e todo caminho deu no mar

e todo caminho deu no mar
"lâmpada para os meus pés é a tua palavra"

sábado, 5 de setembro de 2009

volta, Belchior






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I

Foi o poeta Leonardo no entanto Gandolfi d’água quem primeiro avisou: “Belchior sumiu”. Achei que era pegadinha e perguntei como. “Sumiu”, respondeu o poeta. Depois li nO Globo e soube que saiu no Fantástico. Era verdade: ninguém sabia onde estava o cantor cearense que abandonou a medicina e optou pela música. O cavaleiro andante dos sertões do Nordeste, o trovador eletrônico do Brasil, o Dom rapaz latino-americano...

Esse sumiço, para os fãs e para alguns que atuam nas áreas ligadas às artes e culturas, chega sempre de forma dúbia. Sumir, para muitos que criam, tem a ver com o mito do artista genial. Aquele que é fernandopessoamente ("Suave é viver só") inadaptado. O ser que se retira de cena por não suportar o convívio com a raça humana. Exemplar mor dessa condição na era moderna é o escritor norte-americano J. D. Salinger. Sua obra mais conhecida é o romance The Catcher in the Rye ("O Apanhador no Campo de Centeio" no Brasil e "À Espera no Centeio" em Portugal), livro publicado em 1951. Desde 1965 ele não publicou mais uma linha. Continua “desaparecido”. E vendendo. Greta Garbo é outro mito que curtia exilar-se.

II

Há no Brasil um caso semelhante, guardadas as devidas ressalvas. O escritor Raduan Nassar retirou-se da cena literária. Optou pela criação de galinha no interior de São Paulo. Isso após escrever um livro genial: Lavoura Arcaica – considerado um dos três melhores romances da década de 1970 (qual seriam os outros dois livros, hein Leonardo?, hein Gardel? hein Ector?). Hilda Hilst é outra que viveu "sumida" na Casa do Sol, até morrer em 2000. Dizia que tinha uma maldição. Reclamava do descaso da crítica com a sua vasta produção. Caio Fernado Abreu, que viveu uma época na Casa do Sol, criou uma personagem que sintetiza esta noção do sumiço na literatura contemporânea: a cantora de Onde andará Dulce Veiga.

III

Sumido, Belchior fez-me lembrar da adolescência no internato, onde comecei a escutar suas canções. Sempre recheadas de referências literárias (Poe, Baudelaire, Álvares de Azevedo, Gonçalves Dias, Joyce, João Cabral...), suas letras marcaram a minha geração. Além dos 16 discos solos, ele gravou 2 cds musicando poemas do Drummond. Após assistir a um dos seus shows, disse, no camarim, que ele havia chegado aos anos 90 (numa alusão a alguns companheiros de sua geração que permaneceram nos anos 70). Ele respondeu-me: "agora eu quero chegar aos 90 anos". Então, Belchior: volta. 63 é cedo para sumir. "Volta. Vem viver outra vez..."

ANTOLOGIA


No corcovado quem abre os braços sou eu
Copacabana esta semana o mar sou eu
Como é perversa a juventude do meu coração
Que só entende o que é cruel e o que é paixão

Paralelas


John, eu não esqueço (oh no, oh no)
A felicidade é uma arma quente, quente, quente

Comentário a Respeito de John


anjo, herói, prometeu, poeta e dançarino
a glória feminina existe e não se fez em vão
e se destina a vir ao gozo a mais do que imagina
o louco que pensou a vida sem paixão

De Primeira Grandeza


Estava mais angustiado que um goleiro na hora do gol
Quando você entrou em mim como um Sol no quintal

Divina Comédia Humana


E eu quero é que esse canto torto,
Feito faca, corte a carne de vocês.

A Palo Seco

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Ando pós-modernamente apaixonado pela nova geladeira.
Primeira escrava branca que comprei, veio e fez a revolução.
Esse eterno feminino do conforto industrial injetou-se em minha veia,
dei bandeira!
e ao por fé nessa deusa gorda da tecnologia gelei de pura emoção!

Balada de Madame Frigidaire


Sim, já é outra viagem e o meu coração selvagem
Tem essa pressa de viver
Meu bem, mas quando a vida nos violentar
Pediremos ao bom Deus que nos ajude
Falaremos para a vida:
"Vida, pisa devagar meu coração cuidado é frágil;
Meu coração é como vidro, como um beijo de novela"

Coração Selvagem


Meu pai não aprova o que eu faço.
Tampouco eu aprovo o filho que ele fez.
Sem sangue nas veias, com nervos de aço,
Rejeito o abraço que me dá por mês.

Lira dos Vinte Anos


Eu tenho medo de abrir a porta
Que dá pro sertão da minha solidão
Apertar o botão: cidade morta
Placa torta indicando a contramão
Faca de ponta e meu punhal que corta
E o fantasma escondido no porão

Pequeno Mapa do Tempo


Como Poe, poeta louco americano,
Eu pergunto ao passarinho:
"Blackbird, o que se faz?"
Raven never raven never raven
Blackbird me responde
Tudo já ficou atras
Raven never raven never raven
Assum-preto me responde
O passado nunca mais

Velha Roupa Colorida



Pois o que pesa no norte, pela lei da gravidade,
disso Newton já sabia! Cai no sul grande cidade
São Paulo violento, Corre o rio que me engana...
Copacabana, zona norte
e os cabares da Lapa onde eu morei

Fotografia 3 x 4


Minha voz quer ser um dedo
na tua chaga sagrada.
Uma frase feita de espinho,
espora em teus membros cansados:
sensual como o espírito

ou como o verbo encarnado

Sensual

4 comentários:

Anônimo disse...

Bela antologia.
Faltou apenas o verso mais bonito dele: "Viver é melhor que sonhar", concorda?
E fique tranquilo q o cara já foi
encontrado, ok?

J Mendes

N Gurgel disse...

Valeu, J
Lembrei do Milton de Travessia:
já não sonho
hoje faço
com o meu braço
o meu viver

N Gurgel

leonardo disse...

pra ficar com a dica do manel mais dois livros dos 70's (que eu nem li): "Sombras de Reis Barbudos" de José J Veiga e "Avalovara" de Osman Lins.

N Gurgel disse...

Valeu, Leo
Manoel é um exímio inventor de
romances...rs Estes 2 eu tb não li,
embora o Avalovara esteja no rol
de leitura há tempos...

abç