de 2012

ponta negra


tinha uma brisa no meio do caminho

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Verdadeiro com a época e suas palavras

Uma versão desta minha resenha foi publicada na Revista Via Atlântica n 21 do Programa de Pós-Graduação em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa - FFLCH / USP - São Paulo, 2012
 

                    Literatura e Afrodescendência no Brasil
 

I

Um marco nos estudos da Literatura Negra produzida no Brasil. Este é o tom da recepção crítica que vem tendo a antologia “Literatura e Afrodescendência no Brasil” (UFMG, 2011), organizada em 4 volumes pelo professor Eduardo de Assis Duarte. Objetivando o “resgate e a revisão historiográfica e crítica”, a obra compila a produção de 65 pesquisadores de universidades brasileiras e estrangeiras, envolvendo obras de 100 escritores afrodescendentes que datam do século XVIII até o século XXI.

Os sumários dos livros, suas apresentações, os depoimentos e demais roteiros biobibliográficos sugerem ao leitor um trânsito prazeroso pelos estudos acerca da produção literária de autoria negra no Brasil, e por gêneros como a narrativa, o ensaio, a biografia e a poesia, dentre outros. Essa multiplicidade de formas, assim como a releitura do acervo histórico-estético da tradição negra, engendra um debate acadêmico no qual ecoam as vozes da Literatura Afro-Brasileira e seus conceitos em construção. Representativas das diferentes identidades culturais, essas vozes produzem um profícuo intertexto – histórico, crítico, ficcional – entre os autores negros de diferentes contextos históricos e estéticos.

A produção dessa intertextualidade negra auxilia na inscrição de uma tradição que começa a consolidar-se no Brasil a partir dos anos de 1930. “Nesse momento, o que era esparso assumiu uma identidade”, diz o escritor Abdias Nascimento – “o mais importante nome da cultura negra no Brasil”, segundo Maria Nazareth Soares Fonseca. Ela é co-organizadora do volume 4 da Antologia, e autora dos textos de apresentação dos poetas contemporâneos Cuti e Éle Semog. Em seu ensaio “Literatura Negra”, a professora contrapõe a questão do ritmo na cultura africana à questão das vozes, e condensa um roteiro histórico e cultural da Literatura Negra produzida nos Estados Unidos, na Europa e no Brasil. Acionar o diálogo entre esta tradição negra, os autores modernos e a produção da contemporaneidade parece ser a base do roteiro construído por Assis Duarte, como sugerem as apresentações e bibliografias atualizadas nos quatro livros assim intitulados: 1 – Precursores; 2 – Consolidação; 3 – Contemporaneidade; 4- História, teoria, polêmica.


II
 

Fruto de uma década de pesquisas, a obra se inscreve num contexto marcado pelo resgate de anos de luta política e embates culturais em torno da identidade do negro e sua produção estética e intelectual. Além disso, a referida coleção questiona posturas conservadoras e/ou diletantes que dialogam com a literatura como se ela fosse “um privilégio das elites” (Márcio Barbosa), e tivesse a sua fundamentação apenas naquele objeto artístico de filiação essencialmente verbal, cujo apogeu se deu no século XIX, ratificando o discurso de uma tradição cristã, branca, basicamente heterossexual e de vinculação eurocêntrica.

Os tempos são outros. De acordo com Abdias do Nascimento, em um dos momentos mais lúcidos do seu depoimento, “a gente tem que ser verdadeiro com a época em que estamos vivendo.” Em sintonia com o criador do Teatro Experimental do Negro, sabemos que a maioria dos leitores, escritores e pesquisadores contemporâneos, todos nós convivemos com a Literatura de forma problematizada. Nenhuma aura, nenhum diletantismo nos resta. As linguagens e os demais produtos da cultura construídos neste início de milênio são carregados da história, do gênero e da cor de quem cria. Se, como argumentam alguns, embaixo de toda pele corre o sangue da mesma cor, por cima da nossa tez a história transcorre de forma diferente, e começa a ganhar outras versões.

Como atestam as versões da margem aqui copiladas, nossa história é violenta. Contrapondo-se ao histórico repressivo e ao “passo retardado da comunidade afro-brasileira” (Abdias Nascimento), a Antologia critica “o discurso da brasilidade mestiça e tolerante” (Assis Duarte), e sugere a urgência de narrar travessias e deslocamentos das “culturas africanas transplantadas ao Brasil pelos navios negreiros” (Silviano Santiago). A dívida da nossa sociedade com os autores “marcados pela cor da pele” é antiga; o que, de certa forma, pode ser mensurado na radicalidade de posturas ideológicas e propostas estéticas de autores como o poeta Cuti, que, consciente de que já não basta reproduzir os estereótipos da esquerda e os discursos ideológicos, afirma que o “viés estritamente sociológico” prejudica a Literatura Negra.

Crítico do cânone literário brasileiro, Cuti questiona alguns autores imortais e midiáticos e, atento às relações entre ética e discurso, vê a Literatura como jogo e forma de transgressão, através da qual é possível erigir o “universo subjetivo negro”. Sua leitura estética vai além da elaboração intelectual e sugere, através da bela metáfora de uma mãe negra que ama os seus filhos, a forma de pensar o futuro desses filhos resgatando elementos para além de suas consciências.

O autor de Contos crespos é representativo de uma geração de poetas para a qual é importante assumir a identidade negra, é imprescindível escrever os textos e publicar os livros; mas isso não basta. Eles sabem que, independente da cor de quem escreve, o autor precisa ter consciência da historicidade e da materialidade cultural da linguagem e das formas com as quais trabalha. Sabem ser salutar conhecer o arquivo de formas da tradição. Cuti dialoga com esta tradição afrodescendente de forma crítica, assim como o poeta e antropólogo Edmilson de Almeida Pereira que, ao combinar “lucidez e ludismo” em sua poética, usa a palavra “no sentido lúdico de recriação e ampliação da realidade.”

III
 

Como Cuti e Márcio Barbosa, o professor Edmilson de Almeida (uma das bibliografias mais alentadas das poéticas contemporâneas) “circula” pela Antologia em mais de um volume. Quando lido pelas lentes certeiras da ensaísta Maria José Somerlate, Edmilson surge como autor de poemas que provocam e “costumam desarmar os leitores mais incautos”. Autor dos perfis literários de Estevão Maya-Maya e Salgado Maranhão, o ensaísta Edmilson de Almeida destaca-se também entre os autores de depoimentos no volume 4. Além do seu discurso elucidativo, ressalto, no referido volume, as falas de Abdias Nascimento, Cuti e Zilá Bernd; principalmente pela forma como eles inscrevem seus roteiros existenciais e constroem os seus textos, entre a lucidez afirmativa da experiência social e a construção de uma “estética negra”, cuja história é assinada muitas vezes com sangue. Para Cuti, a construção dessa estética “é uma questão de sobrevivência.”

O discurso de cunho ético-estético-ideológico elaborado por Cuti – e ratificado por Edmilson de Almeida e outros contemporâneos – filia-se ao discurso da consciência negra oriundo da tradição. Como exemplos dessa filiação histórica destacam-se, dentre outros, os escritores “consolidados” Domício Proença Filho, Joel Rufino dos Santos e Oswaldo de Camargo, para quem a “conquista estética também é luta”. Em seu depoimento, o autor ratifica as idéias apresentadas por Regina Dalcastagné, cujo texto problematiza, por meios gráficos e estatísticos, as dificuldades do autor negro frente à falta de modelos na tradição literária.

Há no nome dessa tradição, querelas infindas: Literatura Negra ou Literatura Afrodescendente? A radicalidade de algumas leituras pode ser aferida já na seleção dos vocábulos com os quais os estudiosos buscam cognominar esta Literatura. A pesquisadora Zilá Bernd lembra que alguns autores continuam acreditando numa “singularidade” e numa “essência única”.  Para esses autores, “negra” é a palavra que melhor adjetiva esta literatura, principalmente por carregar em seu significado a inscrição das inúmeras lutas sociais empreendidas pelos negros. A autora de Introdução à literatura negra critica este olhar “defasado” e, em sintonia com um referencial teórico do seu tempo, apresenta uma postura reflexiva que difere da maioria ao lembrar que separar autores pela cor é racismo.

IV

Corpus de ponta e crendo que “a concepção de arte é mutável”, Assis Duarte elege o vocábulo afrodescendente como palavra que revitaliza a cultura produzida pelos negros no atual contexto. Tal revitalização atualiza uma produção que começa a se inscrever na “Linguagem dos olhos” românticos do poeta letrado Domingos Caldas Barbosa, e chega aos contemporâneos sem nenhuma crença em aura ou essência, assim: “em cruz fico muito à vontade/ para reunir setas de revolta” (Cuti).  Na leitura em torno desta tradição e dos diálogos estabelecidos entre ela e os autores modernos e contemporâneos, o organizador demonstra a contemporaneidade e a contribuição valiosa da sua empresa.

Atentando para o lugar de onde as coisas são vistas e/ou ditas, esse olhar contemporâneo é acionado principalmente em “Entre Orfeu e Exu, a afrodescendência toma a palavra”, onde Assis Duarte traça uma linha dialógica da tradição negra, e em “Por um conceito de Literatura Afro-Brasileira”, texto que aciona várias vozes em torno da questão do conceito de Literatura escrita pelos negros.  Para a apresentação deste conceito em construção, o ensaísta e pesquisador desconstrói signos culturais e estéticos. Nessa desconstrução, ele dimensiona a saturação histórica de palavras como “negro”, cujo significante atravessa, desde a Bíblia, contextos históricos datados, carregados de muitos preconceitos sociais. Esse olhar contemporâneo que desconstrói e sugere outros ângulos de leitura faz desta uma antologia imprescindível para quem lê, estuda ou deseja conhecer a Literatura Negra produzida no Brasil.