e todo caminho deu no mar

e todo caminho deu no mar
"lâmpada para os meus pés é a tua palavra"

segunda-feira, 27 de junho de 2011

sem bis, please

Vale do Ceará-Mirim, outubro de 2006



My dear


Enquanto esquentam os pratos na cozinha, ponho em silêncio a mesa. Atento para a combinação das cores. Azul já não espanta, nem o laranja nada tece. Penso nas mesas postas para você, suas demoras, vindas adiadas. Por pouco não me corto nesta faca. Nunca o objeto inerte, afiado, disse tanto nas suas bordas repuxadas, irritadas, mas generosas. Bordas fartas, não nego. Como me excita essa expectativa de mesa posta... Corte. Enquanto ponho a mesa, espero esta nova linha pós break, e conjugo um verbo antigo conhecido de guerra em todas as eras por que passei: suportar.


Mastigamos em silêncio. Ao lado, ela vive o martírio de um dente que não consegue, certeiro, cortar a asa. Termino o jantar e retomo a leitura de onde havia parado. Tenho o ritmo do ventre e da página virada com a sofreguidão de quem crê que a cada palavra lida deste livro eu decifro a esfinge e a devoro na sequência. Balela. Eu, nesta idade, já devia saber. Não. Eu sei que não devia (mas eu não consigo dormir sem
लेर, você consegue?).


Cena detalhada do capítulo de ontem: no ar, a velha hipótese roseana de que a visão amplie alguma perspectiva e o obstáculo seja mutável. Tenho, como você, pensando nisso também. Como eu sei? Sei porque te leio. Visito o teu blog sempre que posso. Essa terra virtual é estranha mas aduba a curiosidadade, nutre a angústia comunitária. Curto muito. Curto, no blog, o sangue pingando ao lado dessa palavra sem cor se derramando... E olhe que dá pra segurar, sim. Nada de explosão que eu não sou o Gonzaguinha!

Amei a foto. Quando puder diga, mesmo pelo blog, qual é a leitura da imagem da máscara. Fico de pau duro só de fitá-la. Curto a nuca, os cabelos pretos, a cabeça no espelho.Torço com uma força que me surpreende. Foi olhando essa foto que decidi: não quero mais brincar de extremos com você. Chega do lugar periférico que ocupo na sua história, porra. Esta foto é pura epifania. Acende o pavio da imaginação e a reta. Só você conhece o resto, porra. O espelho afasta o fantasma do retorno que dormiu comigo no sonho de ontem. O espelho disse que eu tenho um espelho embutido no corpo e por isso não posso bruscamente voltar para trás. Fiquei pensando no rosto do espelho, pensando no rosto abissal carregando um espelho.

Ontem à noite encerrei uma sessão de análise falando da lucidez de quem traz consigo uma primavera – iluminada estação – e vive, ao mesmo tempo, um inverno feroz. Queria muito te conhecer noutra estação. Nesta teve o espelho embaçado pelo gelo da Glória, as galinhas de Botafogo, a bibliografia que você pediu e não usou...


Mesmo sabendo que é o fim, admito, enquanto vejo a novela, que você às vezes ainda re-escreve a noite. Preciso parar de pensar assim. Por pouco não me corto nesta faca... Nunca o objeto inerte... nas suas bordas irritadas, generosas... Bordas fartas, não nego, mas vê se por favor não responde.


6 comentários:

Anônimo disse...

Passei por aqui e amei.
Bj. Valéria Lourenço.

Nonato Gurgel disse...

Valéria, amo os seus comentários de passagens (mais Benjamin...rs)

bj

Alexandra Moraes disse...

faca de dois gumes

Anônimo disse...

"Esta foto é pura epifania. Acende o pavio da imaginação e a reta. Só você conhece o resto, porra. "

muuuuito bom, porra
vou voltar

JL

Noanto Gurgel disse...

volta sim, JL

Monique Brito disse...

lindo.