Capitu, de Luiz Tatit, com imagens de Capitu - minissérie de Luiz Fernando Carvalho
e todo caminho deu no mar
"lâmpada para os meus pés é a tua palavra"
terça-feira, 10 de julho de 2012
Ná no quintal
Curto a cantora Ná Ozzetti desde o início dos anos 80, quando adquiri em
Natal (RN) – ao acaso, sem referência – um vinil do Rumo. Este
grupo paulista entoa e traduz muito da subjetividade afetiva daquela década. Suas
sonoridades sutis marcaram minha audição mais ou menos como os timbres e tons de João
Gilberto, da poesia de Leminski e da música pop formataram o ouvido.
Com o belo show Meu quintal, Ná comemora 30 anos de uma carreira
bastante produtiva e sem concessões. Entremeado de clássicos como Capitu e
Atlântica, o show tem por base o CD homônimo de 2011, repleto de parcerias
com Luiz Tatit, Dante Ozzetti e Alice Ruiz, dentre outros.
Meu quintal ratifica a sofisticação estética de uma trajetória inventiva que não se repete, e cuja "língua falada" faz "tecer a melhor teia" (Luiz Tatit).
Meu quintal ratifica a sofisticação estética de uma trajetória inventiva que não se repete, e cuja "língua falada" faz "tecer a melhor teia" (Luiz Tatit).
Chovem acordes e palavras brotam no quintal de Ná. Ela dança lindamente ao colher os frutos do seu quintal cantado. Quintal urbano que também “é um sertão” onde vingam gestos. Seu repertório surpreende principalmente pelo teor de invenção e contemporaneidade.
A seguir, a palavra
da cantora cuja sutileza musical (a)fia.
NG: Ná, os seus discos e CDs
circulam principalmente nas grandes cidades. Muitos ouvintes não os
encontram, ou desconhecem a belíssima obra que você vem construindo ao longo
das três últimas décadas. Gostaria que apresentasse sua discografia, e as
formas de acesso e aquisição das obras.
NO: Nonato, com o grupo Rumo
gravei os seguintes discos:
Rumo e Rumo aos Antigos - lançados simultaneamente
em 1981
Diletantismo - 1983
Caprichoso - 1985
Quero Passear - 1988
Rumo ao Vivo - 1992
O Sumo do Rumo - Coletânea
Diletantismo - 1983
Caprichoso - 1985
Quero Passear - 1988
Rumo ao Vivo - 1992
O Sumo do Rumo - Coletânea
maiores informações no site www.gruporumo.com.br
em carreira solo:
Ná Ozzetti - 1988
Ná - 1994
Love Lee Rita - 1996
Estopim - 1998
Show - 2001
Piano e Voz - com André Mehmari - 2005
DVD Piano e Voz - idem - 2006
Balangandãs - 2009
Meu Quintal - 2011
a maior parte de minha discografia solo foi relançada pela gravadora MCD www.mcd.com.br . Além do site, normalmente são encontrados em livrarias como a Cultura, Saraiva, Fnac e Livraria da Vila.
o CD Meu Quintal foi lançado pela Borandá www.boranda.com.br
Ná - 1994
Love Lee Rita - 1996
Estopim - 1998
Show - 2001
Piano e Voz - com André Mehmari - 2005
DVD Piano e Voz - idem - 2006
Balangandãs - 2009
Meu Quintal - 2011
a maior parte de minha discografia solo foi relançada pela gravadora MCD www.mcd.com.br . Além do site, normalmente são encontrados em livrarias como a Cultura, Saraiva, Fnac e Livraria da Vila.
o CD Meu Quintal foi lançado pela Borandá www.boranda.com.br
NG: Dentre os trabalhos que conheço – Ná Ozzetti (1988), Love Rita Lee (1996), Piano e Voz (2005) e Meu Quintal (2011) –, percebo ser neste último que você se afirma como compositora. Das 12 faixas que compõem o cd, 11 são suas. O que motivou esta presença marcante da compositora?
NO: tenho composições também nos discos Ná (1994) e Estopim (1998).
comecei minha carreira como intérprete e a composição veio mais tarde.
gosto muito de poder alternar meus trabalhos, entre projetos autorais e os em que atuo como intérprete.
NG: O que se ouve e lê no seu quintal? Por causa da sua formação em Artes Plásticas e do diálogo que mantém com outras artes, gostaria de saber as influências estéticas.
NO: são muitas influências, em todas as formas de arte, como na dança Kazuo Ohno, Pina Bausch, no cinema Fellini, Chaplin, nas artes plásticas meus amigos Edith Derdyk, Laura Vinci, Gal Oppido, na literatura Guimarães Rosa, Mia Couto, os poetas Alice Ruiz, Paulo Leminski, Cecília Meirelles, e na música Tom Jobim, Beatles, só para citar alguns nomes, pois a lista é grande.
NG: Quais os projetos futuros?
NO: tenho idéias para um novo CD, com outras canções. Já já começo a
trabalhar nele.
sexta-feira, 6 de julho de 2012
Entrevista a Lohan Lage
Olá, caro Nonato. É com muita satisfação que o
recebemos, mais uma vez como jurado, no Concurso de Poesia Autores S/A. Nonato,
como você enxerga a literatura contemporânea brasileira, diante de tantas
mudanças nos hábitos da leitura e da escrita, bem como da edição dos livros e
da divulgação dos trabalhos pelas diversas mídias disponíveis? Qual é a cara do
novo poeta brasileiro? Ele preza pela técnica, ele remete ao clássico, ou ele
possui raízes firmes no movimento modernista da década de 20/30, quebrando
paradigmas a seu modo?
NG: Agradeço pelo convite, Lohan. Parabenizo pelo concurso cuja continuidade deve
ser celebrada, e pela sugestão da mitologia como um tema repleto de
possibilidades. Parabéns principalmente para os autores classificados. Creio
que a qualidade cresceu.
Vamos à pergunta que, na verdade, são três ou
quatro. Quando penso em literatura contemporânea, falo principalmente do que
foi produzido nas letras das últimas décadas do século XX e neste início de
milênio. Na minha visão de leitor, essa produção tem pouco a ver com o que
chamamos, por exemplo, de Literatura no século XIX – o mais literário de todos
os séculos. Naquele contexto, a Literatura era feita basicamente do diálogo com
a própria Literatura – uma arte calcada principalmente nas noções de gênero e
oralidade que sedimentam a cultura clássica. Depois das vanguardas do início do
século XX e de toda arte de ruptura produzida pelo Modernismo, ninguém acredita
mais nisso.
O cotidiano do século XX produziu uma
sensibilidade maquínica e virtual onde os conceitos de tempo, espaço e
identidade são relidos, alterando as concepções artísticas do
Classicismo e do Romantismo. A lição de Walter Benjamin
nos ensina que quando mudam os meios de percepção de uma comunidade,
transformam-se suas formas de fazer arte, de produzir cultura. Ou seja: não dá
para viver no século XXI cercado de mídias, telas, teclas, Iphones e escrever
como se estivesse num campo árcade tocando flauta, ouvindo vento, sem IPTU
para pagar. Por isso creio que a cara do poeta contemporâneo seja a do sujeito
que, dialogando criticamente com o arquivo de formas que a tradição nos legou, consegue
inscrever a sensibilidade do seu tempo.
2.Independente do
estilo dessa nova geração literária, quero saber, na sua concepção, o que um
poema tem que ter/ser para receber a sua nota 10? Que técnica é imprescindível,
a seu ver? A teoria deve sobrepujar a subjetividade na produção de um poema?
NG: Teoria é um instrumento contextual e
produtivo que serve principalmente para dar aula. A poeta contemporânea Ana
Cristina Cesar escreveu que foi salva pela técnica. Quando pensamos em arte,
não há salvação sem técnica. Seja na vida ou no texto, é preciso o exercício de
uma forma. Além da imagem, a forma remete a sons, noções de sintaxe e de
extensão. Os materiais acústicos da forma têm a ver com ritmos e timbres,
dentre outros, demarcando uma voz, um jeito de dizer. Por isso não curto poeta
que não lê ou aprimora esse jeito. Independente de geração, a nota máxima vai
geralmente para o autor que acentua a sua voz. E essa acentuação vocal requer, hoje,
um diálogo com diferentes linguagens – verbais e não-verbais – e um domínio da
forma que leva em conta, dentre outros, as noções de rapidez, visibilidade e fragmentação.
Esta entrevista completa e os meus comentários sobre os poemas do referido concurso foram publicados em http://autoressa.blogspot.com.br/
quinta-feira, 5 de julho de 2012
greve no "entre aspas"
Iniciada em 17 de maio de 2012, a greve nas universidades
federais brasileiras é o tema do programa ancorado por Monica Waldvogel. O debate dura em torno de 23 minutos. Começa
expondo um tema contemporâneo que é polêmico e pouco debatido: a mudança de paradigmas universitários na produção de conhecimento.
O programa trata do “caráter mercantil” e da
problemática da privatização no ensino superior, da desestruturação do plano de
trabalho e das condições materiais das instituições. Ressalta questões como Reuni,
aposentadoria e, dentre outros, as relações entre alunos e professores. Veja no link:
sábado, 16 de junho de 2012
Ulisses deslocados
cada viagem, pequena ou grande, sempre é Odisséia
Italo Calvino, Por que ler os clássicos
“Os
lugares a gente carrega, os lugares estão em nós”.
“Sou um
homem do século XIX extraviado neste século”.
@
“O
argentino tem a mania do exílio”
Cesar
Aira in Diálogos Oblíquos, Bella
Josef
@
“...tinha
a alma cheia de barcos”
Graciliano
Ramos, Angústia
@
“Eu me
considero um grego transviado nas ruas de Bizâncio”.
Euclides
da Cunha in Revista de História, Alberto Venâncio Filho
@
“Sou uma
mulher do século XIX/ disfarçada em século XX”
"As viagens em que acabamos chegando por partes: primeiro o corpo, depois a sombra."
Adolfo Montejo Navas, Pedras Pensadas
quarta-feira, 13 de junho de 2012
João e Francisco
O cantor e compositor João Bosco é o artista homenageado do Prêmio da Música Brasileira 2012, e ganha do filho - o escritor Francisco Bosco - o primeiro neto. Por este duplo motivo de comemorações, publico no link abaixo um pequeno texto que escrevi sobre o cd "Malabaristas" de 2003, e que termina assim:
"João canta o afeto e o terror. Celebra o lamento e a fé, a falta de arrependimento e o peso do tempo, utilizando-se de todos os timbres e tons do seu vasto arquivo musical. Francisco não deixa por menos: neste terceiro trabalho em parceria com o pai, é visível o seu equilíbrio como malabarista da palavra."
sábado, 9 de junho de 2012
romance de novela
para Gilberto Gil - "Diadorim noite neon"
que completa 70 anos este mes e curte Carminha
que completa 70 anos este mes e curte Carminha
I – Pedagogia dos
afetos e traições
Ainda não vi
ninguém lendo no núcleo zona sul de Avenida Brasil. Chama atenção o fato de ser
Tufão, o craque suburbano, o leitor. Primeiro, Nina sugere para ele a leitura do
escritor checo Fanz Kafka. Em sua prosa, o ser degradante que se perde de si
sugere o roteiro de Tufão ao perder-se de Monalisa. Mas ele não saca o recado
de Nina: ela deseja que, ao ler “A metamorfose” (1915), o craque perceba ser
numa barata que Carminha o transforma, impedindo-o de ler o real a sua volta.
Machado de Assis
surge, na novela, em dose dupla para “leitores de alma já formada”: “Memórias
póstumas de Brás Cubas” (1881) e “Dom Casmurro” (1899). Os dois romances trazem
para a narrativa a senha da traição de Carminha. Mas o jogador não se toca.
Nina tempera cada vez mais o cardápio literário: manda ele ler de Gustavo
Flaubert o livro “Madame Bovary” (1856) – romance que possui o adultério como
tema. Nesta prosa onde um médico rural é traído pela esposa, o burguês é um
vilão cujos instintos e emoções dão o tom da narrativa.
A educação
sentimental de Tufão é lenta, mas sofisticada. A pedagogia dos afetos e das
pequenas traições, aplicada por Nina, leciona alguns dos melhores romances da
literatura moderna produzida no Brasil e no mundo. Não sei da formação de Nina
nem o motivo do seu bom gosto literário. Mas sei uma senha irônica: saída do
lixão, ela foi educada na Argentina – país onde leitura de livro é um
hábito bem mais cotidiano do que por aqui.
II – Kafka,
Machado, Flaubert e Rosa
Depois de ler Kafka,
Machado e Flaubert, o craque lê o Guimarães Rosa de “Grande Sertão: vereda”
(1956). “Diadorim é a minha neblina” – diz Riobaldo, o personagem que rememora
numa prestação de contas infinitamente desfalcada, onde nenhum dos “itens”
fecha. Sertão é “onde os pastos carecem de fechos”, sabe o jagunço. Os dados
também não fecham na cabeça de Tufão. Travestida de defensora da moral e dos
bons costumes, Carminha encarna uma Diadorim que não chove. Sua neblina adia.
Engana-se bem quem nela se molha.
Será a próxima
leitura de Tufão “A paixão segundo G H” ou outro
título da Clarice? “Fragmentos de um discurso amoroso”, do Roland
Barthes? Algum romance do Graciliano ou Camus? Sábato, Cortázar, Aira ou
Piglia? Quem sabe, o próximo romance do craque seja acompanhado da leitura da
própria Nina, cujo rango ele degusta e cuja identidade ele vem assoletrando em
pequenos goles.
sábado, 2 de junho de 2012
Ana C (02/06/52 - 29/10/83)
e hoje os sertões chamegam de
chamegos
nos cometas lustrosos
dos alcoólatras vadios,
mu!
para
encontrar, sempre
que possível, rabiscos,
literaturas,
ânsias
metafóricas e desconsoladas.
Adeus?
Foto: Aderaldo Luciano
Este poema não se encontra em nenhum dos nove livros
da escritora carioca Ana Cristina Cesar que faria 60 anos hoje. Ele foi escrito pela autora na página de um dicionário de inglês, cuja cópia me foi cedida pela professora Maria Luisa Cesar,
mãe da poeta, em 1996.
O poema começa com alusões ao tempo e ao espaço – “e
hoje os sertões”. Há nele uma voz que elege o presente e a margem como espaço
da escritura poética, da condição existencial. Uma voz que narra de olho nos “cometas”
e que, feito a lema, deixa um rastro prateado quando passam.
Trilhando as veredas modernas que Euclides da Cunha e Guimarães Rosa abriram em nossas Letras,
Ana Cristina dilata os limites da representação e do regionalismo. Com essa dilatação, ela estetiza uma terceira margem literária na qual a
nostalgia e a indelicadeza jamais são imitadas.
Nesta margem narrada pela autora, vinga um texto no
qual aflora uma subjetividade aflita, deslocada. Subjetividade essa que caracteriza o “hoje” de quem
rabisca, na tentativa de armar a tecnologia do fazer literário, de responder
a pergunta do roteiro.
domingo, 27 de maio de 2012
A educaçao sentimental da nova classe média
I - Avenida... veloz
Tarde entendi
que a vida é inventada, e este é um dos motivos pelos quais curto
ver novela das 9. Quando é boa como Avenida Brasil, na medida em que a narrativa
cresce, vê-se que o que vai sendo inventado na trama muitas vezes copia as
cotas de invenção e fantasia que a vida exige quase todo santo dia.
Há tempos não via uma novela bem urdida. Trama com personagens de
carne e osso, onde os elementos da narrativa encaixam. Dentre esses
elementos, curto principalmente o ritmo. Avenida... tem vários ritmos.
Ritmos velozes. Tão velozes quanto as canções da trilha. Velozes feito as falas e os gestos cotidianos
da nova classe social que diariamente é posta na tela pelo autor João Emanuel Carneiro - coroteirista do belo filme Central do Brasil.
A velocidade
musical - e a subjetiva - têm muito a ver com a rapidez com que os fatos se anunciam e se transformam nesta trama agitada onde nada é claro; até a mocinha é contraditória, mente e trapaça.
Essa agitação da trama é traduzida, dentre outros, nas belas imagens
e curvas - noturnas, aceleradas - da real Avenida Brasil, no Rio de Janeiro, com trilha sonora eletrizante.
Por esta avenida passa diariamente o Brasil.
Concordo com o autor Gilberto Braga quando diz que a novela é boa, e a trilha não. Mas creio que nesta altura da vida (e da história da TV), a gente já sabe que dificilmente Deus dá tudo. Se a trilha sonora é cruel (brega, melosa), podemos investir mais no olhar. A iluminação, por exemplo, é certeira: cheia de contrastes de luz e sombras, com tons que se repetem em variações de cores que parecem dialogar entre si. Tomadas diferentes. Imagens de cinema nos brinda a direção da Amora Mauthner.
Concordo com o autor Gilberto Braga quando diz que a novela é boa, e a trilha não. Mas creio que nesta altura da vida (e da história da TV), a gente já sabe que dificilmente Deus dá tudo. Se a trilha sonora é cruel (brega, melosa), podemos investir mais no olhar. A iluminação, por exemplo, é certeira: cheia de contrastes de luz e sombras, com tons que se repetem em variações de cores que parecem dialogar entre si. Tomadas diferentes. Imagens de cinema nos brinda a direção da Amora Mauthner.
II - país violento
Curto
principalmente esses contrastes e variações que, juntos a muitas inversões e paradoxos
infindos, estruturam os discursos da Avenida Brasil. Através deles, o autor “leciona”
as contradições das nossas identidades culturais. Desnuda as fragilidades que
engendram as relações familiares e afetivas e estampa, de forma sutil, nossas
mazelas sociais.
Dá para
entender porque a novela gera tantos comentários críticos: é difícil
perceber, no momento em que o Brasil começa a encarar o seu passado militar, como
somos violentos e preconceituosos. Claro que somos lindos. Temos graça e, ao contrário de muitos povos europeus, aprendemos a conversar olhando no olho. Chegamos ao século XXI - até que enfim - com as contas em dia.
Mas não
podemos esquecer, por exemplo, que somos campeões mundiais em acidentes de trânsito.
Ostentamos uma das mais altas estatísticas de violência familiar e de abuso sexual. Afirmamos não ter preconceito, mas espancamos diariamente
as minorias sexuais. Aqui, 10 mulheres morrem todos os dias. Vou repetir por escrito: os brasileiros matamos dez mulheres a cada dia.
Mais: nossos índices de analfabetismo continuam altos. Lemos pouco. Basta olhar para os vizinhos argentinos e suas avenidas repletas de livrarias. E para quem crê que Avenida... exagera nos cenários violentos do lixo, é bom lembrar que produzimos o maior lixão da América Latina – o aterro de Gramacho. Com 1,3 milhão de metros quadrados ele sustenta, além de porcos e urubus, cerca de 1.700 pessoas. Lá viveu Estamira - a louca cuja lucidez cortava nos lixões onde o cinema chegou antes da tv.
Mais: nossos índices de analfabetismo continuam altos. Lemos pouco. Basta olhar para os vizinhos argentinos e suas avenidas repletas de livrarias. E para quem crê que Avenida... exagera nos cenários violentos do lixo, é bom lembrar que produzimos o maior lixão da América Latina – o aterro de Gramacho. Com 1,3 milhão de metros quadrados ele sustenta, além de porcos e urubus, cerca de 1.700 pessoas. Lá viveu Estamira - a louca cuja lucidez cortava nos lixões onde o cinema chegou antes da tv.
III - nomes e livros
Seria covardia
destacar aqui algum nome do grande elenco: só tem craques. Até estreantes, que
nem a bela Tessália e o dançarino Darkson, arrasam (A escolha dos nomes dos
personagens é outro acerto. Geralmente há bastante sintonia entre a sonoridade
do nome e a imagem do artista. Tufão ou Nina, Adauto ou Muciri, o material acústico combina diretinho
com a materialidade física).
Como um
telespectador que dá aulas, é claro que a questão da leitura nesta novela interessa
muito a mim e à professora Tetê Bezerra, noveleira assumida. Não vi ninguém lendo no núcleo zona sula da novela. Chama atenção o
fato de ser Tufão, o craque suburbano, o leitor. Primeiro, Nina sugere para ele
a leitura de Kafka. Mas ele não entende o recado da cozinheira: ela deseja que
ele veja que é numa barata que Carminha o transforma, impedindo-o de perceber o real
à sua volta.
Depois dA
Metamorfose onde o ser degradante se perde de si, Nina indica Dom Casmurro, de Machado
de Assis, trazendo as senhas da dúvida e da traição de que Tufão é vitima. Mas o jogador não
se toca. Aí Nina pega pesado: manda ele ler do Flaubert o livro Madame Bovary –
romance de 1856 no qual o adultério é tema.
Nesta prosa francesa onde um médico rural é traído pela esposa, o burguês é o vilão cujos instintos e emoções dão o tom da narrativa. Por
causa deste clássico do realismo francês, Flaubert e o editor foram levados aos
tribunais, acusados de imoralidade e pornografia - signos que remtem direitinho ao universo da Carminha.
Tomara que a educação sentimental de Nina surta efeito. Tomara que o Tufão se toque logo. E que João Emanuel, Murilo Benício e Adriana Esteves não demorem.
Tomara que a educação sentimental de Nina surta efeito. Tomara que o Tufão se toque logo. E que João Emanuel, Murilo Benício e Adriana Esteves não demorem.
sexta-feira, 25 de maio de 2012
greve
Iniciada no dia 17 de maio, a greve dos docentes das universidades federais envolve 44 das 60 instituições de ensino. Essas instituições são a base de 48 seções sindicais filiadas ao ANDES-SN. A seguir, transcrevo um texto do Comando Nacional de Greve da Andes - SN. www.andes.org.br
À SOCIEDADE BRASILEIRA
Por que os(as)
professores(as) das instituições federais estão em greve?
A defesa do ensino
público, gratuito e de qualidade é parte essencial da história do Sindicato
Nacional das Instituições de Ensino Superior (ANDES-SN), assim como a exigência
da população brasileira, que clama por serviços públicos, com qualidade, que
atendam às suas necessidades de saúde, educação, segurança, transporte, entre
outros direitos sociais básicos.
Os(as) professores(as)
federais estão em greve em defesa da
Universidade Pública, Gratuita e de Qualidade e de uma carreira digna, que
reconheça o importante papel que os docentes têm na vida da população brasileira.
O governo vem usando
seguidamente o discurso da crise financeira internacional como justificativa
para cortes de verbas nas áreas sociais e para rejeitar todas as demandas
feitas pelos servidores públicos federais por melhores condições de trabalho,
remuneração e, consequentemente, qualidade no serviço público.
A situação provocada pela
priorização de investimentos do Estado no setor empresarial e financeiro causa
impacto no serviço público, afetando diretamente a população que dele se
beneficia.
Os professores federais
estão em greve em defesa da Universidade Pública, Gratuita e de Qualidade e de
uma carreira digna, que reconheça o
importante papel que os docentes federais tem na vida da população brasileira.
Pela
reestruturação da carreira.
Há anos os(as)
professores(as) vêm lutando pela reestruturação do Plano de Carreira da categoria,
por acreditarem que essa reivindicação valoriza a atividade docente e, dessa
forma, motiva a entrada e permanência dos profissionais nas instituições
federais de ensino. No ano passado, o ANDES-SN assinou um acordo emergencial
com o governo, que previa, como um dos principais pontos, a reestruturação da
carreira até 31 de março de 2012. Já estamos na segunda quinzena de maio e nada
aconteceu em relação a essa reestruturação.
Para reestruturação da
carreira atual, desatualizada e desvirtuada conceitualmente pelos sucessivos
governos, o ANDES-SN propõe uma carreira com 13 níveis, variação remuneratória
de 5% entre níveis, a partir do piso para regime de trabalho de 20 horas,
correspondente ao salário mínimo do DIEESE (atualmente calculado em R$2.329,35)
A valorização dos diferentes regimes de trabalho e da titulação devem ser parte
integrante de salários e não dispersos em forma de gratificações.
Pela
melhoria das condições de trabalho nas Instituições Federais.
O começo do ano de 2012
evidenciou a precariedade de várias instituições. Diversos cursos em Instituições Federais
de Ensino – IFE tiveram seu início suspenso ou atrasado devido à precariedade
das Instituições.
O quadro é muito diferente
do que o governo noticia. Existem instituições sem professores, sem
laboratórios, sem salas de aula, sem refeitórios ou restaurantes
universitários, até sem bebedouros e papel higiênico, afetando diretamente a
qualidade do ensino.
Ninguém deveria ser
submetido a trabalhar, a ensinar ou a aprender num ambiente assim. Sofrem
professores, estudantes e técnicos administrativos das Instituições Federais de
Ensino. E num olhar mais amplo, sofre todo o povo brasileiro, que utilizará dos
serviços de profissionais formados em situações precárias e que, se ainda não
têm, pode vir a ter seus filhos estudando nessas condições.
Por isso convidamos todos a
se juntarem à nossa luta. Essa batalha não é só dos(as) professores(as), mas de
todos aqueles que desejam um país digno e uma educação pública, gratuita e de
qualidade.
A Educação pública,
gratuita e de qualidade é um direito de todos.
terça-feira, 15 de maio de 2012
leituras da paisagem
Algumas paisagens nordestinas serviram de cenários para o leitor em
formação que eu era no início dos anos 80. Amo cenários de
leituras à beira mar como Caucaia e Canoa Quebrada (CE), Alcântara (MA), Jacumã (PB),
Trancoso (BA) Pitangui, Baía Formosa e Pipa (RN).
Essas praias são rotas de muitas tribos. Principalmente para mochileiros, estudantes e alternativos do mundo inteiro. Viajam por elas surfistas e leitores paridos pelos movimentos da contracultura. Últimos “hóspedes da utopia” andando sozinhos ou em bandos. Muitos deles tendo como parceria um livro ou "caderno terapêutico".
Essas praias são rotas de muitas tribos. Principalmente para mochileiros, estudantes e alternativos do mundo inteiro. Viajam por elas surfistas e leitores paridos pelos movimentos da contracultura. Últimos “hóspedes da utopia” andando sozinhos ou em bandos. Muitos deles tendo como parceria um livro ou "caderno terapêutico".
Algumas leituras daquele contexto ainda ecoam. Lembro da poesia de
Pessoa e do romance “Não verás país nenhum”, do Ignácio de Loyola Brandão, lidos
em Canoa. De Alcântara - onde li o mar mais triste que olhei - ficaram os
casarões em ruínas a espera do imperador, e um São Raimundo Nonato de madeira que ainda hoje me fita das estantes que me suportam.
leitura formata a alma
Lendo o “Livro do Desassossego”, do Bernardo Soares, em Pipa, atravessei por entre pedras o deserto das águas; fabriquei sustos, até então desconhecidos, perante a pujança com a qual a vida às vezes brota.
“Ópio”, do Jean Cocteau, foi lido em Trancoso em meio aos excessos da juventude e o martírio da beleza.
Uma dissertação sobre a poesia da escritora Ana Cristina Cesar foi escrita na praia de Pitangui - um retiro prolongado cujo silêncio vicia. De Jacumã, ficaram leituras esquecidas e as passagens das águas claras de rio e mar avisando que a vida flui.
leitura formata a alma
Lendo o “Livro do Desassossego”, do Bernardo Soares, em Pipa, atravessei por entre pedras o deserto das águas; fabriquei sustos, até então desconhecidos, perante a pujança com a qual a vida às vezes brota.
“Ópio”, do Jean Cocteau, foi lido em Trancoso em meio aos excessos da juventude e o martírio da beleza.
Uma dissertação sobre a poesia da escritora Ana Cristina Cesar foi escrita na praia de Pitangui - um retiro prolongado cujo silêncio vicia. De Jacumã, ficaram leituras esquecidas e as passagens das águas claras de rio e mar avisando que a vida flui.
Trindade
Lembrei dessas paradas de águas e letras porque li - em Trindade (RJ) - “O filho de mil homens” do Valter Hugo Mãe, e “Alguma Crítica” (que título) do João Alexandre Barbosa - grande crítico literário e professor, com quem li a modernidade crítica de Drummond e Cabral.
Na segunda vez que estive neste destrito de Paraty, li "Portugal como destino", do Eduardo Lourenço, e a poesia completa de Alberto Caeiro (ouvindo "O rio da minha aldeia" musicado por Tom Jobim - "A música em Pessoa"). Completam o concerto, as "Vozes da lírica hispano-americana" na tradução precisa do mestre Aurélio Buarque de Hollanda.
Trindade (foto)
é um cenário para sempre. Um cenário de leituras que, assim como aquelas praias nordestinas,
devolve o leitor a si. Nestas paisagens marítimas, quem lê se reconhece - à la Bernardo Soares - como sinfonia.
domingo, 13 de maio de 2012
Anna
Lúcido e materno é o comentário da Anna Kaum, publicado neste blog no dia 12 de Maio. Gostei tanto que o transformei - interferindo apenas na forma - neste post com tela de Aguilar.
Quando eu era menina, como toda menina no meu tempo de menina, sonhava
com filhos. Mais tarde a medicina me roubou a ilusão e no espelho, entre
suspiros, não me restava muita opção. Tinha que me aquietar, me reinventar,
procurar em outro lugar os pedaços de história que formariam meu caminho. No
fundo, não sabia ao certo se era mesmo ser mãe o que queria.
Um dia, sem que me ocupasse em querer, de dentro de mim meu filho se apossou e
no meio da estranheza cheia de perguntas, a minha revelia ele crescia. Isto foi
a dezoito anos atrás e não sei o que seria se ele não tivesse vindo. Ele é o
outro e eu mesma, minha sanidade, minha alegria, minha escolha perfeita, a
parte inteira da minha colcha de retalhos.
Se você me perguntar o que é ser mãe, não sei; de todas as definições, nenhuma se encaixa; e se me perguntar o que é ter um filho e conviver com ele e se deixar ensinar, só poderei lhe dizer que não conheço as palavras.
sexta-feira, 11 de maio de 2012
Mãe e filho
Para Constância Duarte
Filias e filiações tecidas a partir
do entorno, do que se pega antes da mão ouvir. A casa. O cheiro bom e a estupidez da casa. A imobilidade da casa que côa o sol
e o deslocamento dos seres que a habitam.
Corpos abandonados por suas almas. Corpos e casas reinventados. Uma morta interpõe-se entre o velho e o menino? Nojo e declínio na leitura da finitude. Adubondade.
Essas figurações de vida e morte constituem alguns dos núcleos temáticos que estruturam o belo romance “O filho de mil homens” (2011) do escritor português Valter Hugo Mãe, autor do pujante "A máquina de fazer espanhóis" (2007) - narrativa que tem como personagem o Esteves da "Tabacaria" de Pessoa.
A seguir, trechos desta ficção que comove e ratifica a vitalidade do amor e da saudade na cultura portuguesa, de olho na construção de outros arranjos familiares e nos novos formatos das relações contemporâneas.
Corpos abandonados por suas almas. Corpos e casas reinventados. Uma morta interpõe-se entre o velho e o menino? Nojo e declínio na leitura da finitude. Adubondade.
Essas figurações de vida e morte constituem alguns dos núcleos temáticos que estruturam o belo romance “O filho de mil homens” (2011) do escritor português Valter Hugo Mãe, autor do pujante "A máquina de fazer espanhóis" (2007) - narrativa que tem como personagem o Esteves da "Tabacaria" de Pessoa.
A seguir, trechos desta ficção que comove e ratifica a vitalidade do amor e da saudade na cultura portuguesa, de olho na construção de outros arranjos familiares e nos novos formatos das relações contemporâneas.
... podia afirmar com rigor um cuidado de valores que ratificariam a sua existência ... p. 154
Era uma doença que lhe saía nas palavras. p. 178
Cada filho somos nós no melhor que temos para dar. p. 181
... ambos sentiram que a natureza toda os entendia e geria a sua inteligência para favorecer os seus desejos. Puseram-se de luz, como se caíssem de um candeeiro. p. 196
domingo, 6 de maio de 2012
narrativa histórica
Para Tetê e Fátima Bezerra
No momento em
que o Brasil começa a olhar para o seu passado como procedimento que permite
avançar e se ver, o texto “Os nossos holocaustos”, de Cristóvão Buarque,
publicado nO Globo em 19 de abril, auxilia na releitura da nossa narrativa
histórica. Como sugere o título do texto, Cristóvão nos convoca a rememorar alguns
dos nossos holocaustos – principalmente a morte de 4 a 5 milhões de índios, e a
escravidão de 4 milhões de negros arrancados da África como mercadoria durante
mais ou menos 300 anos. Negros e índios não tinham alma, pensava o colonizador.
Em 2005, Lula
viajou ao Senegal – ponto de saída dos navios negreiros para as Américas – e
pediu perdão aos africanos por causa da escravidão. Um gesto histórico. Na Casa
dos Escravos, Lula falou do grave erro histórico que foi o regime da
escravidão, e instituiu as cotas raciais nas universidades brasileiras como
procedimento que tenta algum reparo. Depois de muita celeuma, o STF aprovou em
2012 a legalização das cotas – por unanimidade – derrotando a postura conservadora
do DEM.
Na semana
passada, cinco universidades fluminenses – UFF, UERJ, UFRJ, UNIRIO e UFRRJ –
outorgaram o título de doutor honoris causa a Lula. Nada mais justo. Com
diploma de torneiro mecânico, ele criou 12 universidades (superando a marca das 10
criadas na era JK). Alfabetizou corações e mentes. Como disse o primeiro presidente americano negro, ele é o
cara. Encarou os nossos holocaustos e, para receber o referido título, subiu as
escadas do teatro João Caetano sem bengalas.
terça-feira, 1 de maio de 2012
"Tu trabalhas, tu pensas, e executas"
O verso acima compõe o poema "Espinosa", de Machado de Assis, e faz parte do livro
Poemas brasileiros sobre trabalhadores: uma antologia de domínio público
Poemas brasileiros sobre trabalhadores: uma antologia de domínio público
Organizadores: Antônio Augusto Moreira de Faria e Rosalvo Gonçalves Pinto (professores coordenadores) e estudantes.
Edição: Faculdade de Letras da UFMG - Coleção Viva Voz (Laboratório de Edição - LABED), 2011
Disponibilizada em:
Assinar:
Postagens (Atom)



