e todo caminho deu no mar

e todo caminho deu no mar
"lâmpada para os meus pés é a tua palavra"

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Encontro com Escritores na UFRRJ



Os textos a seguir fazem parte dos romances que os escritores Dau Bastos e Luiza Lobo lançam, nesta quinta-feira, no I Congreso Nacional Multidisciplinar de Letras na UFRRJ, Campus de Nova Iguaçu.



Boiô comparava Santa Tereza a Montmartre, devido à concentração de artistas, à arquitetura antiga e ao posicionamento sobre a montanha. Reconhecia a pobreza de sua origem, ao mesmo tempo que lhe enaltecia a presença da natureza e a riqueza étnica.

Dau Bastos, “Reima”


E o carreiro de sombras negras começou a subir o íngreme caminho de mata densa, pisando a terra escura rumo à serra de Santa Catarina, em Pati do Alferes. Sem candeeiro, no começo do quarto crescente, a lua alta no céu, subiam pela floresta com dificuldade, enxergando a custo a trilha pouco marcada no mato. No quilombo, uma vida de guerra os aguardava...

Luiza Lobo, “Terras Proibidas”




domingo, 16 de outubro de 2011

Diversidade e Inclusão


O Campus da UFRRJ de Nova Iguaçu promove, a partir desta segunda-feira, o I Congresso Nacional Multidisciplinar e a III Semana Acadêmica de Letras – Identidade e Linguagens Hoje: Olhares sobre a Diversidade e a Inclusão.


“Voz rouca da periferia” é o título da conferência de abertura que será proferida pela professora e ensaísta Heloisa Buarque de Hollanda. Além dessa conferência, Heloisa lançará Escolhas: uma autobiografia intelectual, livro publicado Ed. Língua Geral.


Outros lançamentos que se destacam durante o Congresso, de 17 a 21 de outubro, são os livros de escritores como Luiza Lobo (Terras Proibidas), Dau Bastos (Reima), Lucia Assis (Identidade e Cidadania em Lima Barreto) e Marcos Bagno, dentre outros.


Mais informações sobre o evento serão obtidas através dos telefones (21) 2669-0105 / 2669-0817 e neste link onde está a programação completa: http://r1.ufrrj.br/wp/eventos/semanaletrasim/

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Para abraçar com as retinas


I



O filme “Bruta aventura em versos”, de Letícia Simões, estreou ontem no Festival do Rio. O documentário é uma descarada declaração de amor feita pela diretora à poesia de Ana Cristina Cesar (1952 – 1983), ratificando os melhores momentos de sua poética: “Samba-Canção”, “Carta de Paris”, “O homem público n 01”...



Depois dos documentários de João Moreira Salles (“Poesia é uma ou duas linhas e por trás uma imensa paisagem”) e Claudia Morandei (“Ana C”), realizados na década de 90, este filme filia alguns escritores do século XXI à poeta de “A teus pés”. Filia e fabrica uma ponte entre os antigos e novos leitores dessa jovem senhora que quando passa deixa sempre um rastro prateado.



O filme segue esse rastro luzidio deixado pela poeta que dizia serem as cartas mais arrepiantes que a literatura. Na sua rápida passagem por nossas letras, Ana deixou um legado cultural que foi transformado em 8 volumes de poemas, ensaios, traduções, resenhas e cartas. De olho neste manancial estético e na vida de Ana C, “Bruta aventura em versos” é um roteiro cheio de luz, câmara, desejo: nenhuma treva atravessa a tela.



II



Ana afeta quem a lê. Na tela, o seu verso mexe. Vaza o afeto que se encerra no peito da poeta. Vaza na diretora emocionada, no palco, falando antes do filme começar; vaza no leitor com quem a poeta dialoga sugerindo que delete o fiasco da noite velha, o salmo inútil, o amor que já não imprime.



O afeto vaza também no espectador que se desconhece em alguns versos daquela narrativa: “não sou eu que estou ali”. Um afeto que parece dialogar principalmente com o desejo e a ternura pede roteiro para quem desentranha. O que fazer, depois da sessão, com este afeto desabrochado?


Ana tenta explicar o desejo e a ternura em cada palavra. Em cada verso. Confessa mais que carola de igreja do interior. Daí o seu apreço pela carta e pelo diário – formas que melhor conduzem e suportam a confissão.  De forma didática e com leveza, o poeta Armando Freitas Filho e a ensaísta Heloisa Buarque de Hollanda elucidam a importância dessas formas modernas na poética de Ana.



III



Seja através da sonoridade verbal ou por meio de imagens em movimento, a poética de Ana arrepia. Dá bandeira nos menores gestos. Mesmo quando a fala entope, não diz, o texto produz algum sentido. Escrita que rasura a página e a pele de quem lê.



Desejo, arrepio e bandeira é um coquetel que todo jovem adora. Por isso, a maioria dos leitores que se aventura na página cáustica e requintada de Ana C torna-se presa da sua sintaxe poética. Uma sintaxe repleta de contornos, curvas, desvios e não ditos. Sintaxe de formas e afetos numa poética cheia de ritmos.



 Como o poeta Fernando Pessoa, Ana C tem o coração despejado feito balde. Como Pessoa, ela se conhece feito verbo, sinfonia, imagem. Uma imagem em movimento que se perpetua na mente após a leitura e que, feito o tempo, não pára. Como a bela Alice Sant’Anna - exímia leitora - que aparece no filme dizendo que Ana será sempre jovem. Sim, a poeta será sempre linda, luz.


domingo, 9 de outubro de 2011

Bruta Aventura em Versos


O professor Rafael Cesar, sobrinho da poeta Ana Cristina Cesar, envia-me o seguinte texto acerca do filme que estreia amanhã no Festival do Rio 2011.
 
 
Bruta Aventura em Versos é a tentativa de agarrar a escritora Ana Cristina Cesar. Ícone da poesia marginal dos anos 1970 no Rio, Ana C. faleceu em 1983, aos 31 anos, deixando inúmeros leitores e adeptos. Partindo da apropriação de sua obra por outros artistas, o documentário procura captar a beleza e a originalidade de sua escrita através do olhar de atores, dançarinos, poetas e amigos. O filme une, pela primeira vez, imagens históricas de Ana Cristina enquanto constrói uma narrativa audiovisual a partir de seus poemas. Entrevistas com Armando Freitas Filho, Paulo José, Heloísa Buarque, Chacal, dentre outros.


Dia 10 de outubro, segunda-feira, Odeon Petrobras
15h15 – sessão de gala

Dia 11 de outubro, terça-feira, Estação Vivo Gávea 3
13h30

Dia 11 de outubro, terça-feira, Estação Vivo Gávea 1
18h10

Dia 12 de outubro, quarta-feira, Cinema Nosso
17h

Dia 13 de outubro, quinta-feira, Ponto Cine
20h

Direção Letícia Simões
Roteiro Letícia Simões e Márcia Watzl
Produção Executiva Guilherme Cezar Coelho e Pedro Cezar
Produção Letícia Simões, Luana Fornaciari e Mariana Ferraz
Fotografia Alberto Bellezia e Mariana Bley
Montagem Márcia Watzl
Música Marcos Kuzka Cunha

sábado, 8 de outubro de 2011

Ana C no Festival do Rio

Dentre os 420 filmes selecionados para o Festival do Rio 2011, destaca-se “Bruta aventura em versos”. Dirigido por Letícia Simões, o documentário possui a vida e a obra da poeta Ana Cristina Cesar como tema, e estréia no cine Odeon na próxima segunda-feira, 10 de Outubro.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Nobel de Literatura


A Academia Sueca anunciou hoje o nome do poeta sueco Tomas Tranströmer como vencedor do Premio Nobel de Literatura de 2011.



Elegia

Abro a primeira porta.
É um enorme quarto repleto de sol.
Um caminhão passa pela estrada
e faz com que a porcelana estremeça.

Abro a segunda porta.
Amigos! Bebestes da escuridão
e tornaste-vos visíveis.

Terceira porta. Um estreito quarto de hotel.
Vista sobre um beco.
Uma lanterna que brilha no asfalto.
Descobertas: belas escórias.
Sämtliche Gedichte ( Poesia completa ), Edition Akzente Hanser, 1997, tradução do sueco para o alemão por Hans Grössel. Trad. p/ português: Luis Costa


segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Mal traçadas linhas para Vanessa

 A verdadeira vida do homem está nas suas cartas

James Joyce


I


Gosto muito de cartas. Durante décadas, escrevi e recebi muitas cartas. A maioria delas foram escritas principalmente por amigos, alguns amores, parentes e colegas de profissão. Apesar de ter queimado em Pureza, no Rio Grande do Norte, grande parte do meu arquivo epistolar, ainda carrego comigo algumas cartas de pessoas que ainda carrego comigo.



Começou na adolescência. Desde então, interesso-me por tudo o que tem a ver com o universo da epistolografia. Na escrita da carta encontrei, durante anos, a forma para driblar a minha solidão de escrevente longe da família e distante de onde nasci. E assim fui escrevendo cartas. Cartas do internato. Escrevendo cartas nas noites de hotéis e nos albergues, lugares onde durante anos verti a vida em narrativas epistolares escritas à mão, à máquina, no computador.



II



Na vida e no texto, as cartas me fizeram vingar. Sem essa forma estética que solicita e confessa, a segunda metade do século XX teria sido bem mais difícil. Através da correspondência vivi, com algumas vozes, relações afetivas da maior importância para a minha formação cultural e existencial; com outras raras, construí intensos e às vezes cômicos "romances epistolares". Eram narrativas cifradas numa escrita que, embora dirigida a um outro interlocutor, me devolvia a mim. Ainda não tinha lido o Bakhtin, mas sentia ser o outro e a sua diferença a ponte para o eu.



Durante anos, ela ocupou o lugar do analista. Como acontece na análise, a minha experiência com a carta possibilitou a elaboração de uma voz.  Dependendo do interlocutor, essa elaboração sugeria a construção de um estilo. Um estilo que se desenvolvia numa sintaxe entre o pessoal e o profissional, o antigo e o novo, a cidade e o campo. Como na maioria das vezes essas dualidades se separam de forma meio esquizo na esfera pública, a carta me dava o fio da meada.



Agora a carta é coisa do passado. Transformou-se em objeto de pesquisa. Neste mundo de i-pod e outras maquinitas, muitas coisas são coisas do passado. Ficou fácil ser do passado. Mas sem drama.  Perde-se uma forma estética, como se perderam alguns instrumentos e utensílios na história da cultura, assim como desapareceram algumas profissões do passado, e outras formas e profissões surgem.



III



Como trabalho com Literatura, interessam-me principalmente as cartas de escritores. Curto muito a Carta de Caminha. Além dos 21 livros de cartas que compõem o Novo Testamento, gosto das cartas de Fernando Pessoa, Mário de Andrade, Clarice Lispector, Paulo Leminski, Caio F, Ana C...




Além de "Cartas a um jovem poeta", de Rilke, um dos livros que mais impacto me causou foi “Carta ao Pai”, do Kafka. Findava a década de 70 no internato de Jundiaí, e a querida professora Ana Linda não tinha a dimensão das mutações existenciais que a sua sugestão de leitura causara no garoto de 16 anos que eu era. Como encarar o meu pai, na voltas das férias, depois da leitura dessa Carta cujo primeiro parágrafo usa a palavra medo 4 vezes?



As cartas não mentem jamais. Ana C diz que escrevemos cartas “para mobilizar alguém”. Segundo ela, esse desejo de mobilização traduz sempre alguma alegria. Sugere algum link com a vida. Para a ensaísta de “Escritos no Rio”, é sempre o outro quem importa numa carta. Por isso, mesmo quando falamos de coisas nossas, o outro é o alvo.

sábado, 1 de outubro de 2011

Identidade e Linguagens Hoje

Encontra-se no link abaixo a programação completa do I Congresso Nacional Multidisciplinar e a III Semana Acadêmica de Letras – Identidade e Linguagens Hoje: Olhares sobre a Diversidade e a Inclusão.

O referido evento acontecerá de 17 a 21 de Outubro no Campus da UFRRJ em Nova Iguaçu. Informações sobre o evento serão obtidas através dos telefones (21) 2669-0105 / 2669-0817 :  http://r1.ufrrj.br/wp/eventos/semanaletrasim/

domingo, 18 de setembro de 2011

Machado no "país dos armários"

Transcrevo, a seguir, texto do professor e ensaísta Eduardo de Assis Duarte (Literafro/Fale/UFMG) acerca do comercial que a CEF veicula atualmente na TV, tendo o escritor Machado de Assis como "estrela".

O trabalho do referido pesquisador em torno da Literatura Afro-Brasileira pode ser aferido aqui: http://www.letras.ufmg.br/literafro/


Pessoal,

O esforço histórico de embranquecimento e conseqüente negação da afrodescendência de Machado de Assis ganha um impulso monstruoso com esse comercial da Caixa Econômica, bombardeado todas as noites em milhões de aparelhos de televisão de todo o país. Por aí se pode aquilatar o poder silencioso da branquitude, uma vez que nenhum órgão de imprensa até o momento levantou a questão e se omite diante de mais essa operação racista patrocinada com dinheiro público. Pelo que sei, cada inserção em rede nacional custava tempos atrás R$160.000,00(isto mesmo, cento e sessenta mil reais), e isto apenas na Globo, sem falar nos demais canais. Por aí, pode-se aquilatar quantos milhões estão sendo despejados nos anúncios da CEF.

E aqui cabe perguntar: desde quando caderneta de poupança precisa de propaganda? Machado branco todas as noites na Caixa consegue bater o record de estupidez e desperdício que foi a campanha anterior exaltando as vantagens da gasolina da Petrobrás... Mas o comercial da Caixa consegue atingir o cúmulo do escândalo pelo que contém de deturpação preconceituosa da imagem de Machado.

E estamos num governo que se diz progressista, de esquerda, etc., etc.

No momento em que o próprio PT está propondo no congresso uma lei de controle da mídia, seria bom que olhassem primeiro para seu próprio quintal e não permitissem absurdos como esses. A propósito, onde andam a SEPPIR, e inúmeros outros órgãos de promoção da igualdade racial, que até agora não se manifestaram? E a bancada de parlamentares negros, Paulo Paim, Edson Santos e tantos outros? Onde estão agora a Benedita da Silva, a Leci Brandão, o Movimento Negro? E o vereador-celebridade Netinho de Paula, que teve mais de 7 milhões de votos ano passado e é candidato a prefeito de São Paulo? Por que nenhum dos citados até agora se manifestou?

De novo se consegue ver, nesse país dos armários, a força onipresente da branquitude.

De novo o poder público se rende, como no episódio de Lobato no ano passado, quando 10.000 exemplares com conteúdos racistas foram comprados com o nosso dinheiro e distribuídos em escolas públicas.

É triste.

Eduardo de Assis Duarte

sábado, 10 de setembro de 2011

Congresso de Letras na Rural


Estão abertas as inscrições para o I Congresso Nacional Multidisciplinar e a III Semana Acadêmica de Letras – Identidade e Linguagens Hoje: Olhares sobre a Diversidade e a Inclusão.


O referido evento acontecerá em Outubro na UFRRJ, Campus de Nova Iguaçu, e conta com a participação de Heloisa Buarque de Hollanda,  Luiza Lobo, Marcos Bagno e Eduardo Navarro, dentre outros autores e pesquisadores.


Programação: http://r1.ufrrj.br/wp/eventos/semanaletrasim/

 

domingo, 4 de setembro de 2011

narrativa que se des-dobra


O artista plástico Luciano Figueiredo é designer gráfico, cenógrafo e pintor. Responsável por alguns dos cenários de shows e capas de dicos marcantes da Tropicália, o artista desenvolveu também projetos gráficos  para livros e revistas, como a Navilouca - editada por Torquato Neto e Waly Salomão.

Luciano começou a expor na década de 60 na Bahia. Realizou cerca de 20 exposições individuais, além de pilotar os projetos de preservação da obra de Hélio Oiticia. Sua atual exposição permanece até 07 de outubro no Arte Contemporânea em Botafogo, Rio. 

No belo texto de apresentação do catálago, Felipe Scovino diz: "Espaço-laço é a possibilidade de se executar a partir do mínimo ... uma série de possibilidades e aberturas acerca do lugar da pintura... ... É na sobra da lona que o artista inventa um espaço sobre aquilo que já era dado como concebido. ...  sua narrativa não se esgota, se desdobra."

sábado, 27 de agosto de 2011

Brecht de Aderbal

"É preciso olhar a vida no branco do olho." Essa frase pronunciada por um dos personagens de "Na selva das cidades", de Bertolt Brecht, pontua a peça  que se passa em 1912 na cidade de Chicago.  Com música, cenografia e iluminação certeiras, o drama possui  direção contemporânea e afiada de Aderbal Freire-Filho.


O elenco de "Na selva..." assombra. Daniel Dantas, Maria Luisa Mendonça (impecável) e Milton Filho, dentre outros, lecionam no palco o que é a educação de um ator.Vi algumas das peças mais elogiadas ultimamente aqui no Rio. Nenhuma como esta do autor que dizia não andarem bem juntas a arte e a moral.  Além da qualidade do evento, o preço é ótimo e a temporada vai até 09 de outubro.Vale a pena um novo assombro.


sábado, 20 de agosto de 2011

alegria de Clarice

"Dar a mão a alguém sempre foi o que esperei da alegria".

A frase acima é a inscrição que li, nesta quinta-feira, no túmulo de Clarice Lispector, no cemitério do Caju - zona portuária do Rio.

Para a comunidade judaica, as flores significam festa. Por isso só encontrei pedrinhas sobre a lápide da autora que dizia ter vindo ao mundo para amar o outro, escrever e criar filhos.

O epitáfio de Clarice me fez lembrar Augusto dos Anjos. São do poeta paraibano os versos usados por ela na epígrafe de Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres: "...a mais alta expressão da dor consiste essencialmente na alegria".

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Surto com rajada de água lusa



Para Vanessa M


Uma versão deste texto foi publicada em março de 2009 em:
http://www.adrianacalcanhotto.com/sec_textos.php?page=3&type=5&id=522
 


 I
Com capas coloridas e título recortado com letras de caixas de remédios, Saga Lusa (2009), de Adriana Calcanhoto, é um livro extremamente corajoso. Texto testemunho, a obra narra um surto psicótico da autora. Essa  narrativa tem tudo a ver com o contexto bélico e de superfície vivido atualmente no universo artístico e cultural, onde a memória e o referente ganham uma importância antes creditada mais ao imaginário. Repleto de referências existenciais, o texto recicla informações artísticas e culturais e brinca consigo neste grau:


Minha mãe sempre me disse que um dia eu ia escrever um livro, gozado. A gente se esforça, batalha, luta, faz psicanálise, vai ao teatro, tudo, pra se constituir, pra ter recorte. Aí, na primeira surtadinha faz o quê? O que mamãe queria. Não sei não, achei meio caído.

"To surtada, não surda” é um “capítulo” que dá o tom deste texto onde “curvas enganam o olhar”. A narrativa é um prato cheio para psicólogos, psiquiatras, educadores e afins. Nela, a cantora narra como, através da escrita, encarou a Coisa (“ela ruge na tua cara”) durante a excursão do seu cd Maré por Portugal, “cara a cara com a multidão e seu deserto”. No seu “rito de passagem”, Adriana pede socorros a analistas e psiquiatras. Cancela shows, visita hospitais. Surta com a lucidez e os roteiros de Suely – a produtora acesa de todas as horas.



II

Em sua viagem lusa, a autora transita por uma zona limite perigosa, onde a maioria evita ir, embora um número cada vez maior de contemporâneos tenha ido (geralmente sem assumir que foi). Neste trânsito entre as imagens criadas pelas pílulas, as cenas midiáticas e as figurações contextuais ao seu redor, ela contata uma dimensão psíquica antes relacionada à loucura. Hoje, o contato com essa dimensão é cada vez mais administrado nos meios culturais e sociais; seja através do uso de pílulas ou por meio da criação, por parte da psiquiatria, de siglas como TOC e outros transtornos mentais (será mesmo verdade que, ao nomear, o homem perde o medo do que desconhece?).

Como nas canções, a escrita de Adriana Calcanhoto possui leveza e humor – ingredientes raros em nossas letras geralmente comprometidas em documentar algum contexto, representar algum tipo de “real”. Saga Lusa faz rir. Faz sentir prazer e pensar: “O que não pode é panicar, descontrole cognitivo, essas baixarias”. O livro é um recorte da subjetividade aflita e fragmentada que circula por cenários bélicos pós 11 de setembro, e só quem é bobo não saca. Diz muito da nossa condição doída, das identidades em trânsito nesta primeira década do milênio. Mas sem drama, encarando a Coisa: “Me erra, Coisa. Vai, sai, que este corpo não é teu.”
 

Sabemos que toda criação requer uma ruptura com a ordem vigente ou com alguma coisa que nos integra ou circunda. Concluída a leitura deste livro, lembro de Nise da Silveira e do seu Museu do Inconsciente. Lembro também de Van Gogh, Gauguin, Byron, Tolstoi, Antonin Artaud, Schummam, Lima Barreto, Arthur Bispo do Rosário... São tantos os nomes, na história da arte e da cultura, que ultrapassaram os limites do que chamamos normalidade...


Embora os tempos não sejam nada platõnicos, concluo com uma pergunta que remete ao filósofo da abstração que cria no sentido eterno, imutável. A pergunta é: haveria nesses criadores citados acima e na própria Saga... de Adriana alguma centelha daquela espécie de "loucura divina" que Platão lia como fundamento de toda criação?

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

O livro como extensão da vida

Uma versão desta entrevista foi publicada, na semana passada, na Revista Dedo d' Prosa da UFRRJ e no site Substantivo Plural

Nonato Gurgel é professor adjunto de Teoria da Literatura da UFRRJ e doutor em Ciência da Literatura pela UFRJ. Cursou Mestrado em Estudos da Linguagem, Especialização em Literatura Brasileira e Graduação em Letras na UFRN.  Lecionou na UFRN, UFRJ, UERJ, UNIGRANRIO e várias escolas do Rio Grande do Norte. Atuou como pesquisador da FAPERJ e da EMATER.

Atualmente, cursa pós-doutorado no PACC – Programa Avançado de Cultura Contemporânea da UFRJ e conclui o livro “Luvas na Marginália”.  Disponibiliza as suas produções culturais e acadêmicas no blog Arquivo de Formas: http://arquivodeformas.blogspot.com



1     – Observando o seu currículo, percebemos haver algumas publicações relacionadas a experiências na área de Teoria Literária. Em que consistem tais publicações?



NG: Estas publicações são resultados das leituras que venho desenvolvendo desde a década de 80, quando me graduei em Letras na UFRN. São leituras pautadas, principalmente, na ficção moderna do século XX e na poesia contemporânea, e que levam em conta as formas e as noções de identidade do meu tempo. Com base nessas leituras, realizei algumas pesquisas que divulguei em livros, revistas, jornais e sites virtuais, onde leio quase sempre os mesmos autores: Euclides, Clarice, Guimarães, Ana C, Caio F, Leminski, Calvino, Camus... Na área da Teoria, releio Homi Bhabha, Zygmunt Bauman, Stuart Hall e os de sempre: Walter Benjamin, Roland Barthes, Mikhail Bakhtin, Freud, Lacan, Compagnon...  



2     – Sabendo que é natural de outro estado, o que o motivou a vir para o Rio de Janeiro?



NG: O curso de doutorado em Ciência da Literatura da UFRJ. Até 1998, quando cheguei no Rio, não havia doutorado na área de Letras na UFRN. Essa motivação das letras, esse deslocamento do RN para o RJ é muito importante. A partir daí tracei um roteiro de vida e trabalho que inclui alguns dos espaços mais instigantes, sedutores e provocativos por que vivo: o Rio de Janeiro e a Baixada Fluminense.



3     Qual é a importância de lecionar Teoria Literária, no campus da UFRRJ, na Baixada Fluminense?



NG: Durante mais de 5 anos lecionei na UNIGANRIO, em Duque de Caxias. Tive lá uma experiência bastante produtiva com diferentes cursos de graduação como Letras, Pedagogia, Comunicação, Educação Física, Informática... Portanto, quando vim lecionar na Rural, eu já conhecia o potencial e a multiplicidade do público da Baixada.



 Acho o máximo lecionar no curso de Letras de Nova Iguaçu. Para mim é uma coisa natural porque fecha um ciclo da minha vida profissional. Quando prestei concurso para a UFRRJ, escrevi um memorial que começa assim: “O meu percurso profissional e existencial é pautado numa dualidade que se concretiza na relação entre as pesquisas acadêmicas e a ação da extensão rural.”



Essa dualidade começou a pautar a minha vida quando concluí o curso Técnico em Agropecuária e fui trabalhar na EMATER-RN – Empresa Brasileira de Assistência Técnica e Extensão Rural. Nesta empresa, desenvolvi longo trabalho de extensão rural junto a líderes comunitários, agências bancárias, grupos de jovens e de pequenos produtores rurais em quatro municípios do RN: Serra Negra do Norte, Jardim do Piranhas, Pureza e Ceará-Mirim. Enquanto desenvolvia esse trabalho de extensão rural nestes municípios, cursava Letras na UFRN e lia muita poesia e os manuais de Victor Manuel, Antonio Candido e Alfredo Bosi, dentre outros livros.



Em meio a outros teóricos e críticos, Cândido e Bosi continuam sendo referências na Rural de Nova Iguaçu onde leciono Teoria da Literatura. Respondendo a pergunta, creio que a importância dessa disciplina esteja no fato dela sugerir, através da literatura, um exercício reflexivo que é bastante crítico. Além desse exercício, a teoria aciona um mergulho no imaginário que possibilita a produção de formas e idéias. Num momento histórico no qual a Baixada Fluminense se afirma socialmente como espaço gerador de formas e linguagens, penso que a teoria pode ajudar a ler e formatar os discursos que engendram as relações éticas, políticas, existenciais e afetivas. Ajuda também na leitura e na construção de traços identitários. Por isso creio que a teoria auxilia na projeção de roteiros de vida. Ou seja: é o momento da Baixada dizer e ela diz. O dorso da baixada fala. Eu vi isso no ano passado quando lecionei um curso sobre a Floração da Prosa no Sertão. Este curso aconteceu na Casa da Leitura, no Rio, e os alunos da Baixada se destacaram numa platéia onde havia professores, escritores, tradutores, coordenadores de cursos, estudantes de graduação e de pós-graduação...

 

4     Quais obras influenciaram na sua formação como intelectual e profissional na área de Letras?



NG: São muitas obras, mas vou destacar apenas algumas: “Magia e Técnica, Arte e Política” e “A origem do drama barroco alemão”, de Walter Benjamin; “Ensaios”, de T. S. Eliot; “Formação da Literatura Brasileira”, de Antonio Cândido; “Os sertões”, de Euclides da Cunha; “Grande Sertão: veredas”, de Guimarães Rosa; “A lição do amigo”, cartas do Mário de Andrade para Carlos Drummond; “Cenários em ruínas”, de Nelson Brissac Peixoto; “Seis propostas para o próximo milênio” e “Palomar”, de Ítalo Calvino e “O local da cultura”, de Homi Bhabha.



A leitura é uma ação. Através dos livros fundamentei a minha existência como homem e cidadão. Sou muito borgiano no sentido de amar a vida e os livros como uma extensão dela. Questiono se eu sobreviveria num mundo sem livros. Eles me “salvaram”: Kafka, Pessoa, Carlos Drummond, Gilberto Freyre, Câmara Cascudo, Graciliano Ramos, James Joyce, César Aira, Henrique Vila-Mata... Seus personagens e narradores foram os meus heróis desde a infância e continuam.